Programa da TV Brasil leva José Dirceu para falar de 1968

Programa da TV Brasil leva José Dirceu para falar de 1968

Atualizado em 03/06/2008 às 10:06, por Redação Portal IMPRENSA.

O programa da TV Brasil "Caminhos da Reportagem", que estreará dentro de duas ou três semanas, reuniu o ex-ministro José Dirceu, o secretário da Casa Civil Aloysio Nunes Ferreira Filho, o militante verde Alfredo Sirkis e a professora aposentada Maria Cláudia Arruda, a Cauê, para falarem sobre 1968.

Após quarenta anos, eles voltaram para a antiga cela úmida do Dops paulista - hoje transformada no Memorial da Residência, em São Paulo - onde viveram e apanharam muitos militantes de esquerda durante o regime militar. Durante a visita, eles reavaliaram como foram os seus dias e meses de chumbo.

Que peso teve, para eles, a vida na prisão? "Havia interrogatórios exaustivos, mas minha turma não foi torturada", informou José Dirceu, que por um breve tempo ali esteve, ao lado de militantes como Luiz Travassos, Wladimir Palmeira, o hoje ministro Franklin Martins, entre outros . "Eles nos usavam como propaganda para dizer que não havia tortura no Brasil", explicou o ex-ministro.

"Entre 1964 e 68 a coisa foi relativamente suave", disse Aloysio. "A gente sempre podia recorrer a alguém do MDB, até a gente da Arena, e existia o habeas-corpus. Depois de 68 é que a coisa ficou feia. De qualquer modo, existia sempre um sentimento de precariedade, muitos sentiam sua vida presa por um fio".

A conclusão, por Dirceu: "A prisão é como tudo na vida. Aparecem qualidades e defeitos de todo mundo. Você partilha grandes ideais e briga com o companheiro que quer deixar a luz acesa". E uma advertência: "Com a vida, nós mudamos. Mas não mudamos de lado".

Os quatro, sem grandes polêmicas, concordaram que a resistência armada e a guerrilha constituíram um grave erro de avaliação das esquerdas. "Foi um erro trágico de avaliação sobre o País e o espírito do povo brasileiro", admitiu Aloysio. E Dirceu reforçou: "Evidente que cometemos grandes equívocos. Não soubemos combinar o ideal com os interesses sociais. Fizemos até campanha pelo voto nulo em 1968..." Sirkis arriscou sua definição: "O que ficou mesmo, de 68, foi a revolução cultural e comportamental". A professora aposentada Cauê atravessou: "Discordo. As apostas que fizemos então é que foram transformadas em outros modos de atuar. Não me parece que o enfoque político tenha sido secundário".

A essa altura deu-se uma breve batalha partidária entre o petista Dirceu e o tucano Aloysio. Este ponderou que "o que ficou mesmo foi o reconhecimento do valor da democracia e sua incorporação à vida do País". Dirceu emendou que "o PT foi a confirmação dessa realidade". O tucano não gostou: "Sim, mas o PT demorou a apostar na institucionalidade. Nem aceitou assinar a Constituição em 88".

É possível comparar a juventude de então com a de hoje? "Os de hoje são mais felizes. Têm uma vida mais livre, mais informação, mais acesso à internet..." resumiu Aloysio. "Então eu devo ser uma velhinha maluca", replicou Cauê. "O fato é que nós vivemos uma vida plena, eu até chamaria de lírica. A gente estava ligada ao mundo, fazendo parte da história. Não acho que hoje o jovem esteja melhor. Ao contrário, o que vemos é insegurança quanto ao futuro e muitos jovens de 30 anos ainda dependendo dos pais e sem arrumar emprego", finalizou.

Com informações do jornal O Estado de S. Paulo

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