Questão de dignidade, por Silvia Bessa

Disseram a dona Maria de Lourdes, da comunidade de Juá, em Bezerros (Pernambuco), que o dono de uma cisterna é um fiscal. Ela gostou do rótu

Atualizado em 03/12/2014 às 14:12, por Silvia Bessa.

Crédito:Leo Garbin lo. Passava o dia com um olho na galinha no fogo e outro na construção da cisterna do seu quintal. Enfiou na cabeça um chapeu de palha para fiscalizar o tal reservatório de água que o pedreiro Genival da Silva construía. “Menino, preste atenção, vê se não deixa vazamento”, exigente, recomendava.
Genival, jovem trabalhador de 26 anos, dizia estar acostumado. É o ônus. O bônus é o status que ganhou depois que passou a construir cisternas no semiárido nordestino, onde a escassez é coisa antiga. “Rapaz, quando o cabra aparece, sempre tem alguém pra fazer uma galinha de capoeira boa para gente”, dizia. Dona Lourdes e Genival moram num desses lugares para o qual uma cisterna é uma grande obra. Espécie de arena, como definiu um secretário estadual de Pernambuco.
Seca é tema recorrente para mim há uma, duas décadas. Talvez por saber da importância desta “arena”, acho que sempre há algo novo para contar. Aí está um dos maiores desafios do jornalista: Temos a obrigação de inovar diante de temas já dissecados. Por isso, não via outro assunto para esta coluna de final de ano. Impulsionados pela escassez de São Paulo, a seca será o tema mais quente de 2015.
Diante de nós, jornalistas, surge uma grande oportunidade de debater temas além de limites territoriais e regionais. Eu fico pensando em quanto uma pessoa como o nordestino Antônio Barbosa, sociólogo da Articulação do Semiárido Brasileiro, ASA, pode contribuir com análises sobre o impacto da falta de água na vida das pessoas.
Foi ele quem me disse certa vez que a questão da água é local. Que a água não determina se uma região é mais pobre que a outra. Prova disso é que as duas regiões mais pobres são Norte e Nordeste, que têm respectivamente a maior e a menor oferta de água do Brasil. Também sentenciou uma frase que refletia sobre o quanto a água mudou a vida das pessoas aqui no Nordeste porque devolveu a dignidade das pessoas.
É mais ou menos o que tenho visto em São Paulo. Acabo de ler por exemplo a opinião de um taxista de Itu, no interior paulista, que concedeu entrevista ao UOL, e falava algo parecido. “Sem água você perde a dignidade”, dizia Luiz Carlos da Costa.
Aqui no Nordeste, constatou o sociólogo, a imprensa foi em parte responsável pela nova representação da seca. A imagem que se tem da seca hoje é a do carro-pipa abastecendo cisternas. Antes, a imagem era com cabeça de gado.
Será a imprensa que fará a nova representação do sistema de abastecimento de água de São Paulo. Estou torcendo para que os jornais não poupem espaço para essa seca. Que sejam atentos ao sentimento dos cidadãos. Desejo que os colegas repórteres multipliquem a criatividade e saiam todos os dias em busca de um novo recorte para tratar da escassez. Como muitos de nós, nordestinos, que insistimos em escrever sobre a seca nordestina há décadas.