A discussão sobre o futuro do jornalismo é tema predominante nas redações, universidades e em qualquer local que reúna profissionais de imprensa. No debate a pauta recorrente é a chegada de novas tecnologias e de uma eventual crise dos meios de comunicação. No entanto, para abordar o amanhã, é necessário analisar o presente.
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Jornalista acredita que futuro da imprensa depende da superação da crise da linguagem Para apresentar uma visão completa sobre o que nos espera para os próximos anos, IMPRENSA ouviu o jornalista Julio Lamas, colunista do blog Urbanidades, do Planeja Sustentável. O jovem é autor da reportagem “Como desatar este nó”, da revista National Geographic Brasi l, vencedora do 1º Prêmio de Jornalismo Mobilidade Urbana Sustentável, promovido pelo Instituto de Políticas de Transporte & Desenvolvimento (ITDP, na sigla em inglês).
Lamas acredita que vivemos uma crise de linguagem, onde encontramos dificuldade em relacionar o conteúdo que produzimos com quem está comprando o jornal. “Vamos precisar pensar muito em linguagem, na maneira como devemos chamar o novo consumidor para assinar jornais e revistas”, diz.
Forma textual
O domínio da escrita é essencial para um jornalista. Entretanto, a falta de noção das regras gramaticais e de uma base cultural faz com que a qualidade do que é veiculado nos meios de comunicação deixe a desejar em certos momentos. Sem prender o leitor, os textos e artigos não cumprem a função de informar e formar uma opinião embasada, de acordo com o Lamas. “Agora há um amplo mercado consumidor, uma ampla classe média no país, e temos um sério problema de fazer os jornais diários e as revistas semanais chegarem a este público”.
Mas as oportunidades estão de portas abertas. Segundo o jornalista, o número de livrarias no Brasil tem aumentado substancialmente, assim como o número de vendas de exemplares. “É um fenômeno que vai na contramão do que está acontecendo, por exemplo, nos Estados Unidos. Mas não conseguimos aproveitar isso. Por que não remar nessa fonte? Por que não se explora o field opportunity? De que forma vamos atrair os novos leitores?”.
O primeiro passo é deixar o conteúdo mais atraente. O maior exemplo de que a qualidade rende bons resultados está no bom trabalho desenvolvido nas capas dos periódicos. Elas conseguem transmitir a mensagem e trazer o interesse do leitor para o que está sendo dito. “Temos ótimas taxas de views, e péssimas de conversão. Nós atraímos o leitor, mas não conseguimos convertê-lo”.
Na opinião de Lamas, o caminho para as mudanças não é algo fora do normal, mas uma volta ao básico do que aprendemos na universidade. “Lembra aquela aula de jornalismo básico, onde o cara falou para você assim: jornalismo não se faz com adjetivos. Jornalismo não se faz com opinião? Perdemos isso em algum momento, não? Essa é a crise de linguagem. A crise de linguagem no Brasil é um excesso de adjetivos. Adjetivos que a imprensa impõe. Uma coisa é uma colunista escrever o que escreve, outra é você assimilar a linguagem dele dentro de sua matéria de capa”, diz.
Novas tecnologias e o tempo
Desde que a prensa foi inventada, as novas tecnologias são parte do cotidiano do jornalista. A otimização do trabalho foi capaz de entregar notícias com instantaneidade e para todos. Neste caso, Lamas acredita que elas podem ajudar no desenvolvimento da área, mas não deve alterar a forma com que o jornalismo é feito. “A técnica para fazê-lo, independente do meio que ele está, mesmo que seja uma matéria escrita para um iPad ou para uma revista, continua a mesma. Entretanto, as tecnologias auxiliam sim, criando produtos gráficos mais atraentes”.
Ao mesmo tempo, o colunista acredita que há um problema sério que dificulta a utilização das novas tecnologias no Brasil pelos jornalistas, o alto preço. “Vai demorar para que aconteça uma massificação desses produtos. Enquanto isso, precisamos começar a investir realmente em linguagem. E como atrair o leitor?Eu acho que um bom exemplo hoje é a "TV Folha"”.
“Ela criou uma linguagem incisiva e realmente contundente na abordagem das questões e está sendo um tremendo sucesso exatamente por isso. A questão é saber fazer jornalismo de massa. Às vezes, a gente perde muito tempo em fazer hard news e hard news ruim”, completa.
A resposta é simples: a necessidade de entregar a informação antes que ela deixe de ser relevante, numa sociedade pautada pelo tempo. As imposições do mercado, segundo ele, atrapalham e desvirtuam o trabalho dos jornalistas. “Não se pode obrigar um rapaz a escrever duas, três matérias por dia e depois pedir para que, num fim de semana, ele escreva um ensaio analítico sobre o plano Real. Ele não tem tempo, nem para investigar e nem para apurar”.
A conclusão de Lamas é que essa 'correria' reflete na qualidade de conteúdos, pois não há tempo para desenvolver talento. O jornalista acredita que a inovação no mercado esbarra no que ele chama de “conflito de gerações”.“É o fazer jornalístico nos moldes que as pessoas começaram a trabalhar no começo da década de 60 a 80 e isso não funciona mais". Neste cenário, esta crise é "de interesse da imprensa, que perdeu seu foco no leitor”, conclui.
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* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

