"Repórter sai do seu papel de narrador único", diz Tiago Mali sobre jornalismo de dados

Data Journalism Handbook (Manual para Jornalismo de Dados, em tradução livre) iniciativa do European Journalism Centre e da Open Knowledge Foundation, livro gratuito e colaborativo que ensina jornalistas a usar dados para contribuir com a elaboração de reportagens, ganhou sua primeira versão brasileira.

Atualizado em 07/02/2014 às 15:02, por Alana Rodrigues*.



Crédito:Arquivo pessoal Tiago Mali comenta a importância do jornalismo de dados
Lançado oficialmente no último dia 30 de janeiro, na sétima edição da Campus Party, a obra é fruto do trabalho desenvolvido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) com coordenação do jornalista Tiago Mali, atual redator-chefe da Galileu , em colaboração de 26 voluntários.

A versão em inglês se consagrou após o auxílio de dezenas de pessoas reunidas num workshop no Festival Mozilla de 2011. Desde então, vem sendo atualizado e ampliado com novas contribuições. A edição brasileira, que já está disponível em formato , inclui capítulos produzidos por Claudio Weber Abramo, Alberto Cairo, Marcelo Träsel, José Roberto de Toledo e Gustavo Faleiros.

Mali, que ministra cursos e escreve em sua coluna na Galileu sobre o assunto, conta que além de promover a tradução, o objetivo principal era que o trabalho também contemplasse outros capítulos, abordando como o jornalismo de dados se aplica no Brasil. “Foi aí que a Abraji me contatou para coordenar o projeto e nós organizamos essa edição do Manual”, explica.

Dados no Brasil - Construindo a Narrativa

O jornalista destaca que já existem boas iniciativas de jornalismo de dados no Brasil como no Estadão , Folha de S. Paulo , A Gazeta do Povo e Zero Hora , mas enfatiza que falta material de referência e reflexões sobre o tema, pois ainda não há um cenário compatível com o tamanho do país.

“Isso faz com que esse tema comece a ser cada vez mais dominado por hackers que têm um interesse especial em dados públicos, que começam a fazer um trabalho muito interessante também, mas, algumas vezes, é deixado pelos jornalistas por alguma falta de interesse maior dos meios de comunicação tradicionais. Fica difícil estimular um debate já que eles ainda estão engatinhando”, esclarece.

Uma das contribuições do manual, segundo ele, é que além de mostrar os trabalhos no Brasil, apresenta o “caminho das pedras” com dicas para os jornalistas que querem se aprofundar melhor, colocando essas iniciativas em contexto. Para Mali, esse tipo de jornalismo permite criar várias narrativas e deixar que elas também sejam contadas pelos próprios leitores. ”O jornalista sai do seu papel de narrador único. Há uma série de reflexões, como o papel da Lei de Acesso a Informação, e como ela é usada no país”, acrescenta.

Crédito:Reprodução Manual lançado no Campus Party
Olhares dos leitores

Tiago diz que há diversas maneiras para conquistar o olhar do leitor para esse tipo de narrativa, desde assuntos convencionais, como o acesso a bases de dados com gastos de parlamentares, até temas mais complexos, que exigem um estudo maior. Segundo o ele, o jornalismo investigativo, que atua por excelência nesse ramo, ganha muito por saber lidar com a informação proporcionada pelos dados.
Outra maneira de atrair o leitor é pela visualização de dados. Para Mali, há um conjunto de informações muito grande, difícil para esclarecer o leitor.

De acordo com ele, a síntese de visualização pode ser um caminho para solucionar o problema. Ele menciona o jornal alemão Die Zeit , que a partir de uma base de dados com 40 mil linhas de registros de ligações de telefone celular, obtidos na Justiça, criou um , no qual o leitor pode ver a localização do aparelho dos parlamentares e saber para onde ele vai. “Esse tipo de iniciativa é um grande atrativo do jornalismo de dados”, conclui.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.