Pulitzer em Jornalismo, editor do ProPublica diz que modelo baseado em anúncios "morreu"

Ex-editor e repórter do The New York Times e atual editor do site de jornalismo investigativo ProPublica, o estadunidense Stephen Engelberg abriu a 5ª edição do Seminário Internacional de Jornalismo Online - Media On, realizado pelo Portal Terra e o Itaú Cultural, que começou terça-feira (22) e vai até a próxima quinta (24), em São Paulo.

Atualizado em 23/11/2011 às 17:11, por Luiz Gustavo Pacete.

New York Times e atual editor do site de jornalismo investigativo , o estadunidense Stephen Engelberg abriu a 5ª edição do Seminário Internacional de Jornalismo Online - Media On, realizado pelo Portal Terra e o Itaú Cultural, que começou terça-feira (22) e vai até a próxima quinta (24), em São Paulo.
Rubens Chiri Fernando Rodrigues e Stephen Engelberg
Quando trabalhava no The New York Times , Engelberg ganhou duas vezes o Pulitzer por projetos que coordenou: um sobre corrupção no México, em 1997, e o outro sobre o nascimento da Al Qaeda, em 2001. Com a mediação do jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de S.Paulo e do Portal UOL, Engelberg falou sobre os impactos e desafios de se produzir notícias na internet, e o futuro do jornalismo investigativo.
A ProPublica foi criada em 2007 e fez história ao ser o primeiro veículo de internet a conquistar o Pulitzer, em 2011, com uma matéria sobre Wall Street. A plataforma surgiu após Engelberg ter percebido que, efetivamente, a crise do jornalismo impresso havia chegado, após 18 anos atuando no maior jornal do mundo. "Os meios de comunicação viveram um verdadeiro tsunami, em 2007, e as margens de lucro caíram em função de um modelo industrial custoso e insustentável. Além disso, as redações foram reduzidas em 50%", observou.
Como consequência da crise no meio impresso, o jornalismo investigativo naturalmente sofreu. Daí, surgiu sua ideia de criar a plataforma. Hoje, ela se denomina como uma instituição sem fins lucrativos que depende da doação de pessoas e instituições. Apesar de nos últimos anos o modelo ter funcionado desta maneira, o objetivo ainda é conseguir outras possibilidades de renda. Um desafio, já que, vincular o conteúdo da ProPublica ao mercado anunciante soa 'contraditório'.
Modelo de negócios
Engelberg reconhece que um dos principais desafios da ProPublica é a sua forma de financiamento, pois toda a verba do site está vinculada à filantropia. "Gostaríamos de trazer uma verba sobre nosso orçamento que vá além das contribuições. Hoje, chegamos a receber cerca de US$ 2 milhões por ano, com um número considerável de doadores", conta.
O jornalista não descarta a possibilidade de ter recursos vindos de anúncios, entretanto, essa é uma prática que pode limitar a atuação dos profissionais. "Nunca chegaremos ao ponto de vincular nosso conteúdo às práticas totalmente comerciais; isso é saudável, mas nos limitaria. Recusaríamos, por exemplo, o anúncio de uma empresa farmacêutica". Como saída, ele vê possibilidades que podem gerar receitas sem comprometer a liberdade de atuação editorial. "Estamos com esperança de buscar novas formas de receita com venda de vídeos, revistas, livros e esperamos que, durante os próximos sete anos, esse modelo seja perpetuado".

Para equilibrar os custos, a entidade construiu uma rede de colaboradores e pessoas dispostas a publicar matérias com esse teor. "Sempre temos repórteres fazendo reportagem por nós e se uma reportagem é boa o suficiente, publicaremos independente do custo".
Jornalismo investigativo
Segundo Engelberg, o modelo da ProPublica está sendo replicado em diversas partes do mundo, o que mostra que é uma possibilidade viável. "Nos Estados Unidos, vemos réplicas de nosso modelo de atuação na Califórnia, em Washington e outras localidades". Questionado pelo mediador Fernando Rodrigues sobre a definição de jornalismo investigativo nos EUA, Engelberg destaca que essa é "uma grande questão", pois, como jornalista, ele também acredita que a natureza do trabalho "já é investigativa". "Você não é investigativo somente quando faz denúncias ou expõe a corrupção; também pode fazer esse trabalho na cultura, no esporte", ressalta.
Questões judiciais
Em quatro anos de atuação, o ProPublica sofreu apenas um processo. "É risco de nosso trabalho sofrer processos. Entretanto, raramente você vai ser processado se faz seu trabalho direito, se apura e age corretamente. E nos Estados Unidos a lei é favorável ao jornalista". A plataforma possui advogado e verbas em caso de questões judiciais.
Na questão de estrutura, Engelberg defende que os jornalistas investigativos precisam de tempo. "Um elemento precioso para o trabalho. Às vezes, nossos repórteres publicam duas matérias por ano. Para nós, é mais importante a produção e não o tempo que você passa em uma cadeira. E geralmente os jornalistas investigativos possuem esse perfil, mais detalhista". Cobrança de conteúdo
Engelberg é crítico à mentalidade dos veículos que continuam se baseando em anúncios. Para ele, o futuro do jornalismo não é mais o anúncio e sim a cobrança pelo conteúdo. "Tudo na internet que valha a pena tem que ser pago. O modelo baseado em anúncios já morreu; temos que cobrar pelo conteúdo". O jornalista reconhece que as possibilidades de crescimento da plataforma são limitadas para se manter o nível de qualidade. "Poderemos crescer, mas não cinco vezes mais. Não podemos passar desse ponto, pois precisamos manter o alto nível de qualidade". Wikileaks
Comumente, Engelberg se depara com perguntas ou comentários que comparam a ProPublica ao Wikileaks, mas ele é enfático. "Somos muito diferentes do Wikileaks por que eles pegam uma informação não filtrada e distribuem dessa forma". Ele ressalta que a ProPublica não segue esse modelo. "Queremos fazer algo confiável".

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