Repórteres e editores debatem sobre o perfil hierárquico nas redações

Existe um perfil para seguir em determinada área ou seria uma escolha do próprio jornalista?

Atualizado em 28/07/2014 às 11:07, por Alana Rodrigues*.


A mais elevada figura hierárquica das redações está dividida entre a atuação de eternos repórteres que deixaram e ainda imprimem suas marcas nos jornais e por aqueles que encontram na gerência uma nova função para guiar reportagens de uma equipe inteira. Existe, entretanto, um perfil para seguir em determinada área ou seria uma escolha do próprio jornalista?
Para a repórter Elvira Lobato, há sim um perfil que distingue a melhor posição para o profissional. “Um bom repórter não será necessariamente um bom chefe. Em 39 anos de profissão, eu só fui chefe durante uma semana e me tiraram do cargo porque viram que não funcionava (risos). Eu já fui chefiada por pessoas muito mais jovens do que eu, mas que sabiam fazê-lo”, explica.
Crédito:Divulgação Elvira Lobato
Elvira formou-se em jornalismo pela UFRJ e começou a profissão, ainda estudante, como freelance no Jornal do Brasil e no Opinião . Especializou-se em economia nos anos 70, atuando em revistas do ramo e, em 1984, ingressou na Folha de S.Paulo , onde trabalhou por 25 anos. Venceu o "Prêmio Esso de Jornalismo" em 2008 com reportagem que tratava sobre o crescimento do patrimônio da Igreja Universal, e o "Grande Prêmio Folha de Jornalismo" em 1999 e em 2004.
A jornalista conta que sempre foi muito curiosa e recebeu apoio de seus professores para seguir na profissão ainda no ginásio. Na faculdade, bolava as pautas e saía às ruas para fazer matérias sozinha. Quando iniciou na profissão, no início dos anos de 1970, o sonho dos repórteres era chegar ao cargo de redator, chefe de reportagem ou editor. “O repórter era a base da pirâmide do trabalho e símbolo de má remuneração. Esse cenário mudou muito”, esclarece.
Embora não tenha passado por nenhum grande problema durante a carreira, ela relata que o maior desafio é corresponder às necessidades do trabalho, estar conectado o tempo inteiro e se dedicar àquilo que faz. “Nunca pensei em ser outra coisa porque sempre tive um fascínio enorme por estar presente no momento dos fatos. Ver pessoas e ouvir histórias”, completa.
Crédito:Arquivo pessoal Adriana Carranca
Vocação Adriana Carranca, repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo , acredita que é uma escolha do jornalista. O que influencia, pondera, são os planos de carreira do jornal. "As redações compreenderam que alguns profissionais têm mais afinidade com a reportagem e que querem continuar para sempre, como eu, e também preveem um plano para outras pessoas”.

A jornalista se dedica a temas como conflitos, religião e direitos humanos. Fez coberturas no Afeganistão, Paquistão, Irã, Israel, territórios palestinos, Egito, Indonésia, República Democrática do Congo e Haiti. Já passou pela TV Tribuna, Diário Popular , em publicações da Editora Abril, revista Já e Veja São Paulo . Ganhou o Grande Prêmio Líbero Badaró de Jornalismo e cinco edições do Prêmio Estado de Jornalismo.
Adriana ressalta que o jornalismo é um trabalho de equipe e que outras funções como a do editor, também são importantes para integrar o trabalho feito na reportagem. Em seu caso, acredita ser uma questão de vocação.
"Eu gosto de estar na rua, tenho curiosidade para conhecer os lugares e as histórias. Tenho, genuinamente, vontade de conversar com as pessoas, ouvi-las realmente. Às vezes, até esqueço que eu estou trabalhando. Ali é onde eu me realizo", diz.
Crédito:Divulgação Neide Duarte
Da reportagem à edição A repórter Neide Duarte, da TV Globo, avalia que quando o jornalista segue na reportagem ou editoria, ele já tem em mente suas aptidões. No seu caso, além de se dedicar às matérias, Neide também tem afinidade com a edição. “Eu adoro editar. É lá que você desenha a matéria e dá o corpo final para ela. Se eu pudesse, editaria todas”, diz.
A jornalista iniciou a carreira no início dos anos 1970. Teve passagens pelo Diário Popular (SP) e Jornal da Seman a (SP). Em 1977, integrou a redação da Folha de S.Paulo (SP), onde permaneceu até 1979. Depois, passou a fazer reportagens como freelance para O Globo, até ser convidada a participar da TV Globo, em 1980. Na emissora, consolidou a sua vocação para as matérias de comportamento. Durante 16 anos, trabalhou para praticamente todos os telejornais da emissora.
O contato mais próximo de Neide com cargos de gerência foi na TV Cultura, onde dirigiu e apresentou o programa “Caminhos e Parcerias” de 1998 a 2005. Apesar da afinidade com a edição, Neide relata que não se imagina em outra posição além de repórter. “É ele que vai aonde as pessoas não vão, é quem está na rua, quem não tem as coisas prontas. Só quem é repórter sente o encanto da rua e faz você mudar o rumo de uma matéria porque é o que você está vendo”, pondera.
Para ela, o desafio do jornalista é fazer uma reportagem onde se diz tudo, além de lidar com o improviso das pautas, que alteram de acordo com o que o profissional encontra ao fazer a matéria. “Na TV, você tem que ver as imagens que possui e fazê-lo em cima delas. Um texto que revele alguma outra coisa que a imagem sugere, mas não diz totalmente. Algo que surpreenda o telespectador e que faça ele, de alguma forma, completar o seu raciocínio”, completa.
Crédito:Divulgação Marta Gleich
“Outra profissão” Marta Gleich, atual diretora de redação da Zero Hora e dos jornais do Grupo RBS no Rio Grande do Sul, conta que resistiu para aceitar o cargo. A jornalista foi revisora, repórter, repórter especial, editora de "Geral" e editora-chefe entre 1997 e 2007.
Em 1991, ela recebeu o convite do então diretor de redação da ZH , Augusto Nunes, após recusar algumas vezes, decidiu topar e viver a experiência. “É muito boa a vida de repórter. Ser repórter significa que você é responsável apenas pelo teu trabalho. Já o editor é responsável pelo trabalho dos outros. São outros assuntos e praticamente outra profissão”, diz.
Apesar da resistência, encontrou uma nova paixão no ofício. “Sou muito apaixonada pelo trabalho de um modo geral e rapidamente eu me apaixonei por ser editora. Não foi muito penoso ‘trocar de profissão’. Rapidamente me imbui da tarefa de tocar uma editoria”, relata.
Martha acredita no perfil de cada profissional e destaca que ser gestor também implica em saber as técnicas jornalísticas para poder filtrar os dilemas dos repórteres, encontrar erros nas matérias, descobrir informações e tratar de estratégias. "Para ser um grande editor, você tem de ter sido um grande repórter", destaca.
A jornalista diz que, embora goste muito de escrever, atualmente não sente falta de produzir reportagens. Martha dedica seus textos para sua coluna de domingo na Zero Hora . "O trabalho de gestão é tão variado, desafiador todos os dias. Há uma riqueza de coisas que te abre horizontes", acrescenta.
Na reportagem, Martha acredita que o maior desafio é encontrar a melhor história. Segundo ela, um bom repórter não pode ser só pautado, ele deve fazê-lo. Enquanto na gerência, a dificuldade está na formação da melhor equipe e inovação permanentemente. "Uma grande reportagem é como um quebra-cabeça. É preciso um tempo para ouvir todas as pessoas e apresentar todas as informações possíveis".
Crédito:Divulgação Sérgio Dávila
‘Mix’ de cargos Com mais de 20 anos de experiência no jornalismo, Sérgio Dávila saiu da reportagem há quatro ao ser convidado para assumir como editor-executivo da Folha de S.Paulo. "Senti deixar a vida de repórter", diz, apesar de ficar contente com a proposta. "Era e continua sendo um desafio muito grande estar nesta posição num grande jornal", acrescenta.
O jornalista já foi correspondente nos EUA, onde cobriu o 11 de Setembro e a eleição de Barack Obama, além de ser único repórter brasileiro no início da Guerra do Iraque, experiência que rendeu o Prêmio Esso de Reportagem 2003 e o livro "Diário de Bagdá – A Guerra do Iraque segundo os bombardeados". Antes disso, foi editor da "Ilustrada", repórter da Revista da Folha e trabalhou nas revistas Veja SP e Playboy.
Dávila conta que sente falta da reportagem, mas se desafia a escrever ao menos um texto e fazer uma apuração por mês, o que nem sempre é possível. A última reportagem que fez foi retornar ao Iraque no décimo ano da guerra, em março de 2013. "Fui com o mesmo parceiro da primeira vez, o fotógrafo Juca Varella. De novo, foi uma experiência inesquecível - e perigosa", relata.
O editor avalia que um dos desafios do repórter é fazer jornalismo independente, isento, transparente e de qualidade. "Na reportagem, seu texto passa por alguns filtros até a publicação. Na edição-executiva, muitas vezes você é o filtro final", diz.
Para ele, seguir na reportagem ou em cargos de gerência implica na escolha do profissional e pela vocação. Alguns, explica, são totalmente voltados para a reportagem, outros, para a editoria, mas ainda há os quais qualifica como "anfíbios", que podem atuar em ambas as funções. "Poder contar com o mix dos três nas redações é que faz nossa profissão tão interessante", conclui.
Crédito:Divulgação Ivan Martins
Dupla jornada
O jornalista Ivan Martins, editor-executivo da revista Época , diz que dois fatores cercam os desafios cotidianos do editor: o editorial e o de gestão, sobretudo, de pessoas. “É preciso lidar com expectativas, problemas e aspirações. Isso é muito difícil numa equipe grande. Algumas vezes faltam profissionais para mão de obra desenvolvida e é necessário administrar e, ao mesmo tempo, proporcionar a satisfação para quem está trabalhando”, explica.
O editor avalia que a parte editorial é mais tranquila. “Você tem que orientar sua equipe, ficar antenado, acompanhar todo mundo de perto e se manter parte como repórter também. Conversar com fontes e escrever matérias, por exemplo”, acrescenta.
Martins trabalhou como repórter de tecnologia na Folha de S.Paulo , no Jornal do Brasil e na revista Veja, onde também atuou como editor assistente. Ele saiu da reportagem quando foi para O Estado de S. Paulo em 1988, aos 28 anos, ao ser convidado pelo jornalista Augusto Nunes para assumir como editor de Geral.
Mais tarde, passou pelas redações das revistas Exame, IstoÉ Dinheiro e IstoÉ Negócios , todas em cargos de gerência. Já na Época Negócios foi editor-executivo, redator-chefe e, por um curto período, foi repórter especial.
Ivan relata que não fica apenas na função de editor, mas procura um envolvimento maior nas matérias de sua equipe, como fazer entrevistas, para não depender apenas da apuração do repórter e criar um melhor diálogo até ajustar a reportagem.
Para ele, há um perfil para ser repórter ou editor, mas é uma questão ligada também com a opção. “As escolhas não são determinadas no vazio. Há afinidade. Depois de algum tempo, o profissional começa a perceber o que faz de melhor. Tem editor de todos os tipos, personalidades e formação, assim como o repórter”, pondera.
No jornalismo brasileiro, relata ele, as redações não pagam suficientemente bem para os repórteres, o que faz com que ele siga para outras áreas e suba na hierarquia ao mesmo tempo em que pode exercer a função escolhida sem talento por conta da remuneração.

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* Com supervisão de Vanessa Gonçalves