Que simpatia!, por Rodrigo Viana
Tenho um livro publicado: “A Bola e o Verbo, o futebol na crônica brasileira”. Quem nunca se deliciou ao ler uma crônica de futebol? Eu, sempre!
Apaixonei-me, sobremaneira, por uma crônica do Lourenço Diaféria. “Que simpatia”, publicada em janeiro de 1969 pela Folha de S.Paulo. Diaféria a escreveu quando a Ferroviária de Araraquara, minha cidade, sagrou-se tricampeã do interior. É uma das crônicas mais lindas que já vi e me impulsionou a escrever o livro.
Antes de tudo, a crônica representa um jornalismo literário, humano. Um jornalismo que trabalha o texto de forma quase artesanal, que dialoga com um leitor imaginário e o faz vivenciar a emoção de cada palavra.
Todo esse preâmbulo para dizer que me reapaixonei pela Ferroviária no último dia 8 de novembro. O time feminino da Ferroviária, pela primeira vez, conquistou a Taça Libertadores da América com uma vitória sobre o Colo-Colo, do Chile, por 3 a 1. O jogo, realizado no acanhado estádio Atanásio Girardot, em Medellín (Colômbia), teve um público de 500 pessoas. A equipe do interior de São Paulo foi a primeira a conquistar o torneio em outro país. Isso porque os outros campeões, Santos (2009-2010) e São José (2011-2013 e 2014), venceram no Brasil.
Que feito! Queria escrever algo importante pela conquista deste time que tanto impulsionou o meu viver. Lembrei do meu livro. Lembrei de Diaféria. Na incompletude das minhas, misturo, então, algumas palavras minhas com as dele, da década de 1960, para parabenizar as meninas da Ferroviária e celebrar o amor que sinto por tudo isso.
(…) “Juro por Deus que, se eu tivesse de canonizar um time de futebol e colocá-lo inteirinho nos altares como exemplo de virtudes, escolheria a Ferroviária de Araraquara sem pestanejar (...)
(…) Um clube que usa a poesia de um estádio da Fonte Luminosa, um clube que cai e sabe se levantar sacudindo a poeira e os desgostos, um clube que ostenta uma dignidade que não se encontra em cada esquina nem da capital, nem do interior, esse clube tem tudo para se transformar em orgulho de uma cidade.
Se eu fosse dono da praça Pedro de Toledo, nos feriados nacionais mandava hastear, ao lado do pavilhão brasileiro, a bandeira da Ferroviária.
Além de simpatia, a Ferroviária possui também a fortaleza dos times de bem, cultivando o futebol com carinho e serenidade. Para ela, o futebol não é um fim, é um meio. Um instrumento de afirmação, uma ferramenta de trabalho, pelo qual zela e do qual cuida. Fica, pois, em excelentes mãos (ou excelentes pés?) “esta Libertadores da América”.
Estamos, portanto, diante de um luminoso domingo, em que uma cidade em festa recebe o justo prêmio de seus esforços, mercê do trabalho inteligente da Ferroviária.
Certamente, até em Sé da Bandeira, no fim do mundo de Angola, há gente alegre com a conquista da Ferroviária.
Campeã da Libertadores é um título que lhe cai otimamente.






