Prêmio Abdias Nascimento celebra militância negra nas redações; conheça os vencedores
Com o slogan "Jornalismo que busca a igualdade merece fazer diferença", o II Prêmio Nacional Jornalista Abdias do Nascimento teve
Crédito: Agência Brasil / Ricardo Stuckert Abdias do Nascimento (1914-2011)
Com o slogan "Jornalismo que busca a igualdade merece fazer diferença", o II Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento teve sua noite de celebração na última segunda-feira (12/11), no teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro. A iniciativa premia jornalistas que escrevem ou registram imagens sobre as questões raciais no país.
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A edição distribuiu R$ 35 mil reais e contou com 170 inscrições (em sete categorias: impresso, rádio, internet, televisão, mídia alternativa ou comunitária, fotografia e especial de gênero), o dobro da média anual de 75 trabalhos da edição anterior, referente ao biênio 2009-2010.
"O prêmio estimula um jornalismo plural, com diversidade, mas com igualdade. Temos vários grupos que lutam por igualdade, mas a igualdade racial na representatividade, nas fontes e temas jornalísticos é estruturante nesse país", disse Ângela Basthi, idealizadora do prêmio e coordenadora da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, a Cojira-RJ.
Militância
Athayde Motta, diretor executivo do Fundo Baobá para Equidade Racial, entidade apoiadora da iniciativa - ao lado da Fundação Ford, Fundação Kellogg e Oi - destacou a importância de a mídia brasileira "renovar as formas de tratar o tema racial e dos negros para se libertar das pautas pré-concebidas e dos estereótipos".
Para Motta, um dos problemas visíveis da mídia tradicional é o tratamento recorrente à classe C, em que se destaca a ascensão social e o consumo crescente, sem aprofundamento da questão racial.
"Apesar de a classe C ser formada majoritariamente por negros, ou você só ilustra isso, ou dá uma conotação negativa. Se a maioria da classe C fosse italiana ou libanesa, isso seria noticiado. Isto é um fato jornalístico. Se são negros, é porque tem alguma coisa aqui que a imprensa não está vendo", disse.
Um dos homenageados da noite [junto da atriz Léa Garcia, em nome do teatro alternativo negro], o escritor professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Muniz Sodré aproveitou seu discurso para lembrar a trajetória de Abdias do Nascimento - senador, jornalista, escritor e um dos ícones do combate ao racismo no Brasil, falecido em 2011 -, e fazer um paralelo com a exaltação recente do nome do ministro do STF Joaquim Barbosa.
"O que está acontecendo hoje é a ponta desse movimento mais longo do movimento negro, no qual Abdias se arriscou. Abdias agiu como Exu. Exu é o dono da fala, o o dono da palavra, e quando a palavra sai da boca, ninguém mais é dono dela. Então, a palavra da libertação e da afirmação do negro na sociedade brasileira ninguém para mais".
Mauro Porto, da Fundação Ford, resgatou frase de Abdias, dita em entrevista de 2001: "Enquanto não houver igualdade, sobretudo nos meios de comunicação e na educação, enquanto a voz das instituições que representam uma outra versão da filosofia que nos foi imposta não tiverem eco, o Brasil não tem o direito de se declarar uma nação democrática".
Na telinha
Miriam Leitão
Uma das finalistas na categoria televisão, a jornalista Miriam Leitão [em parceria com Claudio Renato] concorreu com matéria veiculada na GloboNews, em que retratou descobertas arqueológicas recentes sobre o Cais do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos, no Rio, onde escravos africanos doentes eram enterrados à época da escravidão.
"Como morriam doentes, eram escravos que não tinham sido 'usados' ainda. Por isso, "pretos novos", o que mostra a mentalidade da época. Chamei historiadores negros da nova fase de estudos da escravidão para contar essa história. Mais de um milhão de escravos passaram pelo Cais do Valongo. Mostrávamos os ossos do cemitério. Não teve como não se emocionar", disse Miriam, que acabou não levando o primeiro lugar, mas a única menção honrosa da noite.
Para a jornalista, a mídia nacional falhou no passado ao resumir o problema racial na política de cotas. "Durante toda a década passada, a discussão na grande mídia foi 'meio Fla-Flu': quota ou sem quota? Sempre defendi que essa discussão fosse tratada de forma mais aprofundada."
Grande vencedora da categoria, a jornalista Luciana Barreto [com equipe: a diretora Isabelle Gomes e a produtora Vivian Carneiro], da TV Brasil, levou o troféu por matéria sobre os números do IBGE relativo aos negros. "Percebemos que todos estes números são muito cruéis. Revelam uma realidade muito triste de discriminação e abandono".
Para Luciana, apesar de existir maior abertura aos negros nas TVs públicas, "a TV comercial ainda é muito fechada". "Quando vemos TV comercial do país, achamos que estamos na Europa", afirma.
Em todas as mídias
Na categoria rádio, o vencedor foi o jornalista Nestor Tipa Jr., da Rádio Gaúcha, com a reportagem "Quilombos Urbanos", sobre as comunidades quilombolas do Rio Grande do Sul. Dedicou o troféu aos personagens que viabilizaram a matéria.
"O maior prêmio que recebi foi os quilombolas com quem falei virem me dizer que o tema foi tratado com verdade pela primeira vez na imprensa gaúcha".
Nilton Fukuda, de O Estado de S. Paulo , foi o premiado pela melhor fotografia, sobre a cracolândia, em São Paulo, e ação violenta policial para retirada dos usuários, ocorrida no início deste ano.
Para o fotógrafo, o ideal é que "não existissem cenas como as da cracolância para serem fotografadas". E lamentou a ação policial. "Infelizmente, o crack está sendo tratado como caso de polícia. Que fotografias como essas sirvam de crítica ao governo do Estado."
Na categoria mídia alternativa ou comunitária venceram as jornalistas Tatiana Feliz, Karol Assunção, Natasha Pitts e Rogeria Araújo, da Agência Adital, do Ceará.
Na matéria "Negros no Ceará, redenção?", o quarteto mostrou as contradições sociais e raciais existentes no estado. "Ilustramos um Estado que tanto se vangloria por ser a terra da luz, a terra da liberdade [o Ceará é tido como o pioneiro da abolição da escravidão no país], enquanto tem muito ainda para se conquistar", disse uma das vencedoras.
A comissão julgadora foi composta por jornalistas e especialistas de várias áreas ligadas às questões raciais. Repetindo tendência da edição anterior, as regiões Sudeste e Nordeste foram as que mais inscreveram trabalhos com, respectivamente, 50% e 20% do total. Leia todas as reportagens vencedoras .
Todos os vencedores
Impresso
Antonio Gois e Alessandra Duarte, Desigualdade em trabalhos iguais, O Globo - RJ
Rádio
Nestor Tipa Jr., Quilombos urbanos, Radio Gaúcha – RS
Internet
Priscila Borges, UNB já formou mais de 1 mil universitários pelas cotas, Portal iG - DF
Televisão
Vencedora: Luciana Barreto e equipe, Caminhos da Reportagem: Negros no Brasil - Brilho e Invisibilidade, TV Brasil – RJ
Mídia Alternativa ou Comunitária
Tatiana Félix, Karol Assumção, Natasha Pitts e Rogeria Araujo, Série Negros no Ceará: Redenção?, Agência Adital - CE
Especial de Gênero
Ed Wanderley, Negra é minha cor, Diário de Pernambuco – PE
Fotografia
Nilton Fukuda, Excluídos pelo Crack, O Estado de São Paulo - SP






