Programas na TV relacionados à saúde ampliam o repertório médico da população

Se em outras épocas o consultório médico era a única e principal fonte de informação para os pacientes – seja no tratamento de doenças, sejana prevenção – hoje, o cenário é outro.

Atualizado em 03/10/2012 às 12:10, por Luiz Gustavo Pacete e Guilherme Sardas*.

Grande parte da população chega aos consultórios com informações básicas ou perguntas pré-formuladas direcionadas ao médico. É comum, inclusive, que elas comecem fazendo referência a alguma informação vista ou ouvida em algum programa de televisão.

Guilherme Furtado De fato, opções sobre o tema na TV não faltam. A Globo, por exemplo, que já exibia no “Fantástico” as séries do Dr. Drauzio Varella, investiu em um programa só para falar de vida saudável, o “Bem Estar”. Na Record, o médico Antônio Sproesser participa de quadros do “Hoje em Dia” e do recém-lançado “Programa da Tarde”, que conta com a participação de Jairo Bouer para falar de sexualidade. Na linha de perda de peso, o mesmo “Fantástico” lançou em setembro sua segunda temporada do “Medida Certa”, agora com o ex-jogador Ronaldo Nazário, acompanhado pelo especialista em nutrição e condicionamento físico, Márcio Atalla.
Diante do vasto cardápio que as emissoras vêm oferecendo com programas relacionados à saúde, é unânime entre médicos e jornalistas especializados na área que a oferta está diretamente relacionada ao aumento na demanda. Lúcia Helena, diretora de redação da revista Saúde, da Editora Abril, tem visto o crescimento como resultado de dois fatores. Para ela, a maior longevidade da população vem estimulando a procura por hábitos de vida saudáveis. “Há diversos estudos apontando que as pessoas querem saber como viver melhor, já que sabem que vão viver mais”, diz.
Depois, ter uma vida saudável tem gerado, como nunca, benefícios sociais. “Cuidar de saúde passou a ser ‘in’, é um valor associado à autoestima. Hoje, existem até headhunters que fazem pegadinha com candidatos a emprego, pedindo para eles subirem escadas só para verem se voltam esbaforidos”, comenta. Ao lado da demanda, uma clara mudança qualitativa. Se no passado a informação sobre doenças, sobretudo demandada pela parte idosa da população,era o grande foco da informação médica televisiva, a tendência agora é outra. “Antigamente, cuidar de saúde era para pessoas mais velhas. Hoje, pensar em saúde não é mais coisa de quem tem mania de doença, mas de quem quer se cuidar. Interessa a todo mundo”, acrescenta.
Priscila Sodré Andregueto, produtora de saúde do “Mulheres”, exibido na TV Gazeta, conta que a proliferação de programas chegou até mesmo a tirar sua audiência. “Há três anos, o ‘Mulheres’ tinha uma audiência muito grande com as pautas médicas. Hoje em dia já não é tanto. Apareceram muitos programas sobre saúde e o assunto pode ficar saturado.” Apesar da concorrência, Jairo Bouer, colunista da revista Época, apresentador do programa @saúde no UOL e responsável pelo quadro “Tudo Sobre Sexo”, no “Programa da Tarde”, na TV Record, vê de forma positiva o aumento de programas relacionados à saúde. “Hoje, um paciente chega ao consultório com outro repertório e com vários conhecimentos relacionados a determinadas doenças”, diz o médico.
O doutor na mídia
A reflexão sobre a qualidade da informação médica disponível na TV está inevitavelmente atrelada às formas de inserção do profissional da área médica no ambiente midiático. Como informar de forma simples e didática, sem incorrer em deformações e simplificações abusivas? Ou, ainda, quais situações devem fazer acender a luz de alerta do profissional para evitar que ele atravesse limites éticos da profissão?
O desafio é grande, mas há espaço para os dois tipos: aqueles que fazem do ofício de comunicar sua segunda função e os médicos eventualmente consultados como fontes para entrevistas, mas que não necessariamente são comunicadores. Bouer destaca que saber comunicar “não é só questão de falar bem, mas de ter senso crítico, inclusive na hora de escolher colegas para serem entrevistados ou tratarem de determinados assuntos mais complexos”.
Para o endocrinologista Alfredo Halpern, consultor fixo do “Bem Estar”, que participa de programas televisivos desde a década de 1980, os chamados médicos midiáticos já enfrentaram resistências maiores entre seus pares e o ambiente acadêmico. “Acho que uma das funções do bom profissional médico é esclarecer o povo sobre questões médicas. Antes, diziam que era uma falta de vergonha ficar aparecendo em TV (risos). Hoje, essas aparições já estão sendo reconhecidas no meio científico, como, por exemplo, no currículo Lattes”, comenta.
Guilherme Furtado, cirurgião plástico que há três anos apresenta o “SOS Mais Você” no programa homônimo de Ana Maria Braga, relata que mesmo os médicos mais conservadores aprovam o trabalho, desde que seja feito com ética e seriedade. “Nossas pautas são discutidas, analisadas e conversadas juntamente com as sociedades médicas. Há catedráticos e acadêmicos que poderíamos chamar de mais conservadores. No entanto, eles nos apoiam e sugerem pautas.” Furtado sinala que até mesmo o Ministério da Saúde já sugeriu ideias e temas a serem debatidos no programa.
TV não é consultório
Fonte frequente da mídia, o neurocirurgião Jorge Pagura destaca a importância do uso da TV para esclarecimento médico, mas ressalta a preocupação quanto ao estilo de certos programas. “Em alguns, a pessoa liga ao vivo pedindo um diagnóstico de enxaqueca ou diabetes, e você tem que fazer consulta na TV. Isso vai contra toda a base médica, que é escutar a história, examinar o doente e fechar o diagnóstico”, argumenta. Para ele, o risco de “saias justas” aumenta quando se é um membro fixo de uma atração. “É muito perigoso. A presença regular gera situações que te colocam em vários imbróglios, ainda mais ao vivo.”
Outro ponto polêmico é a falta de tempo disponível na TV para discorrer com rigor científico sobre determinado assunto. Soma-se a isso a frequente espetacularização do noticiário na briga diária pela audiência. “Mesmo quando a informação vem de um estudo sério, a TV tende a vender a saúde como soluções mágicas, como no caso de competições de perda de peso”, comenta Lúcia. Para Pagura, não é incomum que médicos sejam apresentados como os grandes precursores de técnicas e métodos utilizados há muito tempo no meio médico, sem, de fato, sêlos. “Se o médico quer mostrar um dos métodos que usa há algum tempo e tem sucesso naquilo, ele pode até falar. O que não pode é colocar um método clássico como seu, porque no fundo isso é uma propaganda velada”, destaca.
Bouer critica os médicos que se utilizam de sua exposição na TV para ganhar mais serviços. Ele defende que o objetivo deve ser o de prestar serviços. “Outra coisa é ficar fazendopropaganda do consultório. Tem médico que pensa que estando na mídia ele vai angariar mais pacientes. Não aprovo fazer propaganda do consultório. Isso compromete a qualidade da informação”, ressalta.
Em meio a tantos desafios, Lúcia salienta a importância de o jornalista saber escolher a fonte certa quando se trata da busca de entrevista de profissionais de saúde. O assédio de assessorias de diversas clínicas médicas e a disponibilidade nem sempre bem-vinda de doutores sedentos por cada vez mais visibilidade podem comprometer o bom trabalho jornalístico. “Se você vai fazer uma entrevista sobre diabetes, não adianta só pegar um ótimo especialista em endocrinologia. Às vezes têm a figura midiática, que é o arroz de festa, que está sempre disponível. Ele é bacana, mas tem pessoas mais especializadas que ele sobre o assunto e que acabam não sendo consideradas”, conclui.
*Com Luiz Vassallo