"Repressão foi atraso para o jornalismo investigativo", diz Chico Otávio, sobre os 40 anos do AI-5

"Repressão foi atraso para o jornalismo investigativo", diz Chico Otávio, sobre os 40 anos do AI-5

Atualizado em 12/12/2008 às 18:12, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

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No dia 13 de dezembro de 1968, há exatos 40 anos, instaurava-se no Brasil o Ato Institucional Nº 5, parte de uma série de decretos do regime militar - que tomou o poder do país em um golpe em 1964. De autoria do então presidente Artur da Costa e Silva, o documento fortalecia o regime, que em uma primeira ação anunciou o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano.

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O jornalista Chico Otávio
Entre outras coisas, o ato determinou também a censura prévia à música, ao teatro, ao cinema e ao jornalismo, proibindo assuntos relacionados à política e a valores considerados "imorais" pela ditadura. Para lembrar os 40 anos do documento e de outros episódios marcantes de 1968 - como a "Primavera de Praga", na Tchecoslováquia, a Guerra do Vietnã, as manifestações dos estudantes franceses e a morte de Martin Luther King - o jornalista Chico Otávio, do jornal carioca O Globo , abordou durante todo o ano estas datas em reportagens especiais.

"Eu tive a idéia e desde o início do ano estive envolvido com efemérides dos 40 anos de 68. Comecei e terminei o ano propondo este tipo de pauta para a redação", conta o jornalista. O primeiro produto foi um especial sobre a ofensiva Tet, em que os vietcongues atacaram as forças americanas e sul-vietnamitas. "Fiquei 11 dias no Vietnã em janeiro, foi muito produtivo", diz.

Para encerrar a agenda 68, o jornal publicou, durante toda esta semana, uma série especial do jornalista sobre o AI-5. Chico Otávio acredita que o episódio não poderia passar em branco e, para tentar fazer algo diferente - já que o assunto sempre foi fortemente abordado pela imprensa - pensou em mostrar o lado dos civis, e não dos políticos e militares.

"De certa forma consegui apresentar enfoque novo, mas reconheço a polêmica, pois bati de frente com os que querem vender uma visão maniqueísta do assunto, separando de um lado os generais e do outro a sociedade. A série tenta mostrar que uma infinidade de pessoas transitavam por ambos os lados, iam e voltam, concordavam e discordavam", afirma o repórter.

Uma dessas situação foi mostrada por Chico Otávio na última quinta-feira (11), com a matéria "ABI flertou com regime que depois combateria". No texto, ele cita um episódio em que o general Costa e Silva foi homenageado pela ABI (Associação Brasileira de Imprensa) em um almoço do 60º aniversário da entidade.

"Nem sempre a ABI esteve na trincheira da resistência democrática; havia um conflito. É claro que houve uma tentativa de dialogar com o regime para garantir a liberdade de imprensa, mas havia muita gente mal intencionada, não só lá como em todos os lugares. Esta atitude da ABI é um reflexo da contradição da sociedade, exeplifica como todos agiam".

Para ele, não se pode esquecer que os dez anos de AI-5 travaram uma revolução no jornalismo do Brasil. "Houve muitos colegas determinados, heróicos, que lutaram e criaram outras plataformas, como a imprensa alternativa. Era muito mais difícil defender os direitos humanos naquela época do que hoje, temos que exaltar nossos colegas que estiveram nas trincheiras. Mas a repressão e a ditadura foram um atraso para a imprensa, principalmente para o jornalismo investigativo. Ele só voltou a existir de fato com as denúncias sobre o Collor, em 1992. Isso faz com que a gente ainda tenha muito a aprender com este atraso", concluiu o jornalista.

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