Rádio Escuta: Cinco Minutos
Rádio Escuta: Cinco Minutos
Todo o reconhecimento dos funcionários da Caramelo vinha apenas nos letreiros finais
dos programas
Todos os que trabalhavam na TV Caramelo de Taiaçupeba já tinham ouvido falar que a televisão tinha aberto a possibilidade de qualquer pessoa ter os seus 15 minutos de fama. Bastava participar de um fato polêmico, dar uma entrevista contundente e aparecer em uma reportagem exibida no Jornal da Taiaçupeba, o telejornal que liderava o ibope em toda a vila e região. Não dava outra, era aparecer para ser abordado em qualquer lugar, mesmo na fila do caixa do supermercado Souza Lima, e perguntado: "Você não apareceu ontem à noite na tevê?" Os funcionários da Caramelo estavam cansados de dar espaço para essas pessoas e de fazer algumas delas se transformar em personalidades cultuadas em todos os eventos da comunidade. Bastava aparecer na tevê, mas para eles mesmos, cinegrafistas, caboman, boomman, motoristas, iluminadores, roupeiros, maquiadores, editores de vetê, controladores de áudio e imagem, todo o reconhecimento público do seu trabalho vinha apenas nos letreiros finais dos programas.
A morte da bela jornalista Suzana do Carmo abalou toda a vila. Seu namorado, editor-chefe do Jornal de Taiaçupeba, bem mais velho do que ela, em um acesso de ciúme, deu dois tiros na Suzana quando ela descia do cavalo no haras do Carlinhos, no bairro de Vargem Grande. Décio Siqueira foi preso em flagrante, ainda com a arma do crime na mão e tudo virou uma grande confusão. Tinha favorecido a repórter de todas as formas a ponto de ser criticado pelas más línguas do jornal, e o caso discutido na alta direção do jornal. Em troca ela o traía com Rafael Barbarrala, o jovem loiro que cuidava das cavalariças do haras. As organizações femininas de Taiaçupeba e região fizeram grandes manifestações públicas temendo que Décio fosse absolvido em nome do chamado crime de honra. Um ultraje em pleno século XXI. Inaceitável para as entidades de direitos humanos e para a família de Suzana. Por isso, o julgamento na comarca de Vargem Grande chamou a atenção de todo o país e todos os veículos de comunicação destacaram coberturas extraordinárias para acompanhar o caso. Décio aguardava o julgamento em liberdade e tentava abrandar o crime com entrevistas onde dizia que a amava e que tinha perdido a cabeça.
A justiça tarda mas não falha, como dizia a promotora pública. O julgamento de Décio, assassino confesso de Suzana transformou a pacata Vargem Grande em um pandemônio. A TV Caramelo de Taiaçupeba deslocou sua equipe completa com links via satélite para entradas ao vivo e o juiz prometia que analisaria o pedido dos jornalistas para uma transmissão ao vivo do julgamento pela rádio e televisão. Nunca se viu tanta gente no bairro. Uns chegavam nos caminhões de reportagens, outros em peruas, e misturavam-se todos na praça da matriz, em frente ao fórum. O lufa-lufa mudou a vida da comunidade. Uma pequena multidão acompanhava o trabalho dos técnicos, cenaristas, produtores, jornalistas, com a cara e o entusiasmo que acompanhavam a montagem do circo local. Ordens de comando, carros de reportagem no calçadão, antenas que abriam, torres que esticavam e apontavam para a Serra do Itapety, onde estavam as repetidoras, corre-corre dos maquiadores e figurinistas. Enfim, para a vila uma inédita exibição de gente importante que fazia e aparecia na tevê. Vargem Grande passou a ser conhecida em todo o Brasil. Os moradores inebriados pela azáfama, não arredavam pé da praça, anotavam tudo, pescoçavam cada entrada dos repórteres no ar. As moradoras aprimoraram a maquiagem, os rapazes se postaram em pontos estratégicos, todos queriam aparecer no ar. Blocos e blocos para autógrafos foram comprados na papelaria da Lenilza e um constante assédio tomou conta de Vargem Grande. Cada um que saía dos caminhões de reportagem tinham de dar autógrafos. Pela primeira vez toda aquela gente que trabalhava na TV Caramelo, que nunca havia aparecido no ar, tinha sua participação apenas no crédito final dos programas, era reconhecida como celebridade. Graças à desgraça amorosa do Décio com a Suzana, naqueles dias todos tiveram os seus cinco minutos de fama.






