Profissão: cozinheiro
Profissão: cozinheiro
Atualizado em 26/09/2008 às 11:09, por
Rodrigo Manzano.
Eu sempre vou ao mesmo supermercado, compro as mesmas coisas e preparo, muitas vezes, os mesmos pratos para o jantar. A moça dos frios é simpática e gordinha, conversamos sobre o clima, sobre o horário, sobre o pão. Dias desses, ela avançou:
- Posso fazer uma pergunta? Você é cozinheiro, não é?
Lisonjeado, flutuei pelos corredores, entre o chocolate e os biscoitos. Finalmente perdi a cara de jornalista e desde aquele dia, adquiri uma notável aparência de cozinheiro. Mais uns anos, fico tão bem como Jamie Oliver, Claude Troigois, Alex Atala ou Olivier Anquier.
A menina dos frios deu a senha: a partir de hoje, no preenchimento das fichas de cadastro, nas conversas sociais, na consulta médica, vou sempre dizer " ". Prefiro ser um cozinheiro que repete os mesmos pratos a um jornalista ordinário como os que tenho visto por aí.
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista bem-sucedido cujo salário tem origem duvidosa, nos negócios pouco esclarecidos do patrão, na ajudazinha dos governos aos veículos, na troca de favores ou no dízimo que as inúmeras igrejas, romanas e de todo o resto do planeta, cobram de seus fiéis?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista que faz de seu espaço um campo de batalha contra aqueles com quem tem divergências políticas? Que não consegue reconhecer as qualidades dos oponentes, muito menos os defeitos de seus aliados? Que nos acorda, todas as manhãs, com os comentários apocalípticos e as previsões econômicas tenebrosas, simulando um sorriso sádico no rosto?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou repórteres que acreditam serem mais importantes que o fato? Simplesmente não consigo entender aquelas passagens feitas por repórteres em que eles saem de trás da parede, entram pela lateral, rodopiam feito palhaços do Circo Garcia, para, no final, não informar nada. Pior que isso é repórter que come, em frente às câmeras, o prato feito pelo chef que acabou de entrevistar. Para mim, isso é falta de alimento em casa e vergonha na cara.
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um assessor de imprensa que não compreende que o veículo não está a serviço do cliente dele? Ou então das inúmeras agências de assessoria de comunicação que se transformaram, com o surgimento da internet, em empresas de spam com CNPJ, registro na prefeitura, endereço e telefone? Minha caixa postal de entrada acumula 2.465 e-mails, dos quais, 2.165 são releases, dos quais, 2.160 são absolutamente inúteis a mim e ao meu trabalho ("Você recebeu um release sobre o lançamento de um livro sobre a importância da sedução?", perguntou-me uma assessora dias desses).
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista que continua enganando os assessores de imprensa, afirmando que vai pensar se é possível publicar "aquela notinha", ou então vai sugerir que o entrevistado do mês seja aquele cliente deles, quando você sabe que isso vai ser tão improvável quanto ganhar na Mega Sena, alimentando a ansiedade e gerando, para os assessores, ainda mais trabalho de checar se a nota ou a entrevista será ou não publicada?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista faz matérias e artigos denunciando o tráfico de drogas, mas não diferencia "carreira profissional de imprensa" de "carreira ao profissional da imprensa"? Ou de repórteres que falam em nome do povo, mas nunca se interessaram pelas histórias contadas pela sua empregada doméstica?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um repórter que, em viagem a trabalho, não se furta a pedir notas frias, turbinar os valores gastos com táxi e alimentação para "complementar" o salário, sempre tão ruim, ao pedir o reembolso ao financeiro da firma?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista que se julga importante porque ganha prêmios de reportagem? Ou que não divide o valor ganho nas premiações com seus colegas de equipe, pauteiros, fotógrafos, cinegrafistas e produtores?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista obtuso?
Eu prefiro ser um cozinheiro medíocre.

- Posso fazer uma pergunta? Você é cozinheiro, não é?
Lisonjeado, flutuei pelos corredores, entre o chocolate e os biscoitos. Finalmente perdi a cara de jornalista e desde aquele dia, adquiri uma notável aparência de cozinheiro. Mais uns anos, fico tão bem como Jamie Oliver, Claude Troigois, Alex Atala ou Olivier Anquier.
A menina dos frios deu a senha: a partir de hoje, no preenchimento das fichas de cadastro, nas conversas sociais, na consulta médica, vou sempre dizer " ". Prefiro ser um cozinheiro que repete os mesmos pratos a um jornalista ordinário como os que tenho visto por aí.
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista bem-sucedido cujo salário tem origem duvidosa, nos negócios pouco esclarecidos do patrão, na ajudazinha dos governos aos veículos, na troca de favores ou no dízimo que as inúmeras igrejas, romanas e de todo o resto do planeta, cobram de seus fiéis?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista que faz de seu espaço um campo de batalha contra aqueles com quem tem divergências políticas? Que não consegue reconhecer as qualidades dos oponentes, muito menos os defeitos de seus aliados? Que nos acorda, todas as manhãs, com os comentários apocalípticos e as previsões econômicas tenebrosas, simulando um sorriso sádico no rosto?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou repórteres que acreditam serem mais importantes que o fato? Simplesmente não consigo entender aquelas passagens feitas por repórteres em que eles saem de trás da parede, entram pela lateral, rodopiam feito palhaços do Circo Garcia, para, no final, não informar nada. Pior que isso é repórter que come, em frente às câmeras, o prato feito pelo chef que acabou de entrevistar. Para mim, isso é falta de alimento em casa e vergonha na cara.
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um assessor de imprensa que não compreende que o veículo não está a serviço do cliente dele? Ou então das inúmeras agências de assessoria de comunicação que se transformaram, com o surgimento da internet, em empresas de spam com CNPJ, registro na prefeitura, endereço e telefone? Minha caixa postal de entrada acumula 2.465 e-mails, dos quais, 2.165 são releases, dos quais, 2.160 são absolutamente inúteis a mim e ao meu trabalho ("Você recebeu um release sobre o lançamento de um livro sobre a importância da sedução?", perguntou-me uma assessora dias desses).
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista que continua enganando os assessores de imprensa, afirmando que vai pensar se é possível publicar "aquela notinha", ou então vai sugerir que o entrevistado do mês seja aquele cliente deles, quando você sabe que isso vai ser tão improvável quanto ganhar na Mega Sena, alimentando a ansiedade e gerando, para os assessores, ainda mais trabalho de checar se a nota ou a entrevista será ou não publicada?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista faz matérias e artigos denunciando o tráfico de drogas, mas não diferencia "carreira profissional de imprensa" de "carreira ao profissional da imprensa"? Ou de repórteres que falam em nome do povo, mas nunca se interessaram pelas histórias contadas pela sua empregada doméstica?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um repórter que, em viagem a trabalho, não se furta a pedir notas frias, turbinar os valores gastos com táxi e alimentação para "complementar" o salário, sempre tão ruim, ao pedir o reembolso ao financeiro da firma?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista que se julga importante porque ganha prêmios de reportagem? Ou que não divide o valor ganho nas premiações com seus colegas de equipe, pauteiros, fotógrafos, cinegrafistas e produtores?
O que é melhor, ser um cozinheiro medíocre ou um jornalista obtuso?
Eu prefiro ser um cozinheiro medíocre.






