Repórter de política conta como trote a fez descobrir tentativa de golpe a senador
Como jornalista, imagine essa situação: você trabalha em Brasília na cobertura política. Num sábado de plantão, decide almoçar enquanto espera a ligação de uma fonte, mas leva o bloquinho de anotações por precaução.
Atualizado em 31/01/2014 às 16:01, por
Jéssica Oliveira.
O telefone finalmente toca, só que não é o entrevistado, mas alguém que diz ser um parente que precisa de dinheiro, depois afirma ser presidiário e assume a tentativa de golpe. Mas, ao saber que você é da imprensa, explica o esquema e relata ter enganado um senador. Dias depois, como prometido, ele retorna e revela que o parlamentar é o Eduardo Suplicy. Você confirma tudo e publica a . Foi o que aconteceu com a repórter Maria Lima, de O Globo .
"Foi uma coisa meio nova, porque sou da área de política, nunca lidei com reportagens de polícia. Uma grande coincidência: não fui atrás, aconteceu e teve um desfecho muito rápido", conta Maria. A jornalista arrisca um palpite para explicar o ocorrido: o número de celular da profissional e do senador Eduardo Suplicy são muito parecidos, só muda um dígito.
"Quando o "Leandro" me ligou no sábado, ele já estava aplicando o golpe no Suplicy. Imagino que tentou discar o número dele, mas ligou no meu por engano. Só que quando ele viu que era outra pessoa, quis enganar também", diz.
À jornalista, além da tentativa de golpe no Suplicy, "Leandro" explicou como consegue os celulares dentro da prisão, quantas ligações faz por dia e a reação das pessoas. Os aparelhos, segundo ele, são levados por policiais e, depois de usados, são quebrados ou passados adiante; são cerca de 600 ligações por dia, com 50% de retorno, entre xingamentos e depósitos feitos. E tudo anotado. "É muita informação na cabeça", afirma o presidiário.
Crédito:Arquivo pessoal A jornalista, numa viagem de cobertura da Dilma Rousseff, na Coreia do Sul
Parte do diálogo entre ela e a fonte encarcerada foi relatado no Facebook da jornalista (abaixo), no último sábado (25/01). Maria, que já havia feito matéria sobre esse golpe, quando vários senadores caíram, contou que num primeiro momento, de susto, se identificou como "Debora", de um jornal de Brasília. Ao ver a matéria no ar, "Leandro" soube seu nome e publicações verdadeiros, ligou e desligou diversas vezes para a jornalista. Ao retornar a ligação, Maria foi questionada sobre a publicação das informações. Ela explicou que ele sabia se tratar de uma jornalista e que aceitou falar. Ele reconheceu e concordou com ela, só disse que achou ser algo regional e não nacional. Não ligou mais.
Detalhes da conversa com o Suplicy, de todo o episódio, e trechos da conversa da jornalista com "Leandro", podem ser lidos e ouvidos . Abaixo, o post de Maria.
Ontem estava de plantão e desci para comer no Zacks com o bloquinho, porque o governador Eduardo Campos ia me ligar. O telefone tocou mas não apareceu “Dudu Beleza”, como está salvo no meu celular. O prefixo era 62 (Goiânia). Como minha parentada mora lá, atendi e a voz do outro lado não era conhecida. A voz jovem se identificou como um parente, e dai seguiu-se um diálogo maluco. Disse que era um primo, Leandro. Eu tenho um primo, Leandro, mas a voz não batia. Mesmo assim eu dei corda.
Leandro: Estou indo para Brasília, chego daqui a pouco
Eu: Estou de plantão no jornal, mas me liga quando chegar, podemos marcar alguma coisa com o Gustavo. Ele: Ótimo, vamos nos ver sim. Mas estou com um probleminha. Meu carro quebrou perto de Luziânia e os mecânicos não recebem cartão. Preciso que você me quebra um galho até eu chegar aí. Pode depositar R$540.00 numa conta que vou te passar? Eu: Porra cara, eu aqui ralando de plantão e você querendo me dar um golpe? Rsrsrs ( havia me lembrado que tinha feito uma matéria com dois senadores que cairam nesse golpe há pouco tempo) Ele: Putz! É um golpe mesmo. Achei que tinha te pegado rsrsrs Mas você é jornalista né? Como é seu nome? Que jornal você trabalha? Eu: Débora, trabalho no Correio Braziliense. Quantas ligações dessas você faz por dia? Ele: Faço uma média de 600 ligações. Tenho dois celulares, um para ligar e outro para receber. E dois cadernos para fazer as anotações. É muita informação na cabeça. Eu: Desses ai quantos caem no seu golpe? Ele: Uns 300 retornam, muitos me esculhambam e alguns fazem o depósito. Eu: Caramba! Não tem medo de ser preso não? ( ao fundo ouvi outra voz aplicando o mesmo golpe em outra pessoa) Ele: Eu estou preso! Rsrsrs Eu: Jura? E como está falando no celular? Vamos fazer uma matéria então, já que me ligou... Ele: Mulher, se você publicar uma matéria comigo me racha aqui dentro. Os celulares quem traz é a polícia... Eu: Vocês trabalham para a polícia então.. Ele: É ruim heim? Trabalho para mim, da polícia só compro os celulares. E pago caro. São dois por semana. Esse aqui que estou falando com você, vou gravar seu número e quebrar amanhã. Depois vou te ligar para contar de um senador que estava numa reunião muito importante no exterior e caiu no meu golpe. Eles roubam muito e só estou pegando um pouquinho de volta. Eu: Ok. Vou esperar você ligar e vou aí fazer uma matéria com você. Está na Papuda? Viu os mensaleiros ai? Ele: Não, é outro presídio em Goiás. Ok Débora, te ligo depois. Tchau
"Foi uma coisa meio nova, porque sou da área de política, nunca lidei com reportagens de polícia. Uma grande coincidência: não fui atrás, aconteceu e teve um desfecho muito rápido", conta Maria. A jornalista arrisca um palpite para explicar o ocorrido: o número de celular da profissional e do senador Eduardo Suplicy são muito parecidos, só muda um dígito.
"Quando o "Leandro" me ligou no sábado, ele já estava aplicando o golpe no Suplicy. Imagino que tentou discar o número dele, mas ligou no meu por engano. Só que quando ele viu que era outra pessoa, quis enganar também", diz.
À jornalista, além da tentativa de golpe no Suplicy, "Leandro" explicou como consegue os celulares dentro da prisão, quantas ligações faz por dia e a reação das pessoas. Os aparelhos, segundo ele, são levados por policiais e, depois de usados, são quebrados ou passados adiante; são cerca de 600 ligações por dia, com 50% de retorno, entre xingamentos e depósitos feitos. E tudo anotado. "É muita informação na cabeça", afirma o presidiário.
Crédito:Arquivo pessoal A jornalista, numa viagem de cobertura da Dilma Rousseff, na Coreia do Sul
Parte do diálogo entre ela e a fonte encarcerada foi relatado no Facebook da jornalista (abaixo), no último sábado (25/01). Maria, que já havia feito matéria sobre esse golpe, quando vários senadores caíram, contou que num primeiro momento, de susto, se identificou como "Debora", de um jornal de Brasília. Ao ver a matéria no ar, "Leandro" soube seu nome e publicações verdadeiros, ligou e desligou diversas vezes para a jornalista. Ao retornar a ligação, Maria foi questionada sobre a publicação das informações. Ela explicou que ele sabia se tratar de uma jornalista e que aceitou falar. Ele reconheceu e concordou com ela, só disse que achou ser algo regional e não nacional. Não ligou mais.
Detalhes da conversa com o Suplicy, de todo o episódio, e trechos da conversa da jornalista com "Leandro", podem ser lidos e ouvidos . Abaixo, o post de Maria.
Ontem estava de plantão e desci para comer no Zacks com o bloquinho, porque o governador Eduardo Campos ia me ligar. O telefone tocou mas não apareceu “Dudu Beleza”, como está salvo no meu celular. O prefixo era 62 (Goiânia). Como minha parentada mora lá, atendi e a voz do outro lado não era conhecida. A voz jovem se identificou como um parente, e dai seguiu-se um diálogo maluco. Disse que era um primo, Leandro. Eu tenho um primo, Leandro, mas a voz não batia. Mesmo assim eu dei corda.
Leandro: Estou indo para Brasília, chego daqui a pouco
Eu: Estou de plantão no jornal, mas me liga quando chegar, podemos marcar alguma coisa com o Gustavo. Ele: Ótimo, vamos nos ver sim. Mas estou com um probleminha. Meu carro quebrou perto de Luziânia e os mecânicos não recebem cartão. Preciso que você me quebra um galho até eu chegar aí. Pode depositar R$540.00 numa conta que vou te passar? Eu: Porra cara, eu aqui ralando de plantão e você querendo me dar um golpe? Rsrsrs ( havia me lembrado que tinha feito uma matéria com dois senadores que cairam nesse golpe há pouco tempo) Ele: Putz! É um golpe mesmo. Achei que tinha te pegado rsrsrs Mas você é jornalista né? Como é seu nome? Que jornal você trabalha? Eu: Débora, trabalho no Correio Braziliense. Quantas ligações dessas você faz por dia? Ele: Faço uma média de 600 ligações. Tenho dois celulares, um para ligar e outro para receber. E dois cadernos para fazer as anotações. É muita informação na cabeça. Eu: Desses ai quantos caem no seu golpe? Ele: Uns 300 retornam, muitos me esculhambam e alguns fazem o depósito. Eu: Caramba! Não tem medo de ser preso não? ( ao fundo ouvi outra voz aplicando o mesmo golpe em outra pessoa) Ele: Eu estou preso! Rsrsrs Eu: Jura? E como está falando no celular? Vamos fazer uma matéria então, já que me ligou... Ele: Mulher, se você publicar uma matéria comigo me racha aqui dentro. Os celulares quem traz é a polícia... Eu: Vocês trabalham para a polícia então.. Ele: É ruim heim? Trabalho para mim, da polícia só compro os celulares. E pago caro. São dois por semana. Esse aqui que estou falando com você, vou gravar seu número e quebrar amanhã. Depois vou te ligar para contar de um senador que estava numa reunião muito importante no exterior e caiu no meu golpe. Eles roubam muito e só estou pegando um pouquinho de volta. Eu: Ok. Vou esperar você ligar e vou aí fazer uma matéria com você. Está na Papuda? Viu os mensaleiros ai? Ele: Não, é outro presídio em Goiás. Ok Débora, te ligo depois. Tchau





