Rádio Patrão, Rádio Peão e outros embates na Comunicação Empresarial

Rádio Patrão, Rádio Peão e outros embates na Comunicação Empresarial

Atualizado em 23/04/2010 às 11:04, por Wilson da Costa Bueno.

Depois de estigmatizar por um longo tempo a Rádio Peão, muitas organizações estão adotando uma nova estratégia que consiste em cooptar líderes informais para que disseminem informações que as favoreçam junto aos seus públicos internos. Na prática, isso representa uma tentativa equivocada de intervir junto à comunicação informal com o objetivo explícito de manipular as informações e opiniões que circulam internamente e de impedir que manifestações contrárias possam ganhar espaço.
Mas o que é a Rádio Peão? Trata-se de uma expressão cunhada à época da ditadura para desqualificar o processo de troca de informações em uma organização que corre à margem do controle oficial e que, naquele momento, pretendia atribuir a fontes externas, geralmente aos sindicatos, as críticas que os públicos internos faziam à gestão das empresas, em particular às chefias autoritárias. Tem um sentido pejorativo e está muitas vezes associada a boatos, fofocas, intrigas internas etc. A Rádio Peão, como expressão, foi criada por organizações comprometidas com a repressão e que se sentiam impotentes para fazer calar os que clamavam por liberdade de expressão. Lembremos que esse era o tempo em que empresas chamavam a Polícia para resolver relações trabalhistas e que as montadoras foram mestres nisso nos repetidos momentos de greve.
Na verdade, esta leitura restrita do processo de circulação de informações no âmbito das organizações incorre em um vício formidável: em qualquer organização, as pessoas, independentemente dos dirigentes, se comunicam, interagem e tendem a incluir em suas conversas os fatos e situações que lhes dizem respeito. A comunicação interpessoal, ainda que muitas organizações repudiem o fato, é um processo natural e, portanto, existe e se mantém sem que a alta administração dela participe ou a autorize. Aliás, a Rádio Peão funciona à revelia do controle e incomoda sobretudo as organizações autoritárias que praticam uma comunicação e uma gestão não transparentes.
Toda organização tem a Rádio Peão que merece e a falta de transparência e de credibilidade dos gestores organizacionais contribuem decisivamente para que ela funcione em alto e bom som.
Convictas de que não são capazes de impedir o funcionamento da Rádio Peão, algumas organizações partiram recentemente para o ataque, mais preocupadas em silenciar os ruídos que as incomodam do que em obedecer a posturas éticas. Decidiram cooptar lideres informais para que eles possam, como bons pelegos organizacionais, fazer a cabeça dos públicos internos, divulgando informações que as favoreçam. Em alguns casos, têm chegado a utilizar os líderes para fazer circular informações não verdadeiras, quando não "factóides" contaminados por chantagens, assédios morais ou pressões de toda a ordem.
Pesquisas têm demonstrado, aqui e lá fora, que porcentagem significativa das informações que circulam na autêntica Rádio Peão (aquela que não sofre interferência da direção das organizações) é verdadeira e que, portanto, diferentemente do que costumam denunciar as chefias e os empresários, ela não tem uma função destrutiva, muito pelo contrário. Mas acontece que gestões autoritárias não conseguem, de forma alguma, tolerar opiniões divergentes e buscam, a todo momento, erradicar o pluralismo, assumindo uma postura transgênica, aquela que prega a existência de uma única maneira de enxergar o mundo, os negócios, as relações de trabalho: a oficial, a patronal.
Muitas organizações estão pretendendo transformar a Rádio Peão numa Rádio Patrão, ou seja, querem intervir na programação da "emissora" e também implantar "apresentadores" comprometidos com a voz oficial. Querem, na prática, transformar o processo espontâneo, natural, de interação entre os públicos internos em um sistema patronal de circulação de informações favoráveis, eliminando a oposição.
Felizmente, este empenho não tem sido bem sucedido e temos a certeza de que ele jamais chegará a bom termo porque a comunicação, por mais competente que seja, não conseguirá sufocar o diálogo, a disposição que os públicos internos têm de repercutir fatos e temas que impactam o seu relacionamento e a sua qualidade de vida no trabalho. Se a transparência não faz parte do processo de gestão e da comunicação interna, os funcionários não hesitarão em fazer circular as suas versões e aumentarão o som ruidoso da Rádio Peão.
Um excelente trabalho sobre a Rádio Peão acaba de ser apresentado como dissertação de mestrado na UMESP - Universidade Metodista de São Paulo, com o título simplificado de A Rádio Peão no ar, de autoria da jornalista Kátia Perez. Ela defende a tese de que a Rádio Peão se constitui efetivamente num processo natural e que tem estado sob fogo cerrado das organizações que buscam interferir para que ela não cumpra a sua função básica: promover a interação e se consolidar como uma comunicação alternativa à comunicação oficial.
É saudável perceber que pesquisadores jovens na área da Comunicação assumem esta perspectiva lúcida e crítica e que, diferentemente de gestores e até consultores organizacionais que adotam uma visão não democrática dos processos de gestão e comunicação, estão comprometidos com o diálogo, a cidadania, a diversidade de idéias e opiniões.
Merece ser lida por profissionais das áreas de comunicação e administração e suas constatações deveriam ser objeto de reflexão por gestores e empresas que anseiam praticar uma gestão e uma comunicação alinhadas com os novos tempos.
É ilustrativo perceber que profissionais de comunicação que exercem posições de destaque na estrutura de algumas organizações, como alguns entrevistados por Kátia Perez para sua dissertação de mestrado, ainda estão atrelados a visões ultrapassadas não democráticas. Uma diretora de comunicação de uma grande empresa multinacional (a entrevista foi gravada e está transcrita nos anexos da dissertação) prega abertamente a eliminação das "maçãs podres" e confessa que em sua organização os que ousam desafiar a versão oficial, são, como os representantes do Big Brother e os opositores em Cuba, levados sem dó para o paredão e têm as "cabeças" cortadas.
Temos ainda muito a avançar na comunicação interna, mas, como a comunicação está atrelada ao processo de gestão e à cultura organizacional, que andam mais autoritárias do que nunca, apesar do discurso em contrário, um bom tempo deve passar antes que o panorama se transforme.
Enquanto isso, continuamos torcendo para que as Rádios Peões permaneçam vivas, livres de pelegos organizacionais, e que denunciem sem parar as mazelas de empresas e chefias que afrontam a liberdade de expressão, boicotam o esforço de consolidação da diversidade corporativa e degradam o clima interno.
Abaixo a Rádio Patrão e os que insistem em implantá-la em nossas organizações. Precisamos de Rádios Peões autênticas, comprometidas com o interesse dos públicos internos, sempre dinâmicas e ruidosas. Que as organizações autoritárias não possam mesmo dormir com um barulho desses.