Rádio Escuta: A placa
Rádio Escuta: A placa
A redação da TV Caramelo de Taiaçupeba acabou dividida por programas. A ordem veio do principal acionista da empresa, Sergio Saraiva, um empresário que deixava bem claro aos seus funcionários que não gostava de jornalismo. Nem de jornalistas. Tinha horror das querelas que exalavam da redação e prejudicavam as vendas de publicidade. Saraiva era um self made man que começou a sua imensa fortuna vendendo canetas na estação de ônibus de Taiaçupeba.
Logo investiu parte de sua renda na compra de ações da tevê e por isso podia influir decisivamente na programação. Só ficava no ar o que dava Ibope.
Os jornalistas tinham verdadeiro asco do Saraiva, que acusava os jornalistas de serem comunistas, gostarem de pobres, miseráveis. Era um verdadeiro braço de ferro entre ele e a redação. Alguns se antecipavam e apontavam quais as matérias que deveriam ter preferência, as chamadas "de interesse da casa", ou seja do Saraiva. Ele não escondia suas simpatias pelo regime militar. E não queria ver um governo vermelho no município. A rede de emissoras próprias prosperava graças à intimidade com os burocratas que manipulavam a distribuição de canais de televisão na região.
O dia que a rede Caramelo ganhou a concessão do canal em Jundiapeba, um centro publicitário altamente compensador, ele presenteou o secretário executivo do ministério com um Audi TT coupé , que ele fez questão de exibir na porta da emissora para que os comunistas da redação morressem de inveja. As escaramuças chegaram ao auge com um concurso interno lançado pelo sindicato dos jornalistas de Taiaçupeba: a escolha de uma placa
para ser pendurada na coluna de entrada da redação. Saraiva apresentou a sua: Ordem e Progresso . Dizia que essa era a frase que todos deveriam ler antes de começar o seu dia de trabalho. Os jornalistas reagiram e fizeram uma prévia e as mais votadas foram "Jornalismo é separar o joio do trigo, e separar o joio" , de Mark Twain, "Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados" , de Millôr Fernandes e "Jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter" , do Cláudio Abramo. Na primeira prévia ganhou a frase do Cláudio.
O embate final ficou por conta da diretoria da TV Caramelo que iria decidir qual frase seria pendurada na redação. Os jornalistas não admitiam uma invasão do diretor e sua placa. Saraiva mandou fazer uma bela placa de acrílico e mandou pregar na coluna. Revolta geral. No dia seguinte a placa amanheceu grafitada com a palavra fascista. Era para o Saraiva, é claro.
Os jornalistas se cotizaram e mandaram fazer outra placa, com a frase do Cláudio Abramo. Armaram uma cerimônia na redação, compraram refrigerantes e sanduíches e convidaram a diretoria para decerrar a placa coberta com um pano azul. Saraiva estava lá. Ele sabia quando tinha perdido. Lá estavam dois cordões para decerrar a placa. Saraiva foi convidado para puxar um, e Chico Mais Valia, apelido do Francisco Maciel, o outro. Esquerda e direita unidos em um só ideal. Quando o pano caiu, as palmas
e gritos encobriram as divergências. A redação, ainda que dividida venceu. Até o dia seguinte quando o primeiro que chegou encontrou no chão uma porção de acrílico. Era a placa que jazia ao pedaços. g






