Rafael Brandi, historiador, arqueólogo e pesquisador em São Paulo e Sérgio Kaminski, diretor da Escola Pirâmide do Saber em Curitiba
Rafael Brandi, historiador, arqueólogo e pesquisador em São Paulo e Sérgio Kaminski, diretor da Escola Pirâmide do Saber em Curitiba
Rafael Brandi, historiador, arqueólogo e pesquisador em São Paulo
As notícias que meu grupo [de estudo] costuma procurar são relacionadas a prática educacional. Quando a gente está num break de trabalho, vamos procurar notícias relacionadas às questões dos temporários; se vai ter concursos, quais serão os critérios para os temporários etc. Recentemente, o Cristóvão Buarque tentou passar uma lei no Plenário para determinar que ocupante de cargo eletivo seja obrigado a colocar os filhos em escola pública. Essas coisas interessam.
De modo geral, a grande mídia é lasciva. O critério é político, tem uma carga política muito grande. Dependendo da diretriz partidária, você percebe que muitas matérias são oriundas de releases das secretarias e do próprio governo. Difícil ter o outro lado. No caso de notícias de contratação de professor, por exemplo. Quando não é em caderno de vagas, de concursos, quando é em notícias sobre educação mesmo, o tom é "Olha como o governo está sendo bonzinho e abrindo vagas para professores..." Em ano eleitoral sai mais assim. Inclusive essa do Cristóvão Buarque, que era antiga e agora está sendo requentada.
Qualquer notícia vai valer, mesmo sendo partidária ou não. Vai da leitura crítica do leitor. Uma grande parte da população não consegue discernir o que o jornalista e a fonte diz, e toma como verdade absoluta. Isso precisa ter mais cuidado.
Sempre vai ter uma tendência. Por mais neutro que a mídia tente ser. A escolha pelo subjetivo já e objetiva.
Vai ter 200 vagas de ACT [admissão em caráter temporário], para quem é do meio sabe: não é o mesmo tipo de trabalho de um cara que é concursado. Tem muita ligação com a questão política, por exemplo, já que se há troca de gestão, o profissional pode dançar. Se você não é alinhavado com o partido da situação, você não tem chance de continuar. Mas isso não é falado pelas notícias. Fala-se "Como é bom que tem vaga para ACT..." Não tem contrapondo dos dois lados.
Os cadernos de educação costumam ser muito lidos, sendo em jornais ou em revistas. Mas tem revistas específicas de pedagogia que também são muito criticadas, lascivas, genéricas, sem profundidade. Em cadernos de educação têm temáticas às vezes importantes, por conta de datas que estão ocorrendo, temas atuais que ganham abordagem mais acessível para os professores usarem no colégio.
A formação do professor a gente vê muito pouco [na cobertura jornalística]. Fala-se na formação dos alunos, mas a do professor não é abordada. Tem uma enxurrada de novos cursos. Nem se debate se educação a distância é bom ou ruim, porque não tem informação. Não adianta aumentar o número de vaga e continuar depreciando a carreira. Precisa ter uma análise do contexto geral para ver se falta investimento do governo ou falta postura da sociedade. É uma lacuna completa. Poucas pessoas fazem essa abordagem e com dados específicos. Falar só, qualquer um pode falar. Os alunos hoje formados em universidades públicas, quantos deles foram realmente lecionar? Para onde eles estão indo? Eles estão indo para a área [na qual se graduaram]? O grande desejo dele na área é dar aula? Os melhores vão pra pesquisa? O que caracteriza um aluno ao optar por pesquisa ou outro ofício? Isso não é abordado.
A maior parte dos alunos, ou os menos qualificados, vai para a educação, por que é o que sobra, e é o que agente observa empiricamente. Quem consegue vai para pesquisa ou para uma área de contato... Provavelmente deve haver teses de doutorado e mestrado, uma literatura cinzenta que fale sobre isso. Mas não foi abordado para não extrapolar essa análise. Não tem interesse por parte dos órgãos fazer esse tipo de pesquisa, pois é dar tiro no pé das próprias universidades, secretarias de ensino, sindicatos... E é totalmente errôneo pensar assim, pois se tentam somente medidas paliativas, nada para resolver de fato o problema, que vem desde a geração de nossos pais, quando o ensino público era melhor do que hoje, que continua piorando.
Sérgio Kaminski, diretor da Escola Pirâmide do Saber em Curitiba
O que saí nessa mídia jornalística é muito pouco. Em Veja tem muito mais sobre saúde do que educação. Parece um tipo de calo, o pessoal não entende, não sabe pra que serve aquilo ali. Os pais se baseiam muito no que tiveram na própria experiência em vez do que o que é informado. Pouco importa se a escola é construtivista, pós-estruturalista, tradicional... Não tem isso. É muito básico e pouco.
Em geral o que sai nessa mídia com apelo para massa não-especializada é em proporção a qualidade e a quantidade reduzida. Não que não tenha, mas comparando com serviços e automóveis, por exemplo, tem um gap grande.
O que tem de bom nas especializadas é por conta do movimento político de reforma na educação. Tem dois extremos. Primeiro é a quantidade de alunos em sala de aula. A cobertura desse tipo de coisa tem uma atenção, as revistas estão mais críticas em relação a isso, há um acompanhamento político bom. Teve um boom muito grande da educação de 2001 a 2004, especialmente de ensino superior, então teve um acompanhamento crítico. A mídia dizia "Tudo bem, tem lugar pra todo mundo, mas tem que olhar a qualidade disso." Outro ponto positivo é a comparação do que a gente faz com o que se faz no resto do mundo. Como o Chile resolveu o problema deles, a Coreia resolveu? Essa importação de modelos para debater é importante.
Outra coisa é a discussão mais criteriosa na Nova Escola e na Folha de S.Paulo, que não resolve só a importação de modelo. O que tem de mais positivo nessas mídias é um pouquinho de querer dar uma solução não reflexiva, mas mais prática. Nova Escola é quase como um "faça-você-mesmo" de revista de arquitetura. Se um professor em formação pegar uma Nova Escola como referência, ou pegar uma leitura crítica da Folha, ou uma coisa mais sobre novidades do portal Aprendiz, isso traz algum repertório de conhecimento pra ele.
O ponto negativo é que parece que essas publicações não chegam ao interesse geral. O esforço de tornar esse assunto um pouco mais usual para a população como um todo ou para a classe que interessa, parece que não é facilitado.
Sem dúvida tem uma questão de que o brasileiro não gosta de estudar, ele tem outro jeito de resolver as coisas, que até pode ser interessante. Mas de modo geral o brasileiro não gosta de ler, nem de estudar. Se comparar com o Chile e a própria Argentina e a Venezuela, você vai ter uma referência diferente em tempo de escola. É uma discussão interessante. Criar uma demanda em educação é uma coisa complicada, não sei como os veículos criariam essa demanda.
Não sei se o fato de o brasileiro não gostar tanto de estudar se mistura com o fato de a discussão brasileira sobre educação não ser tão importante, tão necessária quanto saúde, por exemplo. O que há de tratamento novo para diabete é mais importante do que o que se tem de novo em metodologia de ensino para crianças de 6ª série, por exemplo.
Que programa, quais canais tem esforços em educação? Futura. O SBT o que faz em educação? Instrução mesmo? Nada. Nessa TV não vejo muita coisa. Futura é bem idealizada, não se paga. A Globo traz o "Soletrando" [quadro do "Caldeirão do Huck"], um esforço bacana, que tem um mérito em estudar, pode fazer mudanças, consegue mudar a vida a partir da educação, abre possibilidades. O "Fantástico", quando consegue, dá um pouquinho mais de teor crítico sobre educação. Recentemente fizeram sobre como é a escola na Suíça. Mas você vai ter de tirar uma reportagem ou outra...
Essa questão do que é uma metodologia falta na cobertura. Como é que se faz para um aluno aprender em sala de aula? A escola tem que optar por uma orientação no fazer pedagógico - o nome disso daí não tem pai que tenha ideia o que é. Ele vai ter que olhar como a educação dele foi, ver o que ele fazia, que atividades o filho dele faz, como faz conta, que material usa, como o filho vai estudar os continentes, se faz com o Atlas que carrega na mala, com internet, com mapa do professor, como o filho dele vai fazer pesquisa etc. São coisas que ficam muito no nível da atividade. Não consegue elevar para o debate. Como gerar autonomia, gerar um cidadão crítico, gerar o objetivo da educação, do ensino? Vamos dar uma técnica ou formar um cidadão? A mídia deve ajudar a pensar que a escola é um lugar para essa reflexão. A massa geral não sabe nem como o filho está aprendendo a técnica; como ser cidadão então, muito menos.
Esse programa do "Fantástico" tinha uma coisa interessante. Na Suíça, para as crianças não tem tempo ruim, mas sim roupa inadequada. Para dar conta de viver na adversidade, solucionar problemas, eles vão para a rua, vão brincar na rua, subir em árvores ou brincar na neve. Ninguém fica preso na sala de aula por medo de enfrentar o que há la fora. Quando você tem essa sacada de comparar, é muito bom. Como se forma um professor na Coreia? Quero ver alguém de mídia aberta, de massa, abordar os educadores da Coreia, que há 40 anos fizeram um pacto de ensino e tiveram um ganho muito grande.
A mídia é uma grande janela do mundo para os alunos. O uso da mídia enquanto material didático e pedagógico é um instrumento sensacional. Você poderia ensinar essas duas dimensões, cidadão e técnica, a partir da mídia, seja impressa, a mais jornalística, até a mais crua, do tipo "tosca policial". Até uma coisa realmente bem elaborada, como uma revista especializada ou um bom site de conhecimento. Como a National Geographic, Nova Escola, Veja, televisão. Tende a permear as discussões que podem resistir à sala de aula e dependendo da escola, ao que o professor conhece para colocar em jogo o que o aluno sabe e como alcançar algo mais a saber. O mundo se abre pela mídia, tem-se um contato muito grande. Se tem um bom professor para articular a isso, não precisava nem de material didático para dar aula. O que aconteceu com o Haiti agora, por exemplo, um especial de jornal dá conta de Geografia de sexta série.






