"Primo rico", por Heródoto Barbeiro

"Primo rico", por Heródoto Barbeiro

Atualizado em 12/11/2004 às 14:11, por Heródoto Barbeiro.

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O programa humorístico de televisão "Balança Mas Não Cai", fazia tanto sucesso que era apresentado, simultaneamente, no Rio de Janeiro e São Paulo em uma época que não havia modernidades capazes de construir as grandes redes que hoje cobrem todo o Brasil. Por isso o programa tinha atores diferentes nas duas cidades. O jogo era sempre ganho pelos cariocas; afinal o Rio era a capital política e cultural do Brasil. Mas o orgulho paulista, ou o bairrismo como diziam os cariocas, não deixavam por menos e diziam que atuavam na mais pujante cidade da América Latina. Tudo dos paulistas era maior , não só do Brasil, que era muito pouco para os quatrocentrões da Paulicéia. Tudo tinha que ser o maior da América Latina. Os mais modestos contentavam-se em ser apenas da América do Sul.

A TV Caramelo de Taiaçubepa nasceu de uma empresa de rádio como todas as suas concorrentes. Tornou-se a mais importante rede de televisão de todo o Sertão dos Freires, com os mais recentes equipamentos digitais, informáticos e cibernéticos. Essa parafernália era apenas uma parte do padrão taiaçubebense de televisão. Tudo o que era melhor, mais avançado, mais bonito e caro era adquirido. Os orçamentos generosos dos departamentos eram amparados por grandes receitas publicitárias, e trinta segundos no Jornal Distrital custavam um preço imensamente caro.

Nos Estados Unidos a televisão originou-se do cinema, mas em Taiaçupeba, ela foi cria do rádio. Havia até quem vaticinasse, como Dona Dô, que a Rádio Caramelo iria fechar. Não fechou, mas definhou. A televisão era mágica, capaz de conquistar corações e mentes dos moradores de todo o distrito. Era raro uma casebre, no mato ou na vila que não tivesse uma antena comprada a longo prazo nas Casa Parahyba, cujo lema era "dedicação total a você". A maioria dos jornalistas da rádio sonhava trabalhar na tevê. Muitos conseguiram quando a tevê foi fundada e depois desenvolvida. Quem perdeu o bonde da telinha teve que ficar amargando baixos salários, falta de apoio, sucateamento e o pequeno prestígio do rádio.

José Luis Meirelles lutou muito para chegar a ser o repórter especial mais importante da TV Caramelo. Havia comido o pão que o diabo amassou, amassando barro em estafantes e intermináveis reportagens para a rádio. Lembrava-se dos plantões seguidos, dos feriados regados por Tubaína com sanduíches de carne louca,
especialidade do muquifo Uganda, o bar e lanchonete dirigido por Paulo Bartolomeu ao lado da rádio. Viaturas velhas, motorista sem motivação, coberturas em locais tão afastados e pobres como o bairro dos Pintos e o Fundão dos Teixeiras. Agora a história era outra. Tudo de primeira, do terno e gravata de marcas famosas aos sapatos da moda, maquiagem, cabeleireiro etc. A vida era mais gostosa de ser vivida na tevê. Bastava pôr a cara na telinha da Caramelo para virar um ídolo popular. As pessoa paravam o Zé Luis na rua para para pedir autógrafo e ele, aos poucos, se sentia cada vez mais artista e menos jornalista. Não se importava nem um pouco com isso. Afinal não foi assim nos áureos tempos da imbatível Rádio Nacional do Rio de Janeiro?