Repórter da “Folha” conta momentos finais de brasileiro condenado à morte na Indonésia
Dos seus 53 anos de idade, o brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira dedicou quase metade ao tráfico de drogas. Foram pelo menos 25 anos levando a mercadoria para outros países, especialmente à Indonésia.
Mas os voos terminaram em agosto de 2003, justamente num dos destinos que conhecia bem. Aos 42 anos, Archer foi preso no aeroporto da capital Jacarta com 13,4 quilos de cocaína e, um ano depois, condenado à morte, pena local para narcotraficantes. Durante pouco mais de 11 anos, os últimos de sua vida, ele morou em vários presídios. A última escala foi num complexo de prisões na ilha de Nusakambangan, no sábado 17 de janeiro de 2015, às 15h30 no Brasil (0h30 de domingo na Indonésia). A viagem terminou com um tiro no peito.
Crédito:Reprodução/ TV Globo Marco Archer foi o primeiro brasileiro condenado à morte no exteriorPrimeiro brasileiro na história a ser executado no exterior em razão da pena de morte, a trajetória de Archer é contada em detalhes no livro "Condenado à morte", de Ricardo Gallo, repórter do jornal Folha de S.Paulo. “À medida que fomos conversando, ele me disse: Ricardo, minha vida dá um livro. Eu achava o mesmo e levei a sério a ideia. O Marco sabia que a história dele havia sido cheia de detalhes e desventuras que, sim, poderia render mais do que uma reportagem.”
Lançada neste mês pelo selo Três Estrelas, da Publifolha, a obra começou a ser costurada em 2010. No ano anterior, Gallo se preparava para cobrir um fórum de turismo na Indonésia quando, em uma pesquisa sobre o país, se aproximou do caso. Pouco depois, ele falou por telefone pela primeira vez com Archer, graças à ajuda da mãe do brasileiro, que forneceu o contato.
“Fiz uma entrevista para o jornal, publicada em janeiro de 2010. Percebi logo que a história do Marco valia mais do que uma reportagem – valia um livro. Propus então à Publifolha e eles toparam. Em agosto de 2010, viajei para a Indonésia e o encontrei na prisão”, lembra.
Além da reportagem
Nessa primeira entrevista, o jornalista propôs conversar por carta para que não infringisse a lei, mas o brasileiro não aceitou. Segundo ele, apesar de proibido, usar o telefone era tolerado na prisão e ele falava normalmente com os amigos. A partir daí, os dois conversaram mais de trinta vezes só naquele ano.
Crédito:Zé Carlos Baretta/ FolhaPress Ricardo Gallo conta a história de Archer no livro "Condenado à morte"Para o livro, o jornalista entrevistou amigos e familiares de Archer, analisou relatórios da ONU, do Banco Mundial, do governo da Indonésia, jornais e revistas locais. Por meio da Lei de Acesso à Informação, também conseguiu telegramas trocados entre a Embaixada do Brasil, em Jacarta, e o Itamaraty. O mais difícil foi traduzir documentos em bahasa, o idioma da Indonésia, tarefa na qual contou com a ajuda a uma conhecida com quem teve contato na viagem de 2009.
“A mãe dele me ajudou bastante até morrer de câncer, em agosto de 2010. Depois, passei a ser ajudado por outra pessoa próxima. Sim, houve amigos incomodados. Eles não queriam que eu publicasse que o Marco era traficante, o que os amigos sabiam, mas o público, não”, explica.
De volta à Indonésia
Das três vezes em que o jornalista esteve na Indonésia – 2009 para o fórum de turismo, 2010 para entrevistar Archer e 2015 para apurar os detalhes dos dias finais de seu biografado –, a terceira foi a mais arriscada. Gallo chegou ao país apenas três dias depois após o anúncio da execução do brasileiro e, por falta de tempo, sem o visto de imprensa.
Em Cilacap (400 quilômetros de Jacarta), ele soube que uma funcionária da embaixada brasileira na capital foi abordada por um agente da imigração, e alertada de que o jornalista, por ter visto de turista, poderia ser preso e deportado. O alerta se confirmou horas depois, mas com uma equipe da TV Globo, que também tentava cobrir o caso. “Eu estava sozinho e achei melhor deixar a cidade, para não correr o risco. Voltei então para Jacarta, que fica a dez horas de carro de Cilacap, antecipei meu voo para o Brasil e deixei o país antes do previsto. Considerando o que ocorreu com a equipe da Globo, foi uma decisão acertada”, diz.
Durante muito tempo, tanto Gallo quanto o brasileiro não acreditavam que a pena seria cumprida. As coisas começaram a mudar em outubro de 2014, quando o presidente Susilo Bambang Yudhoyono foi substituído por Joko Widodo. Yudhoyono havia atendido ao apelo do governo brasileiro para não matá-lo, mas Widodo foi irredutível. O novo presidente declarou que não pouparia traficantes, sob o argumento de que as drogas estavam destruindo o país, e negou todos os apelos pela vida do brasileiro – do governo brasileiro ao Papa Francisco. Todos ouviram um não.
Foi nessa época que Archer e Gallo voltaram a conversar para a obra, depois de o jornalista ficar “um bom tempo” tendo notícias dele por meio da tia e de amigos. Apesar da posição firme de Widodo, o jornalista ainda não acreditava que Archer seria morto, e continuou acompanhando o caso para o jornal e para o livro, que no início de 2015 já estava quase pronto. Até que uma autoridade do governo da Indonésia confirmou que o brasileiro seria executado.
“Avisei imediatamente ao editor responsável pelo livro, Alcino Leite Neto. O livro, na versão anterior, com o último capítulo "condenado ao esquecimento", estava prestes a ser rodado. Ele interrompeu o processo. Depois da execução, mudei os dois últimos capítulos do livro e apurei mais detalhes inéditos para atualizá-lo”, explica.
Limites da apuração
Segundo o jornalista, ter certeza da execução de Archer deixou uma “sensação muito ruim”. Para o profissional, em situações normais de temperatura e pressão, é mais fácil para o jornalista manter o distanciamento em relação à fonte. Gallo conta que manteve essa postura durante a apuração do livro e, mesmo triste por sua fonte, ele não absorveu a dor.
“Nos dias na Indonésia, foi um pouco mais difícil. Eu estava muito perto de uma tia dele e via esse sofrimento próximo. E eu sabia a hora em que a execução ocorreria: 0h30, horário local. Na hora, fiquei pensando: Marco agora está sendo executado. Foi bem ruim e desconfortável. Levou alguns dias para desligar, mesmo após a minha volta ao Brasil”, recorda.
Gallo conta que todo o processo do livro foi conciliado com sua rotina na redação, cobrindo as áreas de comportamento, aviação e assuntos relativos ao judiciário, no caderno “Cotidiano”. Para viabilizar a apuração, ele usou folgas e o período sabático (licença regular na Folha), totalizando três meses de dedicação à obra. Já para escrever, ele usou parte das férias e algumas folgas acumuladas.
Dias depois do tiro que colocou ponto-final em seu texto, pensando em tudo que aconteceu nos últimos cinco anos, o jornalista avalia que o mais marcante foi o desafio de realizar uma apuração muito maior e mais difícil do que uma reportagem convencional. “E ter conseguido retratar uma história importante.”





