Relatório da Unesco mostra aumento de agressões a jornalistas na cobertura de protestos pelo mundo

Só no primeiro semestre de 2020, violações à liberdade de imprensa já superaram o total de vários anos pesquisados no levantamento

Atualizado em 28/09/2020 às 12:09, por Redação Portal IMPRENSA.

Jornalistas estão sendo agredidos, presos ou até mortos durante a cobertura de protestos realizados ao redor do mundo, e essas violações à liberdade de imprensa têm sido mais recorrentes. É o que aponta o novo relatório da Unesco .

Crédito:Unesco / Cristina Villota

De acordo com o levantamento, as ações violentas têm sido praticadas pela polícia, forças de segurança e, em algumas vezes, por manifestantes, sendo 21 casos só no primeiro semestre de 2020.

A Unesco realiza o monitoramento desde de 2015 e revela que há atualmente uma tendência de aumento no uso ilegal de força contra a imprensa nesses cinco anos.

Em 2015, foram registrados impedimentos para a cobertura jornalística de manifestações de rua no mundo em 15 situações. Em 2019, o número mais que dobrou, passando para 32. E este ano, só de janeiro a junho, 21 casos.

Em alguns protestos, ocorreram até 500 violações isoladas, de acordo com o Comitê de Proteção de Jornalistas. No Movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter Movement), que vem ocorrendo nos Estados Unidos, vários jornalistas ficaram cegos após serem atingidos por balas de borracha ou por bolas de pimenta.

Do início do levantamento até agora, no mínimo dez jornalistas foram mortos enquanto cobriam manifestações. “O relatório sugere que um novo e preocupante limiar foi ultrapassado, o que revela uma ameaça cada vez maior e mais significativa à liberdade da mídia e do acesso à informação em todas as regiões do mundo”, afirma a Unesco.

“Os jornalistas exercem um papel essencial em reportar e informar o público sobre os movimentos de protesto. Por muitos anos, a Unesco tem aumentado a conscientização mundial para garantir que eles possam fazer isso com segurança e sem medo de perseguições, assim como treinado as forças de segurança e o Judiciário sobre as normas internacionais de liberdade de expressão. Os números deste relatório mostram que são necessários esforços muito maiores. Pedimos à comunidade internacional e a todas as autoridades relevantes para garantir que esses direitos fundamentais sejam respeitados”, afirma Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco.

No Brasil, um caso simbólico foi o do fotojornalista Daniel Arroyo, da Ponte Jornalismo, em janeiro deste ano. Ele foi detido, teve seu equipamento de trabalho apreendido e chegou a ser atingido por uma bala de borracha (munição de uso exclusivo da Polícia Militar), além de ter sido hostilizado por manifestantes.

Outros episódios tiveram situações de vigilância, assédio, intimidação, espancamento, tiros com munição letal ou não letal, detenção, sequestro e destruição intencional de equipamentos.

Formas de garantir mais proteção aos profissionais de imprensa estão, por exemplo, no , elaborado em 2014. Mas são necessárias também ações como treinamento para agentes da lei, treinamento e equipamentos adequados para jornalistas e fortalecimento dos mecanismos nacionais de segurança dos jornalistas.

"São os jornalistas, entre outros, que estão ali para verificar se o trabalho que a polícia faz é necessário para garantir a segurança no curso dos protestos. Eles também relatam se a garantia da ordem está em linha com a legislação internacional de direitos humanos”, diz Guilherme Canela, chefe da área de liberdade de expressão e segurança de jornalistas da Unesco.

“Quando jornalistas se tornam alvo de agressões e intimidação por quaisquer das partes envolvidas, são violados o direito à informação de toda sociedade e a liberdade de imprensa”, defende Marcelo Träsel, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

O relatório é um resumo sobre a questão, que faz parte da série Unesco Series on World Trends in Freedom of Expression and Media Development.

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