Prêmio por "apreço à liberdade de expressão" concedido a Hugo Chávez repercute e causa polêmica
Prêmio por "apreço à liberdade de expressão" concedido a Hugo Chávez repercute e causa polêmica
Na última terça-feira (29), o presidente venezuelano Hugo Chávez recebeu o Prêmio Rodolfo Walsh pelo apreço à liberdade de expressão e o incentivo à comunicação social. O reconhecimento foi feito pela faculdade de jornalismo da Universidade Nacional de La Plata (UNLP) e gerou debate e repercussão internacional.
Entre as polêmicas, a dúvida sobre o quanto as relações políticas entre Argentina e Venezuela teriam influenciado no reconhecimento do presidente. O correspondente da Agência ANSA Latina no Brasil, Dario Pignotti, ex-professor da UNLP, afirmou ao Portal IMPRENSA que assimilar o prêmio dado a Chávez como um sinal de hostilidade de Cristina Kirchner contra os meios de imprensa do próprio país - que tem tido grande atrito com a presidente - é um erro. "Muita gente compra essa briga de forma equivocada, esquecendo que mais da metade da população apóia a posição da presidente", afirma.
Pignotti aponta que acontece na Argentina o mesmo que ocorreu com o ditador egípcio Hosni Mubarak. "Ele esteve no poder durante trinta anos e a imprensa internacional passou longe de criticar sua postura ditatorial. Porém, depois das revoltas os meios acabaram dando um tiro no pé e criticando o presidente. Fazem o mesmo com Chávez e Cristina quando eles tentam regular o setor de mídia de seus respectivos países", diz ele.
Criado em 1997, o prêmio da UNLP tem o objetivo de estimular a excelência jornalística e o compromisso com a verdade. Leva o nome do jornalista e guerrilheiro argentino Rodolfo Walsh, desaparecido em 1983, durante a ditadura na Argentina. Já foram reconhecidos pela universidade o escritor uruguaio Eduardo Galeano, o jornalista espanhol Ignácio Ramonet, e o presidente boliviano Evo Morales, além de jornalistas e escritores.
| Divulgação |
| Chávez e Florência Saintout na cerimônia de premiação |
A decana da faculdade de jornalismo da UNLP, Florência Saintout, disse na cerimônia de entrega do prêmio que a homenagem a Chávez é um reconhecimento da universidade por ele ter dado "a palavra aos sem voz" quando criou a rede Telesur de televisão, uma parceria com Argentina, Brasil, Cuba e Bolívia visando a integração regional.
A decisão não foi apoiada pelo reitor da entidade, Fernando Tauber. A senadora e jornalista Norma Morandini, do partido de oposição Frente Cívica, também criticou a concessão do prêmio. "Estão consagrando o desprezo pela imprensa, por mais populares ou queridos que sejam os presidentes". Norma lembra que como jornalista, Rodolfo Walsh, questionou o poder, por isso, não deveriam conceder um prêmio a alguém que pertença ao poder.
Chávez e a mídia
No dia da premiação, o jornal argentino La Nación afirmou em seu editorial que a atitude é insólita pelos veículos que Chávez já fechou em seu país, entre eles a Rádio Caracas Televisão (RCTV) em 2007. "É um engano que o presidente venezuelano receba o prêmio por sua contribuição à imprensa", disse o jornal.
Chávez se disse honrado pelo reconhecimento e desprezou os questionamentos sobre a coerência do prêmio. "Já começaram 'o ditador não merece, fechou não sei quantos jornais, não sei quantos meios'. Tudo mentira. Não foi fechado um só meio de comunicação na Venezuela", declarou o presidente.
Veja abaixo a repercussão em torno da premiação:
"Nosso sindicato que neste ano cumpre 65 anos de defesa aos direitos dos trabalhadores de imprensa da Venezuela é testemunha e tem denunciado como o governo de Chávez censura os jornalistas e os meios de comunicação"
Carta do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa Venezuelana dirigida à Universidade Nacional de La Plata
"O presidente Chávez é um claro inimigo da liberdade de expressão. Levaria muito tempo para listar as ações dele contra o direito do povo venezuelano de ser informado com independência e objetividade"
Gonzalo Marroquín, presidente da Inter American Press Association
"A entrega do prêmio a Chávez é inconcebível e contraditório"
Silvana Giudici, presidente da Comissão da Liberdade de Expressão do Parlamento Argentino
"Chávez merece reconhecimento político. Porém mais que pela defesa à liberdade de expressão, é pelo apoio a comunicação popular, a diversificação dos meios e pelo impulso da rede Telesur como alternativa"
Claudio Gómez, membro do Comitê que concedeu o prêmio
" Chávez é o professor na matéria de agressão contra o jornalismo independente. Cristina se converteu, por direito próprio, em sua melhor aluna"
Jaquín Morales Solá, jornalista do argentino La Nación
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