Realidade multimídia é perversa com jornalistas, diz psicólogo no 33º CNJ

Realidade multimídia é perversa com jornalistas, diz psicólogo no 33º CNJ

Atualizado em 21/08/2008 às 15:08, por Érika Valois/Redação Portal IMPRENSA.

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A questão das relações de trabalho dos jornalistas e as mudanças do mercado foram assuntos abordados no painel "O jornalismo e as transformações do mundo do trabalho", apresentado nesta quinta-feira (21), como parte da programação do 33º Congresso Nacional de Jornalistas (CNJ), realizado em São Paulo (SP), pela Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP), de 20 a 24 de agosto.

O psicólogo e professor da Fundação Getúlio Vargas Roberto Heloani, expôs uma tese de pós-doutorado que aborda questões como a satisfação dos jornalistas e a qualidade de vida desses profissionais.

Segundo a tese, o fato de ocupar várias funções leva os jornalistas a enfrentarem uma crise de identidade. "O profissional não sabe mais se é repórter, redator, fotógrafo ou mesmo motorista", disse Heloani. "Essa polivalência leva também a um nível de stress alto dentro da profissão, haja vista que mais de 77% daqueles que trabalham no ramo sofrem desse mal", ressaltou o psicólogo.

Os resultados do trabalho mostram, ainda, que o jornalismo é uma atividade desvalorizada, na qual se recebe como estagiário, não se tem aumento salarial e tem-se dois empregos, em média, por conta dos baixos salários. "Projeta-se uma lógica perversa de trabalho. Leva-se para dentro de casa os problemas da profissão", afirmou o professor. "Com uma jornada de trabalho que inclui sábados, domingos e feriados, os profissionais da área não conseguem reservar tempo para o lazer ou para a família", completa.

Segundo o psicólogo, os jornalsitas são "apaixonados" pelo que fazem mas, ainda assim, muitas vezes, não conseguem superar as dificuldades da área. "Muitos, simplesmente, não aguentam e desistem da carreira, depois de anos, e mudam de profissão", constatou Heloani. "Tem-se sucesso apenas no aspecto social, saúde e o lado emocional são colocados em segundo plano, numa profissão que posterga a felicidade", completou.

Jornalismo gera riquezas imateriais

O economista e presidente da IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Márcio Pochmann, ressaltou que as relações de trabalho, ao longo da história, mudaram substancialmente a exemplo do modelo do fordismo (produção em larga escala) que foi empregado nas grandes fábricas e que dava aos trabalhadores a exata noção de seus rendimentos através do que era produzido.

Para ele, o terceiro setor vem produzindo uma riqueza imaterial que, ao não ser devidamente dimensionada, por institutos de pesquisa, por exemplo, leva a uma forte concentração de renda. "Houve uma transformação brutal no mundo do trabalho. O que regulava a atuação das empresas ou dos sindicatos era o material, o resultado da produtividade; estamos avançando no trabalho imaterial, no setor de serviços, onde se trabalha fora da empresa. Vocês, jornalistas, são os maiores exemplos disso, faz-se entrevistas em qualquer lugar e isso dificulta a regulação", disse o economista.

O economista defende, ao contrário do que acontece na prática dentro das redações e em quase todas as profissões, que é preciso trabalhar menos e estudar mais. "Não há razão para se trabalhar antes dos 25 anos. Estamos entrando numa fase que, daqui a pouco, viveremos até os 100 anos. Por que entrar no mercado antes de estudar? O filho do rico começa a trabalhar depois de fazer pós-graduação, já o do pobre entra cedo no mercado, para ocupar as piores vagas", disse. "Esse país não é uma república, no sentido de que não promove condições de igualdade entre os cidadãos", completou.

Foto: Divulgação

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