Prefeito de São Bernardo processa ilustrador e gera reação de chargistas pelo País

Orlando Morando questiona na Justiça charge que faz menção à denúncia feita contra ele à PF sobre compras suspeitas de imóveis

Atualizado em 12/08/2020 às 10:08, por Redação Portal Imprensa.

Uma ação judicial de autoria do prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando (PSDB), contra o ilustrador Luiz Carlos Fernandes, do Diário do Grande ABC, gerou uma reação de chargistas por todo o Brasil e até fora do País, na última semana.

Crédito:Secult/Minc Prefeito Orlando Morando


A ação criminal pede explicações do ilustrador acerca da charge publicada pelo jornal no dia 19 de julho, que fez menção a uma denúncia feita à Polícia Federal contra Morando. Uma empresa do prefeito é suspeita de comprar imóveis por valor abaixo do avaliado no mercado, o que pode configurar lavagem de dinheiro.


O desenho traz a caricatura de Morando com uma placa no pescoço onde estão pintados os dizeres: “Compro terrenos. Dinheiro na hora”.

Crédito:Luís Fernandes / Diário do Grande ABC


O prefeito disse que poderia ainda processar Fernandes por calúnia e difamação, por ter sido retratado de maneira “jocosa”. O autor da reportagem que revelou o suposto esquema, jornalista Raphael Rocha, também é alvo do processo.


Fernandes falou em entrevista ao Diário do Grande ABC que nunca tinha alvo de processos, nem no período da ditadura militar. O ilustrador tem 40 anos de carreira.


“Eu vejo isso como intimidação. A charge não está ofendendo. A ilustração não está pejorativa. Ele é um homem público e o papel da imprensa é fiscalizar esses agentes”, contestou. Ele ainda ressalta que o papel da imprensa é revelar possíveis atos ilegais cometidos por figuras públicas. “Eu ficaria constrangido se ele gostasse da charge e colocasse na parede”, completa.


Por meio da assessoria de imprensa, Orlando Morando disse que os processos não têm a intenção de promover censura. “O histórico do prefeito revela que sempre foi totalmente a favor da liberdade de imprensa, expressão e manifestação do pensamento. Porém, o ordenamento jurídico brasileiro também garante àquele que se sentiu ofendido em face de acusações infundadas a prerrogativa de buscar o Judiciário para salvaguardar seus direitos. A salvaguarda de direitos individuais em nada significa atentar contra a liberdade de imprensa como um direito público e absolutamente inalienável”, diz a nota.


Charge ganhou mais destaque


Entidades de jornalistas e cartunistas do Brasil e fora do País reagiram à atitude de Morando e classificaram a ação judicial como tentativa de cerceamento da profissão e da liberdade de expressão.


O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo disse que “repudia toda e qualquer atitude de cerceamento da profissão dos jornalistas e se coloca à disposição dos trabalhadores do Diário diante da tentativa de intimidação do prefeito Orlando Morando”.


O dirigente da Associação dos Cartunistas do Brasil, José Alberto Lovetro, o Jal, defendeu que a natureza da charge é contestatória e não aceitá-la é um ato antidemocrático. “Todo mundo que entra na área política sabe que será criticado, é do jogo democrático. A linguagem da charge, por natureza, é contestatória. O prefeito que não sabe entender isso está indo contra a própria ideia de ser prefeito. Ele não age como político democrático. O exercício da política traz bônus e ônus”.


Alvo de processo do governo federal por conta da charge de Jair Bolsonaro pintando uma suástica no lugar do símbolo do SUS, o chargista Renato Aroeira avaliou que a ação judicial pode ser um “tiro no pé”, aumentando a visibilidade da ilustração.


“Essas pessoas estão processando uma piada. Cada vez que prefeito, presidente, ministro da Justiça, autoridades reclamam de charge, chamam atenção e levam essa charge a locais nunca antes imaginados. Parabéns ao Fernandes. Quando um desses poderosos nos processa, a gente pode usar isso como condecoração”, ironiza.


A cartunista italiana Mariagrazia Quaranta, a Gio, iniciou uma campanha entre ilustradores em apoio a Fernandes. Veja algumas charges publicadas em jornais brasileiros:









Também apoiaram o cartunista a Associação Paulista de Portais e Jornais e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). A atriz Patrícia Pillar também criticou o prefeito tucano.