Repórter que apurou levante social contra a máfia fala sobre o declínio da Cosa Nostra

A jornalista brasileira Lúcia Helena Issa foi para a Itália depois que ganhou uma bolsa de estudos, em 1997. Mas o que seriam seis meses no exterior, transformou-se em seis anos.

Atualizado em 11/11/2011 às 17:11, por Luiz Gustavo Pacete.

Morando em Roma, Lúcia passou a ser colaboradora da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e de veículos brasileiros, como Folha de S.Paulo , Jornal do Brasil e Istoé . Desde então, já esteve em mais de 40 países e reportou conflitos no Líbano, Sérvia e Bósnia.

Foi apurando informações para um jornal brasileiro, que Lúcia se deparou com a pauta sobre as mulheres vítimas da máfia na Sicília, terra natal da Cosa Nostra. Ela conheceu uma fonte que acabava de ser incluída em uma lista de proteção a testemunhas. A partir de então, a jornalista começou a produzir o livro "Quando Amanhece na Sicília. A luta das mulheres e da sociedade civil contra a máfia siciliana", com lançamentos agendados em São Paulo (21/11) ,Rio de Janeiro (30/11) e Salvador, em dezembro.
Em entrevista à IMPRENSA, Lúcia fala sobre os bastidores de seu livro-reportagem, conta como está o processo de declínio da máfia, a situação dos jornalistas na Itália e os desafios de cobrir o tema.
IMPRENSA - Como você se aproximou da pauta sobre mulheres vítimas de conflitos? Lúcia Helena Issa - O que me chama sempre muita a atenção é que, em regiões de conflitos, assim que as emissoras de TV vão embora e os correspondentes deixam o local, quase ninguém retrata a realidade de mães e esposas vítimas da violência. Já como colaboradora da RSF, meu maior impacto foi descobrir refugiadas internas que existiam em Belgrado e em Sarajevo.

Como você chegou até o tema da máfia italiana? Durante seis anos, colaborei para veículos como Folha de S.Paulo , Jornal do Brasil e Istoé . Quando fui fazer uma matéria em Roma para um jornal do Vale do Paraíba sobre migração interna, me apresentaram uma mulher que tinha acabado de entrar no programa de proteção à testemunha. Ela me relatou da revolução feminina que estava acontecendo na Sicília. As mulheres estavam indo para a rua e enfrentando os mafiosos.
Por esse caminho segue o livro? Sim. O foco são as mulheres. Ao contrário do que muitos pensam quando tocamos no assunto da máfia, o livro não fala de ex-mulheres de mafiosos, mas sim de mães que tiveram filhos e maridos ceifados pela máfia. Mulheres de juízes assassinados, mãe de ativistas mortos. Tudo isso por que a Sicilia foi abandonada pelo Estado italiano em 1861. Durante a unificação da Itália, o Estado abandonou a região e quem tomou conta foi o crime organizado. Daí nasceu a máfia. Eles se uniram e começaram a extorquir os fazendeiros e pessoas que não aceitavam as regras da Cosa Nostra. Ocuparam o lugar do Estado, literalmente.
Existem semelhanças com o Rio de Janeiro, hoje? Sim. O Marcinho VP disse uma vez que se inspirava na Cosa Nostra. Inclusive a origem do termo máfia, na Itália, remete a esse conceito de substituição do Estado.
Qual o atual momento das famílias mafiosas? A máfia está sofrendo derrotas concretas por parte da sociedade civil, não pelo Estado. Enquanto dou essa entrevista, existem 329 grandes mafiosos sicilianos na prisão incomunicáveis e muitos deles estão presos por que as denúncias surgiram de mulheres que decidiram falar. São mafiosos que já mataram mais de cinco mil pessoas na Sicília nos últimos anos. Começou com a prisão de Salvatore Riina, em 1993, e depois vários outros mafiosos foram capturados.

A máfia está em declínio? Elas não estão acabando e sim enfraquecendo. Na minha apuração, vi que a sociedade civil, depois de tanto derramamento de sangue, decidiu que é melhor viver num Estado de Direito e denunciar à corrupção. Se a sociedade não tivesse percebido isso, nada aconteceria. Minha ideia quando fui para a Sicília não era investigar o último crime da Cosa Nostra, mas entender como esse fenômeno social estava atingindo a máfia. Meu trabalho foi diferente do Roberto Saviano, por exemplo, que se infiltrou na máfia e até hoje não pode sair de casa.
Para isso, você precisou de ajuda local, certo? Contei com três ajudas importantes: um parlamentar, uma juíza e um fotógrafo. Além de muitos cidadãos que demonstram muita vontade em ajudar.
Correu muitos riscos? Recebeu ameaças? Nunca recebi nenhuma ameaça. Mas tive um momento de muito medo, mas por pura imprudência. Já tinham me alertado que eu não deveria ficar em Palermo quando anoitecesse. Só que eu terminei uma entrevista com jovens locais e decidi ficar para entender o que acontecia ali. Não demorou muito para que fosse abordada por um mafioso. Ele se dirigiu a mim de forma muito cavalheira, uma característica dos mafiosos. Me chamou e tentou me convencer de que a máfia não existia mais e de que essa história era bobeira. Mas eu senti muito medo e algo muito ruim. Ele já sabia que eu era uma jornalista e o que eu estava fazendo ali.
O que representa a queda do Berlusconi para a máfia? A queda do Berlusconi é mais um golpe. Muitos dos mafiosos que se arrependeram e aceitaram colaborar com a Justiça já contaram muita coisa sobre ele. Em uma espécie de delação premiada, que inspirou até o governo brasileiro. Sobre o Berlusconi recaem várias acusações que prefiro não apontar, pois não tenho provas e são graves. Os jornalistas italianos, inclusive, fazem essa afirmação sobre a ligação do político com a máfia de forma direta.
De que maneira os jornalistas locais lidam com a situação? Hoje, a situação dos jornalistas italianos é menos vulnerável. A sociedade civil está mais atenta e indo para as ruas. As coisas realmente ficaram mais difíceis para os mafiosos. Mas se pensarmos nas últimas três décadas, morreram oito jornalistas assassinados só na Sicilia. Esse ainda é um número alarmante. Hoje, ainda existem muitas ameaças. Com esse levante social atualmente, assassinar um juiz ou um jornalista é algo muito impopular.
A máfia está acabando? Não dá para dizer isso. Ela existe e sempre vai existir, mas o que acabou foi o domínio da Cosa Nostra no território siciliano. Os bens dos mafiosos estão sendo confiscados. De oito mil membros, a máfia tem hoje menos de mil. Mais de 100 bilhões de euros já foram confiscados. Os sicilianos hoje têm muito que comemorar em vista do que já sofreram.

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