Primeiros jornalistas brasileiros a visitar epicentro do ebola comentam experiência
A jornalista Patrícia Campos Mello e o repórter fotográfico Avener Prado fizeram uma série de reportagens sobre a crise do ebola na África.
Atualizado em 27/08/2014 às 14:08, por
Christh Lopes*.
Neste ano, países africanos enfrentam o maior surto do vírus ebola de todos os tempos. A doença, registrada pela primeira vez na década de 70, se propaga de maneira incontrolável e assusta a Organização Mundial da Saúde (OMS), que registrou cerca de mil vítimas, entre elas 120 membros de saúde, que atuam nos cuidados aos cerca de 2.100 infectados na região.
Crédito:Divulgação/Reprodução Patrícia Campos Mello e Avener Prado visitaram o epicentro do ebola em Serra Leoa
Para fazer uma cobertura sobre o tema, a Folha de S.Paulo enviou a jornalista Patrícia Campos Mello e o repórter fotográfico Avener Prado a Serra Leoa, um dos países com o maior número de casos da doença.
Embora o veículo tenha interesse de informar o episódio, a iniciativa partiu dos próprios profissionais de imprensa, conforme conta o fotógrafo à IMPRENSA. Segundo ele, a cobertura no Brasil a respeito do episódio era feita à distância, através das agências internacionais. “Quando decidimos ir para Serra Leoa, era o país onde a doença estava completamente fora de controle e há o maior centro de tratamento do ebola da organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF)”, diz Prado.
O hospital da entidade na região possui uma série de particularidades e foi esse diferencial que atraiu Patrícia, que conversa sobre uma eventual visita com o MSF há dois meses. “Trata-se de uma iniciativa incrível”, diz a jornalista.
Em uma das sobre a epidemia, Patrícia relata que o hospital foi construído no meio da selva para tratar os pacientes da doença. Ele tem capacidade para 80 leitos e funciona desde o fim de junho. “Acho importante fazer esse tipo de cobertura, mostrar a crise que esta afetando este povo tão pobre e sofrido e o trabalho maravilhoso dos médicos que estão lá, arriscando a vida todos os dias”.
Cuidados durante a cobertura
Ao entrar em contato com o Médicos Sem Fronteiras, Avener foi informado que sua colega também havia manifestado o interesse de conhecer o trabalho da entidade na região. “Juntamos-nos e oferecemos [a pauta] para o jornal. Li muito sobre a doença e os países que ela atinge, tinha que entendê-la. O MSF indicou uma relação de vacinas, tomei pelo menos oito, outras eu já tinha na cardeneta de vacinação; e estou tomando antibióticos para evitar a malária. A Folha contratou um infectologista, para nos observar antes, durante e depois da viagem até completar os 21 dias”, diz.
“[Além das vacinas], tivemos um briefing de orientação com o MSF, sobre as regras e os perigos, passamos pelo ambulatório do viajante do HC, e fizemos profilaxia de malária”, conta Patrícia. Embora tenha acompanhado ‘in loco’ conflitos como a guerra no Afeganistão, a jornalista afirma que esta cobertura foi diferente, pois “trata-se de um inimigo invisível, é muito difícil se proteger”.
Os riscos, de certo modo, ficam evidentes. “Não é uma guerra, não tem um front, muito menos coletes a prova de balas, ou melhor não há colete que se use numa situação dessas, o perigo é totalmente invisível, tem de ter atenção nas coisas mais simples como cumprimentar uma pessoa”, salienta Prado. O repórter fotográfico conta que a regra para se proteger é evitar contato e áreas que possam aglomerar pessoas e lavar as mãos a todo tempo utilizando a solução água e cloro.
Embora sejam os primeiros jornalistas brasileiros a visitar países africanos durante a crise do ebola, eles puderam encontrar diversos profissionais que participam da cobertura da epidemia. “Havia jornalistas do New York Times , Washington Post e da televisão francesa. Nós nos ajudamos bastante, trocando dicas e informações”, ressalta Patrícia.
A rivalidade pela informação não passava nem perto pelas rodas de conversa com os colegas de profissão. O sentimento, durante a estadia dos jornalistas, era de colaboração. Afinal, a região vive a maior crise da doença da história.
Desde o primeiro caso, a cobertura da imprensa “demorou para acontecer”, mas é importante, na avaliação do repórter fotográfico Avener Prado. “No começo a cobertura foi tímida, com matérias mais superficiais e numerária. Agora estão se aprofundando. O New York Times está fazendo matérias e vídeos sensacionais”, concorda a jornalista.
No epicentro do ebola
O faro jornalístico levou a dupla ao considerado epicentro da crise do ebola em Serra Leoa, a cidade de Kenema. O governo da região, para tentar evitar a propagação da doença, estipulou um cordão sanitário, que evita o fluxo de pessoas. Em tese, só entra e sai gente autorizada pelo Ministério da Saúde. Mas, com a ajuda de um motorista, eles conseguiram penetrar a barreira.
“Foi sensacional do ponto de vista jornalístico, mas também assustador e muito triste. As pessoas são muito pobres, as condições muito precárias, famílias inteiras estão morrendo”, destaca Patrícia. Neste caso, o trabalho pôde “mostrar o drama da doença, as condições precárias do país e de alguma forma, tentar ajudar. É, sem dúvidas, enriquecedor como profissional e humano”, diz Avener.
Questionado sobre o que mais lhe chamou a atenção, o repórter fotográfico diz que ficou impressionado com a miséria da região. “O país é muito pobre, tudo é muito precário e insuficiente, as estradas que dão acesso às cidades atingidas pelo surto são ruins, os hospitais péssimos, e a população dali tem medo dos hospitais”. O sentimento de medo também foi registrado pela jornalista Patrícia Campos Mello, que lembra a história do país para entender a miséria atual.
“O país passou por anos de guerra civil, é muito pobre e a infraestrutura praticamente não existente. Tudo é muito difícil. O povo é muito caloroso e gentil, mas estão com muito medo”, conta.
Apoio na reportagem
No último domingo (24/8), a ombudsman da Folha de S.Paulo , Vera Guimarães, comentou a série de reportagens dos enviados a Serra Leoa. No artigo, ela afirma que “o jornal pisou na bola” e descreve que o diário deveria ter informado sobre as precauções tomadas pela equipe sobre os riscos aos jornalistas.
Entretanto, a jornalista e o repórter fotográfico ressaltam o apoio da Folha ao especial. “Forneceu toda sua estrutura, pessoal e logística. Contratou um médico infectologista para o acompanhamento. Providenciou hotel por dez dias a nosso pedido”, destaca Avener Prado.
A jornalista Patrícia Campos Mello “agradece muito” a Folha por apostar na “possibilidade de fazermos reportagens aprofundadas sobre um tema muito relevante. Isso é maravilhoso hoje”.
Questionada sobre seus próximos projeto, a repórter especial diz que, por enquanto, pretende se dedicar ao filho Manuel, de dois anos. Já Prado diz ainda não ter uma iniciativa definida. “É difícil projetar e executar algo no turbilhão do jornalismo diário, o que tenho são várias ideias, possibilidades, que vão mudando e sendo executadas conforme disponibilidade”, conclui.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Crédito:Divulgação/Reprodução Patrícia Campos Mello e Avener Prado visitaram o epicentro do ebola em Serra Leoa
Para fazer uma cobertura sobre o tema, a Folha de S.Paulo enviou a jornalista Patrícia Campos Mello e o repórter fotográfico Avener Prado a Serra Leoa, um dos países com o maior número de casos da doença.
Embora o veículo tenha interesse de informar o episódio, a iniciativa partiu dos próprios profissionais de imprensa, conforme conta o fotógrafo à IMPRENSA. Segundo ele, a cobertura no Brasil a respeito do episódio era feita à distância, através das agências internacionais. “Quando decidimos ir para Serra Leoa, era o país onde a doença estava completamente fora de controle e há o maior centro de tratamento do ebola da organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF)”, diz Prado.
O hospital da entidade na região possui uma série de particularidades e foi esse diferencial que atraiu Patrícia, que conversa sobre uma eventual visita com o MSF há dois meses. “Trata-se de uma iniciativa incrível”, diz a jornalista.
Em uma das sobre a epidemia, Patrícia relata que o hospital foi construído no meio da selva para tratar os pacientes da doença. Ele tem capacidade para 80 leitos e funciona desde o fim de junho. “Acho importante fazer esse tipo de cobertura, mostrar a crise que esta afetando este povo tão pobre e sofrido e o trabalho maravilhoso dos médicos que estão lá, arriscando a vida todos os dias”.
Cuidados durante a cobertura
Ao entrar em contato com o Médicos Sem Fronteiras, Avener foi informado que sua colega também havia manifestado o interesse de conhecer o trabalho da entidade na região. “Juntamos-nos e oferecemos [a pauta] para o jornal. Li muito sobre a doença e os países que ela atinge, tinha que entendê-la. O MSF indicou uma relação de vacinas, tomei pelo menos oito, outras eu já tinha na cardeneta de vacinação; e estou tomando antibióticos para evitar a malária. A Folha contratou um infectologista, para nos observar antes, durante e depois da viagem até completar os 21 dias”, diz.
“[Além das vacinas], tivemos um briefing de orientação com o MSF, sobre as regras e os perigos, passamos pelo ambulatório do viajante do HC, e fizemos profilaxia de malária”, conta Patrícia. Embora tenha acompanhado ‘in loco’ conflitos como a guerra no Afeganistão, a jornalista afirma que esta cobertura foi diferente, pois “trata-se de um inimigo invisível, é muito difícil se proteger”.
Os riscos, de certo modo, ficam evidentes. “Não é uma guerra, não tem um front, muito menos coletes a prova de balas, ou melhor não há colete que se use numa situação dessas, o perigo é totalmente invisível, tem de ter atenção nas coisas mais simples como cumprimentar uma pessoa”, salienta Prado. O repórter fotográfico conta que a regra para se proteger é evitar contato e áreas que possam aglomerar pessoas e lavar as mãos a todo tempo utilizando a solução água e cloro.
Embora sejam os primeiros jornalistas brasileiros a visitar países africanos durante a crise do ebola, eles puderam encontrar diversos profissionais que participam da cobertura da epidemia. “Havia jornalistas do New York Times , Washington Post e da televisão francesa. Nós nos ajudamos bastante, trocando dicas e informações”, ressalta Patrícia.
A rivalidade pela informação não passava nem perto pelas rodas de conversa com os colegas de profissão. O sentimento, durante a estadia dos jornalistas, era de colaboração. Afinal, a região vive a maior crise da doença da história.
Desde o primeiro caso, a cobertura da imprensa “demorou para acontecer”, mas é importante, na avaliação do repórter fotográfico Avener Prado. “No começo a cobertura foi tímida, com matérias mais superficiais e numerária. Agora estão se aprofundando. O New York Times está fazendo matérias e vídeos sensacionais”, concorda a jornalista.
No epicentro do ebola
O faro jornalístico levou a dupla ao considerado epicentro da crise do ebola em Serra Leoa, a cidade de Kenema. O governo da região, para tentar evitar a propagação da doença, estipulou um cordão sanitário, que evita o fluxo de pessoas. Em tese, só entra e sai gente autorizada pelo Ministério da Saúde. Mas, com a ajuda de um motorista, eles conseguiram penetrar a barreira.
“Foi sensacional do ponto de vista jornalístico, mas também assustador e muito triste. As pessoas são muito pobres, as condições muito precárias, famílias inteiras estão morrendo”, destaca Patrícia. Neste caso, o trabalho pôde “mostrar o drama da doença, as condições precárias do país e de alguma forma, tentar ajudar. É, sem dúvidas, enriquecedor como profissional e humano”, diz Avener.
Questionado sobre o que mais lhe chamou a atenção, o repórter fotográfico diz que ficou impressionado com a miséria da região. “O país é muito pobre, tudo é muito precário e insuficiente, as estradas que dão acesso às cidades atingidas pelo surto são ruins, os hospitais péssimos, e a população dali tem medo dos hospitais”. O sentimento de medo também foi registrado pela jornalista Patrícia Campos Mello, que lembra a história do país para entender a miséria atual.
“O país passou por anos de guerra civil, é muito pobre e a infraestrutura praticamente não existente. Tudo é muito difícil. O povo é muito caloroso e gentil, mas estão com muito medo”, conta.
Apoio na reportagem
No último domingo (24/8), a ombudsman da Folha de S.Paulo , Vera Guimarães, comentou a série de reportagens dos enviados a Serra Leoa. No artigo, ela afirma que “o jornal pisou na bola” e descreve que o diário deveria ter informado sobre as precauções tomadas pela equipe sobre os riscos aos jornalistas.
Entretanto, a jornalista e o repórter fotográfico ressaltam o apoio da Folha ao especial. “Forneceu toda sua estrutura, pessoal e logística. Contratou um médico infectologista para o acompanhamento. Providenciou hotel por dez dias a nosso pedido”, destaca Avener Prado.
A jornalista Patrícia Campos Mello “agradece muito” a Folha por apostar na “possibilidade de fazermos reportagens aprofundadas sobre um tema muito relevante. Isso é maravilhoso hoje”.
Questionada sobre seus próximos projeto, a repórter especial diz que, por enquanto, pretende se dedicar ao filho Manuel, de dois anos. Já Prado diz ainda não ter uma iniciativa definida. “É difícil projetar e executar algo no turbilhão do jornalismo diário, o que tenho são várias ideias, possibilidades, que vão mudando e sendo executadas conforme disponibilidade”, conclui.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





