Prensa Latina: Satanás e a Cuca, estagiários de jornalismo
Prensa Latina: Satanás e a Cuca, estagiários de jornalismo
de Buenos Aires, Argentina
Kirchner só não falou que Satanás e a Cuca haviam feito estágio em algum jornal.
BUENOS AIRES – “Senhor, lá fora o esperam três jornalistas...e um cavalheiro do The Times”. A frase, pronunciada pelo mordomo de um primeiroministro britânico nos anos 20, indicava uma polida discriminação a determinados profi ssionais da mídia. Essas formas são sutilezas do passado. Atualmente, na América do Sul, o tratamento está longe de ser londrino. Os jornalistas são encarados pelos governos da região como os culpados dos males de seus países.
As tensões até ocorrem no pacato Uruguai, onde, pela primeira vez desde o fi m da Ditadura Militar (1973-85), os jornalistas são alvo de tratamento agressivo por parte do governo, neste caso, do socialista Tabaré Vázquez, que acusou a mídia de realizar-lhe “oposição sistemática”. Vázquez também indicou que os jornalistas “disfarçam” a opinião como informação. O presidente citou expressamente vários meios de comunicação que estavam em sua lista negra. A Associação Nacional de Broadcasters Uruguaios (Andebu), em réplica, afi rmou que “a liberdade de expressão é um direito fundamental”.
Os estrangeiros também enfrentam problemas no Uruguai. Um dos exemplos foi a cena (inédita na história das relações imprensa estrangeira-governo uruguaio) protagonizada pelo diretor de protocolo da Chancelaria uruguaia, Jorge Meyer, ao expulsar do Palácio Santos um grupo de enviados especiais brasileiros – que acompanhava a visita do chanceler Celso Amorim em junho - sem maiores explicações do que a frase: “Fora! Sou o dono do palácio!”.
Do outro lado do rio da Prata está o caso emblemático do presidente Néstor Kirchner, avesso aos jornalistas.
Ao longo do último mês, ele e sua esposa, a primeira-dama Cristina Kirchner, dispararam críticas contra o jornalismo, citando aqueles que consideram “maus profi ssionais”. O casal presidencial foi direto: “Os jornalistas não entendem coisa alguma”. E além disso, acusaram os jornalistas de tentar impedi-lo de governar. Kirchner só não falou que Satanás e a Cuca haviam feito estágio em algum jornal.
O desprezo pelos governos da região com o jornalismo ficou claro na Cúpula do Mercosul realizada em Córdoba, encerrada sem a tradicional coletiva com os presidentes no encerramento da reunião. Enquanto que em meados dos anos 90 era costumeiro uma longa coletiva com os presidentes, na virada do século haviam se transformado em micro-coletivas com direito a duas ou três perguntas. Na Cúpula de dezembro de Montevidéu os presidentes sumiram e foram substituídos pelos chanceleres. Na Cúpula de julho em Córdoba, sequer isso.
Se o padrão continuar, o que nos espera para a próxima Cúpula, a ser realizada no Brasil?
E, como somos democráticos, abrimos este espaço para um esclarecimento do diretor da agência estatal Télam, Martín Granovsky, que de forma polida (algo raro no governo argentino), explicou-me que na coluna de junho havia uma interpretação incorreta sobre seu discurso de posse. Na ocasião, escrevi: “A própria agência estatal de notícias, Télam (a maior agência de notícias do país) tornou-se – mais do que já era em governos anteriores – em um centro de defesa e propaganda do presidente.
O próprio diretor da agência, Martín Granovsky (que antes de assumir o cargo era um respeitado colunista político do Página 12, jornal que no passado foi conhecido porsua independência) admitiu, no dia de sua posse: ‘A Télam não será neutra’.”
Mas, segundo Granovsky, quando se referiu à ausência de neutralidade, não estava falando em propaganda para o presidente. Ele indica que quis dizer que a Télam não seria omissa – como ocorreu no passado - perante questões como os direitos humanos e a justiça social. Este é o parágrafo de seu discurso: “Na Télam não haverá tergiversação de coisa alguma. Na Télam não acontecerão mentiras. Agora, a Télam não será neutra.
Télam, como agência e empresa pública, não pode ser neutra quando existe a crise social mais apavorante da história, quando ainda há muitas coisas para resolver na Argentina, quando o processo de renovação da Justiça ainda não foi concretizado (...)Télam não será uma agência neutra em termos de integração sul-americana, não será uma agência neutra sobre o Mercosul”.






