Repórter de saúde da “Folha” fala sobre as dificuldades da cobertura do vírus da zika

O vírus da zika pegou a população brasileira de surpresa e os meandros que permeiam a doença avançaram rapidamente. Em fevereiro de 2015, profissionais da saúde de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Bahia e Paraíba relataram casos de uma “doença misteriosa” parecida com a dengue.

Atualizado em 07/04/2016 às 17:04, por Gabriela Ferigato.

Em maio, o Ministério da Saúde ratificou a circulação do vírus no país. Já em novembro, foi confirmada a relação entre o zika e a microcefalia. Em fevereiro deste ano, a doença já foi listada como emergência internacional.

Ao lado do turbilhão de acontecimentos e de ainda muitas dúvidas, está a imprensa. Na última quarta-feira (6/4), IMPRENSA convidou a jornalista Cláudia Collucci, repórter especial e colunista de saúde da Folha de S.Paulo , para um bate-papo - aberto e gratuito - sobre os bastidores e desafios da cobertura do vírus da zika.
Crédito:Gisele Sotto Cláudia Collucci participou de bate-papo na redação de IMPRENSA sobre a cobertura do vírus da zika De acordo com Cláudia, saber a dimensão real do que está acontecendo é uma das principais dificuldades. Além disso, existe uma falta de transparência para obter algumas informações. O Ministério da Saúde, por exemplo, não divulga o número de casos de microcefalia por município, apenas por estado.

“Alegam que é para proteger as crianças. Mais do que estamos vendo as crianças do Nordeste sendo expostas? Não conseguimos saber onde existe para fazer uma investigação in loco. A partir do momento que sabemos que há um caso, podemos ir ao município e descobrir mais”, afirma. Uma solução encontrada é recorrer aos Estados para não ficar refém apenas dos anúncios do Ministério da Saúde.

Outro embate, de acordo com a jornalista, é de que o zika foi colocado como uma hipótese para o aumento de casos de microcefalia, mas anteriormente o governo não computava dados sobre a quantidade de ocorrências no país. De acordo com o último boletim, há 4.046 casos em investigação; 1.046 confirmados; 170 em confirmação laboratorial e 1.814 descartados.

“Como a gente não notificava antes, não sabemos a realidade anterior do país. Em estudos, a Organização Mundial da Saúde estimou que poderia ser até seis mil casos por ano. Até agora não conseguimos saber se aumentou. Os médicos na ponta dizem que sim, mas não conseguimos comparar”, explica.

Cláudia afirma que há mulheres da classe média realizando abortos antes de saber se o bebê desenvolveu microcefalia. “Fez exame. Deu zika, aborta. Há 1% de chance de nascer com microcefalia. Acho que a mídia tem mostrado só os casos de microcefalia. As mulheres que tiveram zika e não aconteceu nada, não aparecem. A impressão é que em toda mulher infectada, o bebê vai desenvolver microcefalia”.

As implicações causadas pela dengue e chikungunya, ambas também transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, também são pouco abordadas pela imprensa, de acordo com Cláudia. Segundo ela, caso uma mulher seja infectada pela chikungunya um pouco antes da gravidez, há chances de transmissão vertical para o bebê.
“Em 50% dos casos o bebê pode nascer com chikungunya. Muitos desenvolvem hemorragia cerebral, mas isso não ganhou muita repercussão. Na Bahia, além das sequelas, 30% das pessoas – mesmo dois anos depois da transmissão – estão afastadas de seus trabalhos, com artrite e artrose por conta da doença. Eu tenho trazido esses fatos para a pauta”.
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