Reinvenção da roda

Reinvenção da roda

Atualizado em 19/10/2004 às 21:10, por Fabíola Tarapanoff.


"Mais eis que chega a roda-viva e carrega o destino para lá." Nessa "Roda Viva" humana, nome de peça de Chico Buarque que desafiou a censura durante a ditadura em 1968, passaram um mundo de pessoas. O Brasil passou por aqui. O slogan deve ser tomado ao pé da letra: passaram pelo programa mais de 800 personalidades, de políticos como Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva a artistas como Caetano Veloso e esportistas como Ayrton Senna. "Roda Viva" é um espanto: apesar de recém-entrado na idade adulta aos 18 anos, já completou 922 edições em 29 de setembro de 2004, comemorado com uma grande festa na segunda-feira, dia 18 de outubro.

Para comemorar tal feito, estiveram presentes mil pessoas, desde políticos como o governador de São Paulo Geraldo Alckmin e o candidato à prefeitura de São Paulo, José Serra, até artistas como o cantor Lobão e a escritora de livros infanto-juvenis Ruth Rocha.

O cantor Lobão, um dos mais animados da noite, falou sobre sua paixão do programa. "Eu sou fã do programa, vejo-o constantemente, participei três vezes (1997,1998 e 2002) e obtive um resultado fabuloso porque ele favorece quem tem alguma argumentação", diz. "Acompanhei ao longo desse tempo todos os formatos do Roda Viva. Dos 900 programas devo ter assistido pelo menos 90%", complementa.

Para a senadora alagoana Heloísa Helena, o programa é um instrumento fundamental para a democracia brasileira, pois não veta as convicções ideológicas e visões de mundo, que são convidadas a partilhar. "O importante é o bom debate de idéias, o aprimoramento da democracia brasileira", reitera.

Democracia também é um dos pontos que o presidente da TV Cultura, Marco Mendonça, destaca que o programa auxiliou a consolidar no país. "Ele se desenvolveu dentro dessa linha de transmissão do livre pensamento, do debate das idéias, sem questão de qualquer conotação política, abrindo espaço para todas as tendências. O programa auxiliou na construção da pluralidade, da democracia e da cidadania do Brasil, teve papel fundamental", completa.

No programa especial, apresentado ao vivo durante a festa, estiveram presentes na bancada todos os ex-mediadores do programa: Rodolpho Gamberini (1986-1987), Augusto Nunes (1987-1989), Rodolfo Konder (1990), Roseli Tardelli (1994), Heródoto Barbeiro (1994-1995), Matinas Suzuki (1995-1998) e Paulo Markun (1998-2004). Brilharam também o cartunista Paulo Caruso, que fez "homenagens" aos que já passaram pelo "Roda Viva" e o artista plástico Aguilar, que fez o cenário do programa. Os criadores do programa, Marcos Weinstock e Valdir Zwetsch, receberam uma bonita homenagem, assim como o apresentador Jorge Escosteguy (1989-1994), que faleceu em 1996. Cada um desses ex-mediadores se revezaram ao centro, recordando de grandes entrevistas que fizeram no programa.

Matinas Suzuki destacou a entrevista com o antropólogo Darcy Ribeiro, que tinha fugido do hospital, onde fazia quimioterapia e achavam que ele não ia agüentar uma hora e meia de "Roda Viva". Ele não só agüentou como fez um excelente programa. Às 2 horas da manhã, já em uma churrascaria, continuava a falar sem parar. Outra entrevista comovente foi com o ex-governador Mário Covas, já com o atual apresentador Paulo Markun. Segundo o secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República, Ricardo Kotscho, "naquela noite, fez-se silêncio no picadeiro: durante longos, infindáveis minutos, Covas falou do seu drama pessoal e familiar, e ninguém ousou interrompê-lo. Foi um momento de grandeza que ficará, certamente, gravado na memória deste programa que ajudou e ajuda a contar a nossa história."

Passaram pelo programa presidentes, generais, políticos, esportistas, artistas e cientistas. Pessoas de relevância em suas áreas, que tinham e que tem o que falar. Fragmentos que revelam, cada um à sua maneira, um pedaço de seu tempo e a cara de um país.