Quando as aulas começam
Quando as aulas começam
A primeira conversa que tenho com meus alunos é sobre as motivações que os levaram a escolher, entre todas as profissões, o jornalismo. Acho muito significativo este momento inicial não só porque cria uma intimidade necessária ao trabalho em sala de aula como, principalmente, porque nestas falas é possível materializar alguns sentidos sobre o lugar do jornalismo em nossa sociedade.
Em geral os alunos chegam com uma série de estereótipos sobre o fazer jornalístico e o que é ser jornalista. Nas apresentações, com olhos brilhantes de entusiasmo, elaboram um longo discurso sobre como são pessoas comunicativas e atiradas, como gostam de viajar e conhecer novas culturas. Muitos falam sobre sua paixão pelos esportes; outros, em menor escala, é necessário dizer, lembram o gosto pela escrita e pela leitura. Mas todos, absolutamente todos, deixam escapar seu desejo pela fama e reconhecimento, ora pelo simples desejo de encontrar reconhecimento público, ora pelo desejo de fazer algo significativo pela sociedade.
Procuro trabalhar nestes relatos com os alunos resignificando com eles o fazer jornalístico e tentando, minimamente, colocar uma dúvida sobre o lugar de privilégios e verdades absolutas que parece permear suas falas sobre a profissão.
Como complemento ao debate e já para avaliar a redação dos alunos, peço um breve texto sobre o assunto, e é nesse momento que eu geralmente me surpreendo mais. Um dos meus sustos mais recentes foi receber uma frase e não um texto que dizia categoricamente "Quero ser jornalista para ser correspondente internacional". Sem desprezar o sonho daquele aluno passei a me perguntar o que representava essa função para aquele jovem. Fiquei imaginando ele sentado na sala de sua casa, vendo os jornais, acompanhando as notícias transmitidas pelos repórteres internacionais e me perguntei quais dimensões daquele trabalho o aluno, e o público de um modo geral, conseguiam perceber.
O jornalismo, pela sua natureza factual e momentânea, desperta no público a idéia errônea que os acontecimentos estão prontos e acabados, que cabe ao jornalista apenas a transmissão da notícia. A tarefa mais árdua e extensa do repórter não acontece na frente das câmeras, mas entre as entradas ao vivo ou gravadas, no momento em que ele se lança para organizar os acontecimentos para o grande público, ouvindo diferentes fontes, pesquisando dados e criando sentido sobre o acontecimento social. Esta jornada da reportagem não é acompanhada pelo público e daí possa surgir a falsa sensação de superficialidade do fazer jornalístico ou ainda que se trata de uma profissão fácil, em que você recebe para viajar e conhecer o mundo.
Sem entrar no mérito se o jornalismo pode ou não proporcionar uma vida de viagens, festa e glamour para seus profissionais, esta possibilidade, não tenho dúvidas, não pode ser tratada como causa e sim conseqüência pelos jovens jornalistas. Quando as obrigações do dia-a-dia de sala de aula começam e os alunos se deparam com uma série de obrigações teóricas fica evidente como a imagem social da profissão está cada vez mais romantizada e longe do perfil crítico e analítico. Talvez a melhor contribuição que nós, professores de jornalismo, possamos dar aos nossos alunos é a inversão desta visão romantizada da profissão, com equilíbrio suficiente para que os olhos brilhantes da primeira aula não se transformem em olhos de frustração.






