Prensa Latina:Relação de Kirchner com a imprensa continua turbulenta
Prensa Latina:Relação de Kirchner com a imprensa continua turbulenta
de Buenos Aires, Argentina
Desde que tomou posse, Kirchner nunca realizou uma coletiva
BUENOS AIRES - El Pingüino ("O Pingüim"), como é denominado popularmente o presidente Néstor Kirchner, entrou em maio em seu quarto (e teoricamente último) ano de governo. Entre suas várias características que o tornaram um presidente peculiar, manteve-se constante a permanente relação tensa com a imprensa nativa e internacional. Desde que tomou posse, em maio de 2003, Kirchner nunca realizou uma coletiva de imprensa em território argentino para a própria imprensa nacional. Além disso, ignorou todos os pedidos dos correspondentes estrangeiros para conceder uma entrevista.
Os assessores do presidente explicam, em off , sem pudores, a estratégia de comunicação com a imprensa estrangeira: "Antes, quando estávamos em campanha e precisávamos da imprensa, a gente falava com vocês. Mas, agora que estamos no poder e vamos bem, não precisamos mais. Se as coisas começarem a ir mal, voltaremos a procurá-los".
Com o Brasil, o governo Kirchner deixou claro que o silêncio será total. "O presidente Kirchner não falou com a imprensa brasileira, não fala, nem falará com vocês, nunca!". O recado foi disparado em julho de 2004 pelo porta-voz presidencial e permanece em vigência até agora. O peso da imprensa brasileira em território argentino (uma dezena de meios de comunicação do Brasil estão presentes em Buenos Aires), nem o fato de que os jornais de São Paulo e Rio de Janeiro são os que mais publicam sobre a Argentina diariamente em todo o planeta, não pesam para que Kirchner mude de idéia.
Diversos analistas políticos e colunistas consideram que Kirchner teme enfrentar a imprensa internacional, pois - afirmam - não teria "capacidade intelectual" para uma entrevista incisiva. Outros especialistas afirmam que a explicação seria mais simples e crua: "Kirchner é um jeca, que não sabe a importância da mídia mundial". Um terceiro grupo de analistas sustenta que Kirchner tem todo o direito de negar-se a conceder entrevistas. "Ele está ocupado com a tarefa de colocar o país nos eixos. Não pode perder tempo dando centenas de entrevistas" é um dos argumentos dos assessores.
A imprensa argentina conseguiu obter de Kirchner um punhado de entrevistas. Mas, em todos os casos, foram meios de comunicação com boa relação com o governo, que coincidentemente são os que mais contam com publicidade oficial. Diversos meios de comunicação que costumam ser duros com o presidente, como o jornal Perfil e a revista Notícias , de Buenos Aires, ou o Diario de Río Negro , do interior da Patagônia, não recebem um centímetro quadrado sequer de publicidade paga pelo Estado.
Para os pequenos jornais do interior, com dificuldades de sobrevivência, essa política do governo federal os obriga a viver na corda bamba financeira, correndo o risco de fechar as portas, ou de serem condescendentes com Kirchner. As associações jornalísticas constantemente acusam o governo de "prensar" os jornalistas e as empresas de mídia. A censura aos meios de comunicação está sendo cada vez menos sutil.
A própria agência estatal de notícias, Télam (a maior agência de notícias do país) tornou-se - mais do que já era em governos anteriores - um centro de defesa e propaganda do presidente. O próprio diretor da agência, Martín Granovsky (que antes de assumir o cargo era um respeitado colunista político do Página 12 , jornal que no passado foi conhecido por sua independência) admitiu, no dia de sua posse: "A Télam não será neutra".
Até o tradicional humor político nos programas de variedades e de notícias está sendo castigado. As ferinas imitações do presidente e da primeira-dama, Cristina Fernández de Kirchner (mostrada como uma obsessiva freqüentadora de shoppings) são encaradas com irritação na Casa Rosada. Em um dos casos, as imitações realizadas no programa "Show Match", do Canal Trece, um sucesso de audiência, foram suspensas após intensas pressões provenientes da presidência.
O apresentador e produtor do programa, Marcelo Tinelli, havia realizado em 2001 uma ácida imitação do então presidente Fernando De la Rúa (1999-2001), que colaborou em afundar mais ainda sua já abalada imagem. Hoje em dia, De la Rúa considera que o principal motivo de sua queda, no meio de revoltas sociais e caos financeiro, foram as imitações patrocinadas por Tinelli. Por via das dúvidas, o casal Kirchner está se encarregando de eliminar essas paródias.






