Quem pediu sua opinião?
Quem pediu sua opinião?
Uma das lições ancestrais que aprendi em casa é que opinião e conselho só são dados a quem pede. Desde criança, fui desestimulado a opinar sobre as coisas e sinto-me absolutamente constrangido quando alguém pergunta minha opinião sobre qualquer assunto.
Outro dia, discutíamos, na mesa de um agradável bar em Perdizes, aqui em São Paulo, sobre o caso Universal versus Folha. Éramos três: um designer gráfico, uma advogada e eu. Cada um, com sua opinião. Em determinado momento, os três falavam juntos e ninguém parecia se entender, apesar da cumplicidade e da sempre convergente mentalidade dos três. Teria sido melhor se tivéssemos, cada um, deixado a opinião em casa. Opinião é uma mala pesada, desajeitada e incômoda.
Brasileiro padece de um mal crônico: pensar estar habilitado para dar opinião sobre tudo. Da escalação dos clubes de futebol às atas da Copom; do sistema público de saúde ao comportamento dos confinados no Big Brother Brasil. E quando o brasileiro ainda pendura na parede de casa o diploma de jornalista, o mal crônico ganha sintomas psicóticos. Jornalista brasileiro adora dar opinião sobre as coisas, qualquer coisa, ainda que, em profundidade, não esteja minimamente preparado para o papel.
Algo tem me feito desistir do noticiário de rádio e televisão: basta um pouco de brilhantina no cabelo ou chapinha nas madeixas, que o ilustre apresentador ou apresentadora emite sua opinião sobre qualquer tema. É como se tivesse, diante do público, transformado-se em Pitonisa, oráculos do passado, presente e futuro. No mais das vezes, a opinião é dispensável. Falta-lhes a sabedoria de Villas-Boas Corrêa, que, em abril de 1995, em entrevista à Revista IMPRENSA, afirmou: "O jornal pode ser parcial, mas o repórter não pode".
Em janeiro, nos 15 dias de contato com o jornalismo britânico, em Londres, e no treinamento oferecido a um grupo de jornalistas brasileiros pela BBC, aprendemos que como regra a opinião de um jornalista nunca deve ser emitida. Nem sob tortura. Essa cultura é tão sólida no ambiente das redações que arrancar umas aspas de algum deles é tarefa inglória.
Esse é um princípio tão basilar na prática cotidiana que o Manual de Redação da BBC adverte: "Nossos jornalistas e apresentadores não podem expressar suas opiniões pessoais em assuntos controversos. Nosso público não está autorizado para questionar, nos programas da BBC ou em outras formas de oferta de conteúdo, a visão pessoal de nossos jornalistas". Contudo, não se trata apenas de uma regra do "Editorial Guidelines", mas de uma cultura jornalística muito séria e levada a cabo. Quando a BBC precisa de opinião, paga por elas. Chama um profundo entendedor do assunto a ser opinado, um consultor, um pesquisador, um estudioso. Pergunta a ele o que pensa, solicita sua análise e o remunera, dentro do mais lícito e transparente espírito. A opinião dele, como fonte, não é a opinião do veículo.
Aqui no Brasil, o problema não está somente na abundância de opinião, mas na qualidade dela. Em geral é ruim, mal preparada, tendenciosa e a serviço de interesses não muito transparentes. Seria melhor, muito melhor, que cada um de nós, jornalistas, acreditássemos que ao entrar em confronto com a verdade factual do dia-a-dia, nossos leitores, ouvintes e telespectadores pudessem formar a sua própria opinião. Mas para isso seria necessário acreditar que o público está habilitado a pensar e não precisa de ninguém pensando por ele.
Da próxima vez que aquele comentarista de rádio ou a moça do telejornal tentar me fazer engolir sua opinião sobre tudo e todos, vou reagir da mesma maneira que meus pais, nos dias em que eu era mais atrevido, e perguntar: " ".
PS.: Me incomoda profundamente que o "chapéu" da seção de artigos do Portal IMPRENSA seja "Opinião" e o link para sua página interna "Confira outras opiniões". Faço a ressalva para não parecer contraditório.






