Publicitário desenvolve sites com pitadas de humor para promover causas sociais

O publicitário Mauro Mandil é autor iniciativas digitais como o “choveu no Cantareira”, “newsletter incancelável” e o “reclama bonito”.

Atualizado em 30/10/2014 às 14:10, por Christh Lopes*.

Longe da rotina de uma agência, o publicitário Mauro Mandil participa ativamente como difusor de informação no mundo digital. Nas plataformas mediadas pela tecnologia, o comunicador desenvolve projetos que brincam com temas sensíveis ao cotidiano para promover causas sociais. O tom ácido, leve ou equilibrado se adapta à medida que o cenário virtual reage ao real.
Crédito:Arquivo pessoal Publicitário aposta no humor e na curiosidade dos internautas para criar suas páginas
A diferença entre os dois mundos, no entanto, não é algo inusitado. Ambos se relacionam e têm um objetivo em comum: prestar um serviço à comunidade. Cada projeto tem um público definido e é produzido a partir de uma demanda, utilizando métodos jornalísticos.
A criação de um site sobre diferentes temas dão a tônica dos projetos de Mandil na internet. “Como publicitário, é importante ter sempre algum trabalho legal acontecendo e, quando uma ideia boa surge, não pode ser desperdiçada”, diz.
Uma das páginas foi criada diante de uma necessidade do próprio autor: a crise hídrica no Estado de São Paulo, que tem como protagonista o sistema Cantareira, que fornece água para quase 7 milhões de paulistanos. Porém, desde fevereiro a reserva registra taxas negativas de capacidade. Quando perguntado, o governador Geraldo Alckmin atribuiu o problema à estiagem.
Sem se posicionar politicamente no assunto, o comunicador oferece ao cidadão a oportunidade de saber se choveu na região em que o sistema está localizado. A página é simples e sem rodeios, diz sucintamente se caiu água por lá. “Acho que muita gente não tem paciência de ficar procurando notícias para ler no detalhe e encontrar a informação sobre a chuva”, salienta Mandil.
A foi repercutida e teve boa aceitação daqueles que se preocupam com o risco de racionamento no estado. “Tudo o que a maioria quer é uma resposta binária: sim ou não. O fato do site dar uma resposta seca gera uma estranheza que pode acabar caindo para o lado do humor. Mas a intenção em si é matar a dos paulistanos de forma rápida e eficiente”, garante o publicitário.
Outro problema comum que, vez em outra, irrita profundamente qualquer pessoa é apresentar uma queixa num órgão responsável. Afinal, não é apenas aguentar a linha de espera e as inúmeras transferências de setor, mas sim a paciência que, a cada pausa no processo, vai se esgotando. Quando chega realmente num atendente disposto a ajudar, às vezes o consumidor desconta a raiva acumulada nele.
Nos dias atuais, porém, quem faz a mediação entre a empresa e o consumidor é a internet. Com o telefone deixado de lado para alguns, o "mouse" passa a ser o fiel companheiro. “No caso do ‘ ’, a experiência trabalhando com redes sociais me incentivou. As pessoas escrevem muita besteira em posts de marcas sem se preocupar com quem irá ler os comentários”, conta.
A página oferece textos cordiais para registrar uma reclamação sobre determinado produto, mas com um importante detalhe: sem ofender ninguém. Até os atendentes têm sentimentos, lembra o slogan de abertura do portal. Com pitadas de humor nos trabalhos, o comunicador acredita que essa é uma forma interessante de atrair as pessoas a uma causa, e que, nesse caso em específico, foi essencial ao projeto.
“Entendo que se eu tivesse apenas criado reclamações polidas, mas sem um toque de humor, passaria totalmente despercebido, apesar de trazer um tema relevante para a sociedade. Agora, quando o site em questão propõe uma reclamação rimada, ou algo como presentear os atendentes com gifs de gatos fofinhos, se torna muito mais relevante para o público”, afirma Mauro Mandil.
Segundo ele, muitas pessoas chegam até a se orgulhar em algum momento de suas vidas de terem feito uma reclamação extremamente grosseira. Para fazer essa contrapartida, que faça as pessoas entenderem o que o outro lado pensa, a ironia é um bom caminho. Sendo um profissional de comunicação, ele acredita que como cidadão deve promover os temas em que acredita na sociedade.
Ao falar sobre a sua responsabilidade, cita a frase atribuída a Gandhi: “devemos ser a mudança que queremos no mundo”. Sem apontar o dedo a quem deveria fazer algo e pedir para que elas mudem um comportamento sem dar algo em troca, ele levanta a bandeira do ativismo digital e reflete um pensamento comum no que se refere à política: se queremos mudanças, por que não a fazemos?
A resposta pode gerar uma infinidade de questões, teses e argumentações. Uma atitude que pode alterar esse percurso é fiscalizar em quem votamos. Numa democracia, esse seria, a princípio, o papel de cada membro da sociedade brasileira. Pensando em fazer algo relevante para as eleições, a agência Live Ad, onde presta serviços, desenvolveu o site “ ”.
Pela iniciativa, foi criado um lado mais ácido, se podemos assim definir. Ele traz uma comparação fiel à realidade e extremamente verdadeira: você terá que lidar com essa newsletter por quatro anos, assim como terá que aguentar os seus candidatos eleitos por quatro anos. A constatação, da forma como é apresentada, pode ser interpretada como humor ou parte da inteligência publicitária.
“Se fosse apenas um site para você lembrar e se manter informado sobre os seus candidatos, não teria o mesmo apelo que o NI teve. Isso foi uma coisa que aprendi aqui na agência, em especial neste projeto: não basta ter uma boa ideia, é necessário encontrar o melhor ângulo para falar dela. Por isso agradeço muito os meus diretores de criação”, diz ele.
Ideias são compartilhadas e curtidas na rede
O publicitário Mauro Mandil vê com bons olhos a repercussão de seus projetos em grandes veículos de comunicação. Com feedback positivo, avalia que tais iniciativas agregam valor à sua trajetória não somente no lado pessoal, mas também no profissional. “Os projetos tiveram uma boa repercussão na mídia especializada em publicidade e generalizada. Isso é de extremo valor para a minha carreira. Uma entrevista dessa, por exemplo, não seria possível se não os tivesse criado”.
Em uma das oportunidades, foi pela jornalista e apresentadora Fátima Bernardes para comentar e apresentar aos telespectadores do programa “Encontro” o sucesso do “Reclame Bonito” na internet. “Foi uma experiência inesquecível. Além disso, é muito legal quando eu encontro alguém na rua e a primeira pergunta da pessoa ser ‘Choveu na Cantareira?’", reconhece Mandil.
A escolha de cada tema que vai ser tratado, no entanto, não é pautada apenas pela repercussão que pode gerar entre os internautas. Ela passa, sobretudo, pelo papel que pode desempenhar para um determinado grupo. “Agora, eu acredito que se o tema não for de alguma forma relevante para a sociedade, nunca terá a aderência necessária para provocar a atenção da mídia”. Para levar adiante cada um foi preciso contar com o apoio de pessoas que conhecem o mercado e sabem de que forma uma ideia precisa chegar aos interessados. Os primeiros ajudantes de Mandil, não por acaso, foram os seus diretores de criação na agência. Com incentivos e dicas para colocar os projetos em prática, os executivos ofereceram uma consultoria.
Não foi levado em questão se algum cliente se interessaria por elas ou não, mas se mudará a vida de alguém. Em um futuro próximo, Mauro pretende seguir na carreira de publicidade e propaganda, mas afirma que nunca tira o olho de oportunidades para empreender.

Atualmente, por exemplo, já trabalha em alguns projetos com amigos. Todos trazem ideias, como um brainstorming, ou no mundo do jornalismo, uma reunião de pauta. Em comum, o apreço pela questão do transporte público paulista.
“Eu uso bicicleta como meio de transporte e acho que algo que promova a segurança dos ciclistas pode ser interessante. Até o final do ano pretendo lançar pelo menos mais um site e não pretendo parar de criar páginas novas. É viciante”, promete o publicitário Mauro Mandil. as suas ideias.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves