Querida, congelei a vovó

Querida, congelei a vovó

Atualizado em 11/02/2010 às 14:02, por Silvia Dutra.

Semanas atrás, falei sobre os processos judiciais mais ridículos de 2009 aqui nos Estados Unidos. Hoje descobri outra pérola, difícil de acreditar, mas igualmente verdadeira: no estado de Maryland inexistem leis regulando a manipulação apropriada e o enterro dos mortos.
Por incrível que pareça, os residentes naquele estado podem enterrar seus mortos onde bem entenderem: no jardim, nos fundos do quintal, ou na mesma cova junto com cachorros e gatos da família. Mais: se o dinheiro estiver curto ou os familiares muito ocupados para se preocupar com algo não tão urgente quanto um enterro podem simplesmente guardar o cadáver no freezer da cozinha.
Foi o que aconteceu em julho do ano passado quando o corpo de Doris Lea Cooke, de 83 anos, foi encontrado congelado no freezer do apartamento que ela dividia com parentes em Baltimore. Aparentemente sua morte foi por causas naturais, depois de uma longa doença, e os familiares não sofreram qualquer tipo de penalização, além da exposição na imprensa.
Dez anos antes, em 1999, outro caso semelhante chocou a população quando Richard "Prince" Marshal, de 25 anos, levou a polícia a um matagal onde havia enterrado o corpo de Zaira, sua filha de 4 anos, morta num acidente. A menina tinha sido embrulhada em sacos de lixo. Promotores do estado de Maryland não acharam nenhuma lei na qual enquadrar Marshal, e o processaram por "littering", ou seja, emporcalhar o local. O que foi, na minha opinião, mais um desrespeito à finada Zaira.
Leis daquele estado requerem que médicos e profissionais da área de saúde devem sempre reportar um óbito, mas legisladores nunca acharam importante estender essa obrigação a todos os cidadãos. E apesar do caso de Marshal e Zaira ter acontecido em 1999, até ano passado nenhuma modificação na lei havia sido feita. Aparentemente a Justiça não tem passos de tartaruga somente no Brasil.
O deputado Theodore Sophocleus vem há anos, sem sucesso, tentando mudar esse estado de coisas. Depois do caso de Doris ele reapresentou mês passado um projeto de lei que, se aprovado, vai obrigar todos os cidadãos de Maryland a reportar às autoridades o falecimento de seus familiares. E providenciar que os mesmos sejam cremados ou enterrados em locais apropriados.
Os legisladores continuam debatendo. Se o projeto virar lei só vai entrar em vigor dia 1 de outubro de 2010 e quem violar poderá ser multado em 5 mil dólares e passar até um ano na cadeia. Até lá os mortos de Maryland podem acabar até dentro de latas de lixo, sem que qualquer lei esteja sendo violada. E você achava que esse tipo de barbaridade jamais acontecia aqui, não é mesmo?
Nos Estados Unidos um enterro custa em média 7 mil dólares. Nesses tempos de economia difícil poucas famílias tem reservas monetárias para arcar com esse tipo de despesa. Ano passado mesmo, na California, foi notícia que o necrotério do condado de Los Angeles estava enfrentando problemas para lidar com o acréscimo de corpos abandonados por seus familiares.
As pessoas morriam nos hospitais, eram encaminhadas ao necrotério e os familiares não tomavam mais nenhuma providência por falta de condições financeiras para cremar ou enterrar o corpo. A situação chegou ao ponto do crematório do condado ter que recusar a entrega de novos corpos e dois crematórios particulares tiveram que ser contratados para dar conta da sobrecarga. E a "despesa" rateada entre todos os habitantes, na forma de impostos. Corpos abandonados geralmente são cremados após 30 dias e as cinzas mantidas por dois anos e depois enterradas numa vala comum.
É a crise econômica mudando não só a vida, como também a morte das pessoas.
Aqui, o projeto de lei de e aqui, sobre o caso da vovó que acabou no freezer da família.