Previsão do tempo ganha destaque e espaço no noticiário com falta d’água no Sudeste
Dar aquela rápida espiada na previsão do tempo antes de sair de casa para saber se leva o guarda-chuva e o casaco, ou então, aguardar ansiosamente pelo jornal da sexta-feira para saber se vai dar praia no fim de semana é coisa do passado.
É claro que a crise hídrica na região Sudeste deu um belo empurrão para isso acontecer. Com alguns minutos a mais de informação, quadros específicos ou reportagens diárias sobre o tema, os veículos de comunicação têm dado cada vez mais importância para o assunto. Com isso, as jornalistas à frente dessa missão sentem na pele a necessidade de renovar diariamente seus votos com a meteorologia.
Segundo Patrícia Costa, apresentadora da previsão do tempo do “Jornal da Record” e do “Fala Brasil Especial”, todo o investimento feito na área a tornou mais confiável e gerou mais interesse da população. “As pessoas têm mais consciência sobre o clima e o impacto que ele causa em suas vidas. Mais do que ‘vai chover ou não’, conseguem enxergar os efeitos da cadeia – como o aumento do preço de alimentos, consumo de água e energia etc.”
Para a profissional, também pós-graduada em gestão ambiental, uma das principais mudanças foi a questão da apuração, com destaque maior para a região Sudeste devido à crise. “Fizemos especiais para mostrar o sistema da Cantareira, como uma chuva não interfere no volume da água e o desmatamento ao seu redor. A previsão foi ampliada e aprofundada, mostrando não apenas o clima, mas a questão ambiental.”
A jornalista Luciana Camargo foi contratada pela RedeTV! já em meio à crise hídrica, dois meses após mudança na Superintendência de Jornalismo da emissora. De acordo com ela, havia mais de um ano que o veículo tinha deixado de dedicar um espaço à previsão do tempo no “RedeTV!News” e, ao mudar o formato do jornal, essa foi uma das prioridades.
A emissora assinou um contrato com a Somar Meteorologia e, diariamente, os especialistas repassam todas as informações necessárias para a apresentadora. “Assim que o mapa foi ao ar, fizemos questão de abri-lo com uma reportagem sobre a importância da área – desde quando a princesa Isabel criou a Repartição Central Meteorológica, em 1888, até os satélites e radares da última geração”, completa.
“Meteorolês”
Preocupação comum entre todas elas, a tradução de termos técnicos e a busca por uma linguagem clara e objetiva está no topo da lista de “deveres”. “Uma apresentadora tem que se preocupar em sempre explicar, de uma maneira fácil para o público, quais são os fenômenos que estão atingindo o país, que causam a seca em uma região e temporais em outra, por exemplo. A linguagem dos meteorologistas é muito técnica e cabe a nós, jornalistas, saber transmitir essas informações aos telespectadores”, afirma a repórter Carolina Aguaidas, do “Notícias da Manhã” (SBT).
Porém, segundo Vagner Anabor, meteorologista e professor dos cursos de pós-graduação e graduação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), quando o assunto é cultura meteorológica ainda é necessário mais domínio. “Isso é estranho, pois quando se fala na mídia sobre economia, termos como superávit primário e produto interno bruto são sempre veiculados com normalidade. Termos médicos complicados também são comuns no jornalismo”, opina Anabor.
De acordo com o especialista, o espaço para a meteorologia nos meios de comunicação do Brasil ainda precisa crescer. Em países como Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra a previsão do tempo chega a ocupar um terço dos telejornais, geralmente apresentados por meteorologistas com especialização em comunicação.
Esse é o caso de Laura Ferreira, meteorologista do “Café com Jornal” e do “Jornal da Band”, que adaptou sua linguagem para a televisão e para o rádio. “O desafio é o tempo. Eu sempre quero passar o máximo de informações possível, mas nem sempre tem espaço para tudo. Temos que resumir. Para mim, o mais difícil mesmo é falar tudo o que eu tenho para falar em um minuto, um minuto e meio no máximo.”
O Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE) realiza anualmente um curso de curta duração, no qual jornalistas entram em contato com conhecimentos técnicos comuns da área. Do outro lado, a UFSM, por exemplo, oferece uma disciplina de Meteorologia & Mídia, na qual os alunos aprendem a se familiarizar com a rotina da comunicação.
“Tem crescido bastante o interesse de meteorologistas que querem trabalhar na imprensa. Quando eu me formei, há 15 anos, nem sabia que existia. Eu me formei pela Universidade de São Paulo (USP) e as matérias não tinham nada rela- cionado a rádio e TV. Hoje já tem disciplinas específicas. Algumas faculdades têm até cenário, com câmera para os alunos”, destaca Laura.
Luciana Camargo, do "RedeTV! News"
Segundo Anabor, em um dos trabalhos de conclusão de curso da disciplina de Meteorologia & Mídia da UFSM, os estudantes fizeram um levantamento de termos meteorológicos utilizados em telejornais e vídeos da internet nas principais empresas de mídia do Brasil. “O vocabulário utilizado não ultrapassa uma dezena de termos – 70% das citações concentram-se em expressões como frente fria, áreas de instabilidade e nuvens carregadas.”
Você repórter
Um terceiro elemento surgiu como um dos principais responsáveis pela produção de conteúdo: a própria população. Segundo Carolina Aguaidas, os telespectadores mandam perguntas e enviam vídeos de fenômenos presenciados por eles – que muitas vezes são usados dentro do quadro para ilustrar o que acontece pelo Brasil. “Eu utilizo muito as minhas redes sociais para dar os destaques da previsão, o que também dá um bom retorno do público”, ressalta.
Envolver o telespectador, ouvinte ou leitor na produção de material se estende para diversos outros veículos. No Climatempo, por exemplo, há um espaço chamado “Participação do Usuário”, onde o internauta pode enviar uma foto ou notícia de um fenômeno estranho, chuva forte, algum tipo de nuvem etc.
“Essa foto com legenda ou notícia passa por uma avaliação da chefia de meteorologia que constata a veracidade da imagem e da informação, e após isso é publicada no site”, diz Angela Ruiz, assessora de comunicação do Climatempo. Comparando o período de outubro de 2014 a fevereiro de 2015 com outubro de 2013 a fevereiro de 2014 a audiência do portal cresceu 105%. Entre os clientes da empresa estão TV Band SP, TV Gazeta SP, Rádio Eldorado/ ESPN/ Estadão, CBN SP e RJ, Rádio Globo, os jornais O Estado de S. Paulo, O Globo, Extra etc.
A BandNews FM também passou a receber perguntas e histórias de ouvintes que tiveram a rotina afetada pela falta d’água. Para Sheila Magalhães, editora-executiva da rádio, esses relatos renderam reportagens e especialmente quadros que antes não havia na programação.
Em “Conta Gotas”, um ouvinte, em particular, conta sua história e a Sabesp responde sobre o caso. Já em “Manual da Sobrevivência”, o Grupo trouxe dicas de como a população poderia contribuir com a economia de água. “A interação com ouvintes é excepcional. Acontece em tempo real, especialmente pelo WhatsApp, e-mail, Twitter, Facebook e torpedos. Nós, de dentro do estúdio, acessamos todas essas mensagens enviadas. Selecionamos algumas para reportagens, respondemos outra no ar, e uma outra parte respondemos por escrito. Eles se tornam fontes de informação... e de ideias muita criativas também”, afirma Sheila.
Jornalistas do tempo
Crédito:xx Patrícia Costa, do "Jornal da Record"O professor Vagner Anabor lembra que a previsão do tempo já passou por fases, digamos assim, pitorescas. Nos anos 1970, nos Estados Unidos, havia apresentadores vestidos de Carmem Miranda. Logo depois, surgiram as garotas em roupas sensuais. No Brasil, nos anos 1990, Felisberto Duarte, ou simplesmente “Feliz”, não economizava nos bordões, como “piriri, pororó”, ao comandar o quadro. “Eu costumo dizer que jornalista não gosta de ser chamada de ‘moça do tempo’, porque elas sabem e podem fazer muito mais do que só apresentar a previsão. Se tem alguém que pode ser chamada disso sou eu, que sou meteorologista.
Mas nos últimos anos não vejo isso, elas até gostam. É uma visibilidade, traz uma credibilidade maior, com o peso que a área tem hoje”, opina Laura, do “Café com Jornal”. Um dos sinais que esse é um mercado em expansão, segundo Patrícia Costa, da Record, é que hoje muitos jornais menores, de cidades de interior ou fora dos grandes centros, já investem em jornalistas do tempo.
“Em afiliadas, o próprio âncora apresentava o clima, com um mapa ao lado. Trazer uma pessoa especializada dá mais credibilidade. Existe uma movimentação nesse mercado.” Mariana Ferrão, apresentadora do “Bem Estar”, na Rede Globo, foi uma das primeiras a se especializar na área. Quando foi convidada, em 2004, a liderar a previsão do tempo do “Jornal da Band”, a jornalista recebeu carta branca para repaginar a atração. Chegou, inclusive, a viajar aos Estados Unidos para aprender algumas técnicas. “A meteorologia é importante não só do ponto de vista econômico. A gente tenta tornar visível o impacto para o comércio, a pesca, a cultura”, disse em entrevista à IMPRENSA em 2004.
Para Carolina Aguaidas, já existiu um estigma de que a “moça do tempo era só mais um rostinho bonito na TV”. “Hoje vejo que as pessoas já entendem que é uma jornalista, que estuda sobre o assunto, faz um trabalho minucioso, mas também faz reportagens, pode comandar o telejornal ou falar, com propriedade, de qualquer outra editoria.”
“Se antigamente a previsão do tempo já atraía os recém-formados, porque era uma porta de entrada para a televisão, hoje a editoria é ainda mais atraente. Tem mais espaço nos noticiários, interessa ao público e dá possibilidade para a jornalista desempenhar também outras atividades, como na reportagem ou na apresentação de séries especiais sobre o tema”, completa.





