Produzir conteúdo para as novas gerações ainda é desafio no Brasil

Desafio é acertar o tom na hora de falar com leitores mais jovens

Atualizado em 08/08/2014 às 13:08, por Rodrigo Álvares.

O ano de 2013 e o início de 2014 deram mais provas de que o noticiário faz parte da explosão das mídias sociais e dispositivos móveis. De acordo com o relatório do State os the News Media 2014, do Pew Research, metade dos usuários do Facebook têm acesso às notícias mesmo sem estar à procura delas. Boa parte desses internautas têm idade entre 18 e 29. O desafio, tanto nos Estados Unidos, mas principalmente no Brasil – onde a produção de um conteúdo voltado para essa geração ainda engatinha -, é acertar o tom na hora de falar com esses leitores.
Uma característica dessa faixa etária, diz Jared Keller, diretor de programação do , é a importância de criar identidade através de escolhas de engajamento. “No passado, a identidade era definida pela geração. Agora, essas barreiras de associação caíram e a identidade é definida pela ação”.
No Brasil, o portal de notícias da Rede Globo, o G1, tem se destacado pela produção de matérias voltadas ao público jovem desde o início do ano. Para Eduardo Acquarone, editor das matérias Geração Selfie, diz que a relevância da notícia para a pessoa é fundamental, mas sem cair no superficial. “Se a notícia, ou a informação, de uma forma mais ampla, atender a algum interesse do público, ela não será rejeitada”, conta.
Crédito:Divulgação Para Acquarone, relevância da notícia para a pessoa é fundamental, mas sem cair no superficial

Para ele, o contexto de cada notícia é o que importa para torná-la uma experiência diferente.“Se mostrarmos que as notícias não existem isoladas do nosso mundo, elas se tornam relevantes para o público. Talvez, essa nova geração, mais conectada do que qualquer outra, perceba de maneira intuitiva essa conectividade com o mundo que nos cerca”.
De acordo com Ana Carolina Moreno, repórter do G1 que trabalhou no especial da Geração Selfie, a impressão que fica dos adolescentes que passaram pelo estúdio do projeto é que os leitores mais novos sabem preservar a privacidade mais do que se pensa. “Eles fazem posts apenas para amigos, e não abertos. Eles bloqueiam posts que os incomodam. Também são menos crédulos e menos pacientes com conteúdo que não lhes interessa. Então, eles tendem a ditar o nível de equilíbrio”, conta.
Encontrar algum tipo de interesse pessoal nas notícias não quer dizer que essa audiência evite notícias mais sérias. De acordo com análise do .Mic, a maioria delas que foram compartilhadas nas mídias sociais podem ser classificadas como hard news. Um estudo da empresa mostrou que 15 das notícias mais disseminadas no Facebook na semana de 17 de junho de 2013 eram de hard news nacionais e internacionais – incluindo os protestos realizados naquele mês no Brasil. Crédito:Reprodução Primeira série de matérias sobre a Geração Selfie saiu em maio deste ano

Além de trazer mais leitores para o consumo de notícias, as mídias sociais e os dispositivos móveis também têm ajudado a mudar a dinâmica deste processo. Outro estudo da Pew Research apontou que 50% dos leitores nos EUA compartilham ou republicam histórias, imagens ou vídeos enquanto 46% as discutem nos sites e redes sociais. Desta forma, acabam por ter papéis importantes de testemunhas do que acontece pelo mundo.
A questão também esbarra em como o jornalismo sobreviverá para continuar a relatar os fatos de forma independente, fiscalizar os poderes e regar o diálogo crítico desse público. “Fazemos há algum tempo, no G1 e no jornalismo da Globo, mapas colaborativos, em que os leitores indicam a existência de questões urbanas. As informações dessas fontes podem ser checadas das mais diversas formas e, a partir daí, é possível cobrar o poder público com algo que antes era muito difícil de conseguir: um dado amplo e com milhares de contribuições. E, quanto mais crítico for o jornalismo, mais relevante ele se torna”, explica Acquarone.
A recepção entre a audiência tem sido positiva. Para Ana Carolina, a reação mais intensa foi do público adulto. “É uma reação de surpresa ao se deparar com um abismo geracional que não costuma perceber tão agudamente no dia a dia. No primeiro programa, muitos adultos se irritaram ao saber que quem nasceu depois da morte do Ayrton Senna não se comove tanto com a história do piloto quanto quem viveu suas vitórias e, depois, o acidente trágico em 1994. Os mais velhos acabam percebendo que não é tão simples transmitir o passado de geração a geração”, completa.