“Primavera brasileira”?
Em meados deste mês de junho, a megalópole paulista parecia estar sob estado de sítio. E o Brasil juntava-se à lista de países agitadospor uma forte mobilização popular, como a Turquia do Parque Gezi ou a Grécia, subitamente privada de radio e televisão pública.
Atualizado em 02/07/2013 às 17:07, por
Benoît Hervieu.
junho, a megalópole paulista parecia estar sob estado de sítio. E o Brasil juntava-se à lista de países agitados por uma forte mobilização popular, como a Turquia do Parque Gezi ou a Grécia, subitamente privada de radio e televisão pública. A comparação pode parecer descabida, é verdade. As origens dos protestos de São Paulo, que rapidamente se estenderam a outras cidades, surgem de preocupações mais quotidianas, embora não menos legítimas: o aumento brutal das passagens do transporte público.
Nada parecia indicar a possível deflagração de uma “Primavera brasileira” e, com efeito, durante seus primeiros dias, os acontecimentos não tiveram grande repercussão do outro lado do Atlântico. Aliás, não mereceram mais do que uma simples declaração do governador Geraldo Alckmin que, em Paris, justificava sem contemplações a repressão contra o “vandalismo dos manifestantes”.
Ora acabou sendo precisamente a magnitude da repressão que conferiu aos acontecimentos toda a sua importância. A Polícia Militar de São Paulo e sua unidade de elite, a Rota, não se limitaram a manter a ordem pública. Mais do que um confronto clássico entre policiais e manifestantes, os últimos dias em São Paulo tornaram-se uma Semana Negra, recheada de agressões seletivas, detenções arbitrárias e violações reiteradas das liberdades constitucionais, entre as quais a de informar. Mais uma vez, a comparação é forçada. O Brasil despediu-se do regime militar há quase trinta anos, não existe nenhum AI5 que dê cobertura aos policiais de serviço e os jornalistas presos ou feridos não foram selecionados de acordo com seu suposto grau de “subversão”.
Mas, se isto é verdade, como entender um tal furor repressor? Como explicar a criminalização não só de um movimento social como também de suas testemunhas privilegiadas, os atores da informação, oriundos de meios de comunicação tão diferentes, como Folha de S.Paulo e Portal Terra?
Ao trágico se associou o absurdo. Detido dia 11 de junho enquanto cobria os confrontos, Pedro Ribeiro Nogueira, do site Portal Aprendiz, transformou- se de repente, ao chegar à delegacia, num perigoso suspeito de “formação de quadrilha”, acusação que o impede de ser libertado sob fiança. Supomos que Piero Locatelli, de CartaCapital, que transportava em sua mochila uma garrafa de vinagre destinada a atenuar as eventuais queimaduras de gás lacrimogêneo, escapou por um triz de ser acusado de “posse de substância explosiva”. Felizmente, foi solto após duas horas de detenção. Giuliana Vallone e Fábio Braga, ambos do grupo Folha, conservarão em seus rostos as marcas das balas de borracha disparadas deliberadamente pela Rota. Ossos do ofício, sem dúvida…
Afinal, talvez estejamos assistindo a uma “Primavera brasileira”, que serviu para demonstrar até que ponto a Polícia Militar, criada durante a ditadura, continua atada a esse passado.
é respresentante do escritório das Américas da organização Repórteres sem Fronteiras. Tradução: David Rodrigues Gomes.
Nada parecia indicar a possível deflagração de uma “Primavera brasileira” e, com efeito, durante seus primeiros dias, os acontecimentos não tiveram grande repercussão do outro lado do Atlântico. Aliás, não mereceram mais do que uma simples declaração do governador Geraldo Alckmin que, em Paris, justificava sem contemplações a repressão contra o “vandalismo dos manifestantes”.
Ora acabou sendo precisamente a magnitude da repressão que conferiu aos acontecimentos toda a sua importância. A Polícia Militar de São Paulo e sua unidade de elite, a Rota, não se limitaram a manter a ordem pública. Mais do que um confronto clássico entre policiais e manifestantes, os últimos dias em São Paulo tornaram-se uma Semana Negra, recheada de agressões seletivas, detenções arbitrárias e violações reiteradas das liberdades constitucionais, entre as quais a de informar. Mais uma vez, a comparação é forçada. O Brasil despediu-se do regime militar há quase trinta anos, não existe nenhum AI5 que dê cobertura aos policiais de serviço e os jornalistas presos ou feridos não foram selecionados de acordo com seu suposto grau de “subversão”.
Mas, se isto é verdade, como entender um tal furor repressor? Como explicar a criminalização não só de um movimento social como também de suas testemunhas privilegiadas, os atores da informação, oriundos de meios de comunicação tão diferentes, como Folha de S.Paulo e Portal Terra?
Ao trágico se associou o absurdo. Detido dia 11 de junho enquanto cobria os confrontos, Pedro Ribeiro Nogueira, do site Portal Aprendiz, transformou- se de repente, ao chegar à delegacia, num perigoso suspeito de “formação de quadrilha”, acusação que o impede de ser libertado sob fiança. Supomos que Piero Locatelli, de CartaCapital, que transportava em sua mochila uma garrafa de vinagre destinada a atenuar as eventuais queimaduras de gás lacrimogêneo, escapou por um triz de ser acusado de “posse de substância explosiva”. Felizmente, foi solto após duas horas de detenção. Giuliana Vallone e Fábio Braga, ambos do grupo Folha, conservarão em seus rostos as marcas das balas de borracha disparadas deliberadamente pela Rota. Ossos do ofício, sem dúvida…
Afinal, talvez estejamos assistindo a uma “Primavera brasileira”, que serviu para demonstrar até que ponto a Polícia Militar, criada durante a ditadura, continua atada a esse passado.
é respresentante do escritório das Américas da organização Repórteres sem Fronteiras. Tradução: David Rodrigues Gomes.






