Redes sociais no Brasil atual estão dominadas por primitivismo, diz William Waack
O jornalista William Waack afirmou que os grandes meios de comunicação do Brasil têm cedido “muitas vezes covardemente” às pressões das redes sociais, que estariam atualmente dominadas por primitivismo e boçalidade que inviabilizam qualquer debate relevante.
“As [grandes] empresas [de comunicação] - algumas delas chocadas com o fato da sua credibilidade estar em jogo e estar sendo constantemente colocada em questão através de redes sociais, o que é totalmente legítimo também - esquecem-se, não têm a visão estratégica necessária para entender o que realmente está em jogo e agem de curto prazo, agem com medo e acabam exatamente favorecendo aquilo que hoje é uma desgraça: as redes sociais hoje no Brasil estão dominadas por um primitivismo, por uma boçalidade, por um comportamento imbecil, que torna a discussão de qualquer tema - sobretudo, os mais relevantes - praticamente impossível”, opinou o ex-apresentador do "Jornal da Globo" em uma para o programa online "Pingue-Pongue com Bonfá", divulgada nesta quarta-feira (17).
“Algumas empresas consideram que ficar de bem com a 'gritaria' lhes dá vantagens empresariais, têm interesses comerciais de preservar imagem. E acho que do ponto de vista institucional elas ganham projeção, acomodando-se, rendendo-se, prostrando-se, cedendo, muitas vezes covardemente, a gritarias em redes sociais. acho que o resultado contrário é o que acontece.”
Na longa entrevista concedida a Marcelo Bonfá, o jornalista defendeu-se das acusações de ser racista, lançadas após a divulgação na internet, no final do ano passado, de um vídeo vazado por ex-empregados do Grupo Globo, no qual Waack aparece ao lado do comentarista Paulo Sotero em frente à Casa Branca se preparando para entrar no ar durante a cobertura das eleições americanas de 2016. Na rua, alguém começa a buzinar e Waack irritado olha para fora e diz: Tá buzinando por quê, seu merda do cacete? Não vou nem falar porque eu sei quem é”. A seguir ele se vira para Sotero e diz: “É preto, coisa de preto”.
“Eu estava brincando com Paulo Sotero, como acontece muito com apresentadores antes de transmissões, a gente fica falando todo o tipo de bobagem possível e imaginável. É até uma maneira de aliviar a tensão, o que não justifica o que eu disse, eu quero deixar isso bem de cara. Foi uma piada cochichada no ouvido de Paulo Sotero”, justificou-se Waack.
“Meu apelido é Alemão. O pessoal lá da empresa onde eu trabalhava disse: ‘Pô, Alemão, como você fala um negócio desse?’. Gente, quem é que não fala uma merda entre amigos? Quem é que tá num ambiente relaxado, brincando e não fala uma bobagem na qual não acredita? Por isso, quero reiterar. Eu não fiz um manifestação racista. Eu fiz uma piada. Piada não é manifestação racista. Até porque um pensamento racista nunca poderá ser uma piada. Isso é importante que as pessoas tenham na cabeça. Uma piada inconsequente pode ser interpretada por alguns como uma ofensa. E isso aconteceu. Aqueles que se sentiram ofendidos, novamente, meu pedido sincero de desculpas, não era a intenção. Não sou racista”
Depois de divulgado, o vídeo ganhou bastante repercussão nas redes sociais e custou o emprego do jornalista na Globo, onde trabalhava desde antes de iniciar o curso de jornalismo na Escola de Comunicação e Artes da USP.
Questionado o que faria se encontrasse os autores do vazamento do vídeo, o ex-apresentador disse que tentaria estender a “mão” a eles. “Eu teria resolvido aquilo, explicado: escuta, bicho, isso foi uma piada idiota. Eu não quis ofender ninguém. Vamos resolver entre nós. Eu estou do mesmo lado que todas as pessoas que combatem o racismo e não toleram esse tipo de pensamento”, acrescentando ter “uma obra de 48 anos de profissão dedicada ao combate à intolerância. Um escorregão como este não pode julgar minha obra inteira.”
Waack negou que seus amigos negros não se sentiram incomodados ao assistirem o vídeo. “Amigos meus com outra cor de pele deram risadas”, garantiu, evitando usar o termo negro por uma questão ideológica. “Eu sou um liberal, Marcelo, eu acredito que o indivíduo é sagrado. A grande ênfase que eu tenho no meu trabalho é acreditar nas pessoas. Eu não consigo dividi-las pela cor, pela religião.” E disse ainda ter recebido apoio de colegas como Gloria Maria e Heraldo Pereira, que teria respondido: “Alemão, você fez uma piada besta. Agora os caras vão cair de pau em você.”
Por fim, Waack falou sobre o futuro na profissão, despistando sobre os rumores de que o SBT e a Joven Pan o procuraram. “Eu quero ir para o mundo digital. Porque eu acho que o mundo digital é o mundo do futuro, que abre os horizontes, que chega melhor às pessoas e que proporciona a jornalistas independentes e a todo tipo de pessoa que quer se comunicar com o público grandes oportunidades a um custo muito mais baixo do que quando eu comecei minha carreira na televisão. Então, é a este mundo que eu queria me dedicar.”





