Repórteres relatam os desafios de fazer cobertura em zonas de conflito
“Para fazer um bom jornalismo, você precisa estar no local dos fatos e ver de perto o que está acontecendo”. A frase de Klester Cavalcanti, jornalista baseado na Síria, parece valer para todo repórter, mas ganha um significado especial quando o assunto é cobertura de guerra.
A discussão em torno do exercício desse tipo de jornalismo ainda está presente nas redações. No entanto, o grande motivo para arriscar a própria vida por uma boa noticia parece ser a busca para narrar o lado humano dessas historias.
Em maio de 2012, o jornalista Klester Cavalcanti foi registrar a realidade da guerra civil na Síria iniciada um ano antes. Partiu para Beirute, no Líbano, com toda a documentação em ordem e um contato esperando-o na cidade de Homs, epicentro do conflito entre as forças do ditador Bashar al-Assad e os rebeldes do Exército Livre da Síria. Até hoje, Klester é o único jornalista brasileiro a entrar em Homs.
Ele planejava acompanhar por alguns dias a ação dos rebeldes. No entanto, foi preso pelas tropas oficiais, torturado e encarcerado por seis dias numa cela que dividia com mais de 20 detentos. A experiência é narrada pelo jornalista em seu livro “Dias de Inferno na Síria”. “Eu fui pra lá por que eu queria ver o que estava acontecendo de verdade. As noticias são muito frias e numéricas. Ninguém mostra o lado humano da guerra”, ressalta.
Recentemente, o jornalista Hugo Bachega ficou cerca de sete horas detido no Egito por policiais em meio à crise política no país. Ele foi preso quando deixava a Praça Ramsés, um dos pontos de conflito no Cairo. A detenção do brasileiro ocorreu em meio a um clima hostil para profissionais estrangeiros no país, que deixaram vários mortos.
Hugo conta que cobrir o conflito no Egito foi uma experiência diferente pelo fato de já morar no país e poder acompanhar de perto o cotidiano dessas pessoas que, há meses, estavam cercadas por um estado de decepção com a crise econômica e política.
Bachega relata que uma das coisas que mais o impressionou foi a falta de comoção. "Essa é uma parte do mundo acostumada a conflitos, violência e mortes, mas, mesmo assim, me espantou a naturalidade com a qual o país enfrentou isso – no dia seguinte, a vida já havia praticamente voltado ao normal", diz.
Desafios
Na prisão, o grande desafio de Klester foi tentar manter a sanidade para conseguir encarar a situação. Segundo ele, a angustia de não saber o que iria acontecer nos próximos dias era imensa.
No entanto, mesmo com o clima hostil, ele diz que ainda há sentimentos que revelam a empatia da população. “O que mais me impressionou foi ver que mesmo num ambiente de guerra e pavor, você consegue encontrar pessoas boas, consegue encontrar generosidade, carinho, amizade e amor. Isso foi o que mais me tocou lá”, explica.
Hugo afirma que no Egito as autoridades deixaram claro a insatisfação com a cobertura da imprensa. Para eles, a mídia havia adotado um tom favorável aos simpatizantes islâmicos, o que atingiu também a população, que se voltou contra correspondentes. “Esses dias foram os mais problemáticos para se trabalhar nas ruas”, confessa.
Bachega pontuou ainda a importância de estar preparado fisicamente, com treinamentos, equipamentos, mas também, psicologicamente. “Cobrir conflitos é muito mais do que estar fisicamente preparado – significa ter a capacidade psicológica de atravessar momentos difíceis e sombrios”, diz.
A Cobertura
Segundo Klester, os veículos são passiveis de dados que não podem verificar. O repórter diz que a experiência só reforçou sua visão do jornalismo. “Para fazer um bom jornalismo, você precisa estar no local dos fatos e ver de perto o que esta acontecendo”, diz.
Para Bachega, o principal desafio é traduzir um cenário complexo à maioria das pessoas que não acompanham os conflitos. O jornalista ressalta a importância de contar essas histórias que deixaram um número muito grande de vítimas. “De maneira geral, a imprensa conseguiu expor diversos dos problemas que afetam o país e que explicam os motivos do Egito se encontrar no caos atual”.
Hugo afirma ainda que repórteres que cobrem conflito o fazem por escolha e com o objetivo de narrar a real situação das pessoas. “Para mim, cobertura de conflito não é sobre os que se atacam, mas são as centenas de histórias daqueles que se veem envolvidos”, completa.
*Com supervisão de Camilla Demario





