Questão de ordem: Lessa e a capivara
Questão de ordem: Lessa e a capivara
As elites brasileiras tomam atitudes curiosas. Especialmente, as do Rio de Janeiro. Uma delas é fazer abaixo-assinados sobre temas momentosos. Alguns sobre os quais nutrem proverbial ignorância. No entanto, se o assunto tem potencial para criar um "hype" e pode gerar uma sucessão de factóides: o caminho é um abaixo-assinado.
Dois episódios recentes merecem tal consideração: a demissão de Carlos Lessa do BNDES e a capivara fujona da Lagoa Rodrigo de Freitas. Ambos aconteceram no Rio de Janeiro. Como carioca, reconheço que minha terra é vocacionada para abrigar eventos alegóricos. A demissão de Lessa e a captura da capivara causaram frisson e foram alvos de extensa cobertura na imprensa.
No caso de Carlos Lessa, vários aspectos chamam a atenção. Nenhum empresário de peso se movimentou para salvá-lo. As assinaturas do abaixo-assinado eram predominantemente de artistas e figuras do mundo cultural, que mal sabem o que é o BNDES, o que faz e como funciona.
O caráter libertário e romântico de Carlos Lessa, que se transformou em uma mistura de Dom Quixote com Sancho Pança, em sua cruzada contra o neoliberalismo mereceu todo apoio de setores da intelectualidade, independentemente de maiores reflexões. Apesar da gestão incompetente, Lessa saiu como herói ao invés de sair como incompetente.
Nenhum dos signatários questionou o fato, inédito em sua história, de o banco não ter conseguido executar seu orçamento. Também não tinham nada a dizer a respeito da inacreditável decisão de Lessa de engajar-se em uma guerrilha administrativa para combater idéias de outros setores do governo, em evidente quebra de hierarquia e falta de solidariedade. Além de incompetente, Lessa não foi leal ao governo que servia nem a si mesmo. Isso não mereceu abaixo-assinado.
A rede de solidariedade em torno da capivara também é outro fenômeno curioso. Logo após a sua captura nas areias de Copacabana, a capivara virou celebridade. Foi logo apelidada de Luma de Oliveira pelo trabalho que deu aos bombeiros.
Mesmo sabendo-se que a Lagoa Rodrigo de Freitas não é apropriada para ela, a vizinhança quer a capivara vivendo por lá. Dane-se se amanhã ela morrer atropelada ou virar churrasquinho em alguma laje no morro. Rapidamente uma rede de solidariedade foi criada para devolver a capivara à Lagoa Rodrigo de Freitas.
Lamentavelmente, os abaixo-assinados do Rio de Janeiro estão mal colocados. Deixem Lessa e a capivara partirem para seus respectivos habitats. Lessa deve voltar para a universidade e continuar em sua cruzada contra o "neoliberalismo". A capivara deve ir para alguma reserva ecológica. O carioca deve pensar mais em quem vota e fazer abaixo-assinados sobre assuntos realmente importantes. Não preciso nem mencioná-los. Basta comprar um jornal e ler o noticiário a respeito da cidade maravilhosa.
O Rio de Janeiro, pela tragédia em que vive, necessita urgentemente de mobilizações diárias contra a violência, corrupção, ineficiência dos serviços públicos, tráfico de drogas e não de atitudes complacentes ou alegóricas em favor de profetas da incompetência ou capivaras urbanas. A falta de uma participação ativa das elites cariocas na política levou à tragédia em que vive o estado. Apenas episodicamente os cariocas se levantam contra tal estado de coisa. Já o Lessa e a capivara...






