"Quando você capta imagens, não pode sair e expor o peito", diz cinegrafista que cobre a PM
O cinegrafista Rogério Azor Bocalari tem como rotina acompanhar operações policiais no interior de São Paulo. Há cinco anos cobrindo este tipo de situação, ele ressalta que treinamento e cuidados extremos com segurança são fundamentais na cobertura de conflitos armados.
Atualizado em 07/11/2011 às 12:11, por
Luiz Gustavo Pacete.
Rogério registra ação da polícia Bocalari lamenta a morte do cinegrafista da Band, Gelson Domingos da Silva, de 46 anos, na manhã do domingo (6). Mas pede para que os colegas não desistam da profissão.
Atualmente, o cinegrafista é prestador de serviços para a Record no Vale do Paraíba e já ficou algumas vezes na linha de tiro.
IMPRENSA - Como se sente ao ver um colega de trabalho morto em função do ofício? Rogério Azor Bocalari - Em primeiro lugar, perdemos um parceiro de trabalho, mas eu vejo isso como uma motivação para continuar trabalhando e não omitir o fato. Também acredito que as pessoas que trabalham nessa área não devem desistir. Infelizmente, houve uma tragédia, mas ele estava fazendo o que gostava. Isso deve ser levado em conta.
De que maneira você lida com o risco em seu trabalho? O risco existe e nunca se sabe como pode ser o desfecho de uma operação ou de uma cobertura. Você está ciente de que a qualquer momento pode ter sua vida em perigo. Mas, para isso, é importante tomar precauções e diminuir o máximo possível o nível do risco.
Já teve alguma experiência em que viu sua vida em risco? Em determinada cobertura, a PM abordou um foragido. Foi dada a ordem para que ele descesse do carro, ele resistiu, mas quando desceu atirou em minha direção e na direção da viatura da PM. Logo começou a troca de tiros, tive que me abrigar na porta da viatura. Em outra ocasião, essa sem troca de tiros, os policiais estavam tentando conter um grupo de 300 pessoas. Começaram a atirar garrafas e outras coisas, eu quase fui atingido por uma garrafa de uísque cheia na cabeça.
Quais as diferenças você destaca entre as operações policiais no Rio e em São Paulo? O Rio tem uma característica em que os confrontos ficam concentrados nos morros, até em função de sua geografia. Lá, inclusive, já é fato que os bandidos estão fortemente armados, isso faz com que a polícia vá preparada para o confronto pesado. Já o que acontece em São Paulo é que a chegada de armamento pesado como fuzil e metralhadora à cidade é fato, já existe, entretanto, a PM daqui sai para um confronto que no máximo terá uma troca de tiros de pistola. Esse fator surpresa, muitas vezes, pode ser muito perigoso. Outra questão é a dificuldade de identificação. No Rio, por exemplo, você tem os territórios que são os morros e de certa forma fica mais fácil saber onde estão os bandidos. Aqui você não tem tão facilmente essa divisão.
De que maneira você vê a responsabilidade da empresa jornalística em dar condições ao cinegrafista que trabalha nessas coberturas? A empresa tem que dar o necessário. Um colete balístico, por exemplo, é a principal proteção de um repórter em uma situação de risco. O que é muito comum acontecer é o repórter utilizar um tipo de colete inadequado. Existem coletes apropriados para cada tipo de disparo. Um colete que segura tiro de pistola, por exemplo, não vai segurar um fuzil. Mesmo que as Forças Armadas autorizem um colete de potencial absorção menor, é sabido que a situação vai demandar algo mais avançado.
Existe algum tipo de posição ou atitude para diminuir o perigo? Nós sempre temos que tomar cuidado para não se expor. Nas operações, somos treinados e recomendados a não sair de uma área de cobertura. Por exemplo: quando você vai fazer captação de imagens, não pode sair e expor o peito, deve se refugiar atrás de alguma proteção e esticar o braço. Se tiver que ser atingido, será no braço.
Falta treinamento? Falta. E o treinamento deveria ser obrigatório. Existem técnicas e maneiras de se proteger nesses tipos de situação.
Que tipo de equipamento você usa? Eu tento trabalhar com uma margem de segurança. O colete que eu uso é o 3A, que segura tiro de fuzil. Hoje, a PM paulista usa o 2A, que segura tiro de revólver e pistola. Mesmo que em São Paulo seja difícil acontecer um confronto com arma pesada é importante essa margem.
Quanto custa aproximadamente um colete? O 3A está por volta de R$ 1.800; o 2A, cerca de R$ 1 mil.
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