Quem cuida dos nossos Ahmadinejads?

Quem cuida dos nossos Ahmadinejads?

Atualizado em 31/08/2010 às 15:08, por Rodrigo Manzano.

Os nossos Ahmadinejads estão à solta. Lamentavelmente, a Igreja Católica e outras igrejas cristãs continuam pautando os rumos das campanhas eleitorais e permanecem o fiel da balança em assuntos polêmicos como aborto, união civil entre homossexuais, eutanásia e uso de células-tronco. Ao convidá-los às páginas jornalísticas como fonte privilegiada, sob o terrível e desonesto argumento de que os cristãos são maioria na população brasileira, a imprensa abre precedentes perigosos para os fundamentalismos, barulhentos ou silenciosos, que grassam nos dias de pouca razão e muita fé. Bastam 10 minutos das emissoras de televisão - sintonizadas nos R.Rs, Waldomiros, Macedos, nos padres carismáticos (?), nos Chalitas, Mellos e Rossis etc - para perceber que a civilização avança na marcha a ré. Aos que esperam o fim do mundo próximo, lamento: o Apocalipse vai demorar. Estamos, segundo cálculos mais ou menos precisos, em 1349 d.C.
A ressonância da recusa de Dilma Rousseff, candidata do PT ao Planalto, em ir ao debate promovido pela TV Canção Nova, emissora ligada ao grupo carismático da Igreja Católica, sugeria que ela fugiu do confronto com os católicos porque tem manifestado posição dúbia a respeito do aborto e favorável ao casamento gay. De fato, Dilma não faz jus à militância histórica do PT ao se esconder sob o manto da dúvida. Como pessoa física, Dilma se diz contra o aborto. Como candidata, afirma que se trata de uma questão de saúde pública. Assim, agrada a todos os que ouvem o que desejam. Se não se trata de dissimulação, talvez seja estratégia para não chocar os eleitores mais sensíveis aos avanços civilizatórios. Dilma, inclusive, publicou uma "Carta ao Povo de Deus" - equivalente carola da "Carta ao Povo Brasileiro" de Lula em 2002.
Semana passada, logo após o debate católico (ao qual compareceram Marina Silva, Plínio de Arruda Sampaio e José Serra), postada no Twitter, mostrava o candidato tucano em seu meio sorriso típico, ao lado de sua mulher e do Papa Bento 16, quando em visita ao Brasil para a canonização de Frei Galvão, em 2007. A foto, estrategicamente publicada em meio a uma campanha em naufrágio, levou ao fundo do mar também Sua Santidade. Os comentários negativos explodiram e foram religiosamente apagados dos perfis oficiais, como bem convém ao método Ratzinger de diálogo. No debate católico, Serra não se opôs aos direitos gays, mas afirmou às instituições religiosas "que dentro de sua igreja, podem pregar contra o homossexualismo", ao ser questionado sobre o projeto que criminaliza a homofobia.
Marina Silva, ainda no início de sua caminhada eleitoral, recebeu uma bandeira da comunidade GLBT, dobrou e guardou. Naquele momento, os militantes do PV e a comunidade gay perceberam que de Marina não se poderiam esperar comentários favoráveis à União Civil Homossexual. Sendo evangélica, Marina não se indisporia nem com sua consciência bíblica, nem com seus eleitores mais conservadores. Pesa ainda sobre ela uma confusão eternamente mal explicada sobre uma permissão ao criacionismo nas escolas, com a ressalva de que também ensinem o evolucionismo científico.
Os três principais candidatos ao Palácio do Planalto estão sequestrados pelas religiões majoritárias no Brasil. Os cristãos - católicos, protestantes tradicionais ou pentecostais e neo-pentecostais - sendo maioria, impõem, sobre a agenda político-eleitoral e sobre a vontade pública, suas convicções, pautadas por um fundamentalismo que pouco difere de tantos outros fundamentalismos religiosos. A CNBB - aonde Dilma foi beijar a mão do bispo, no dia 19 desse mês, e que publicou uma carta orientando os fiéis a não votarem nela - impede que a sociedade discuta livremente questões urgentes e contemporâneas, produzindo confusão e misticismo medieval em pleno século XXI. Os protestantes, mais fragmentados em inúmeras denominações, valem-se dos acordos picotados e comportam-se como verdadeiros partidos políticos, fechando ou não seu apoio a determinados candidatos e preparando suas bases no Congresso Nacional, bem como acontece também com os católicos, já que votam semelhantemente nas questões citadas.
A disputa aos cargos legislativos nem mesmo prima pela sutileza. Os candidatos falam em nome de suas convicções religiosas, de suas igrejas, de suas crenças e sua cegueira. Já bem instalados no Congresso, os membros do que se convencionou chamar "Bancada da Bíblia" atravancam projetos estratégicos e fundamentais que não estejam de acordo com seus princípios e apresentam projetos de lei incríveis, como a aquisição obrigatória de Bíblias por todas as bibliotecas públicas do país, o alargamento das vias de transmissão de dinheiro público para as denominações religiosas, a extensão dos benefícios fiscais à igrejas, e, nos subterrâneos, aderem a comportamentos e negociatas que levariam muitos desses deputados ao Partido de Satanás .
A laicidade do Estado brasileiro é uma piada. A proximidade entre poder político e instituições religiosas cristãs é tão flagrantemente exposta, todos os dias, que isso equivale a escarrada na cara de todos os não-cristãos ou não-religiosos. Afora os símbolos religiosos em repartições públicas, as cruzes nos tribunais, os "sob a proteção de Deus" na Constituição de 1988 e na abertura de sessões plenárias, federais, estaduais ou municipais, há ainda a conivência do Estado com a bandidagem da mais alta categoria que se pratica nos templos religiosos, da pedofilia à extorsão, passando pelo estelionato, enriquecimento ilícito, formação de quadrilha, desvio de recursos, estupros, curanderismos etc. Em parte, essa responsabilidade deve ser compartilhada com os meios de comunicação, que nunca se engajaram fortemente a favor uma separação clara entre os interesses privados das igrejas e da população, a não ser em casos muito pontuais. Quando estimulado a produzir noticiário sobre matérias polêmicas, o jornalismo continua a ouvir os religiosos como fontes, repetindo a ladainha eterna de "pecado", "moral", "tradição" e "família". Esses são os Ahmadinejads dos trópicos. Nem mesmo Bin Laden seria tão sofisticado.
*** A nova gestão da TV Cultura chegou com pesada marreta para derrubar tudo o que é histórico, relevante, criativo, inovador (mesmo que desde sempre), independente e articulado ao espírito público. Até agora ainda não ouvi João Sayad afirmar que derrubará da grade de programação a "Missa de Aparecida", exibida pela emissora pública, com dinheiro público, às 8h dos domingos desde o imperador romano Constantino I (272-337).