Povos indígenas: o que fiz com eles?, por Robson Silva

Povos indígenas: o que fiz com eles?, por Robson Silva

Atualizado em 05/04/2005 às 14:04, por Robson Silva / Instituto Superior e Centro Educacional Luterano Bom Jesus.

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Despojados de sua cultura e impossibilitados de sobreviver na nossa, os índios pedem socorro

Pele parda, surrada do sol, da chuva, do asfalto. No semblante, o lúgubre agonizar daqueles que se tornaram forasteiros em sua própria terra. Não por vontade própria, mas porque a violência do homem branco assim o quis. Longe da aldeia, no Centro de Joinville, sentados numa calçada qualquer, os índios são os mendigos do artesanato. Despojados de sua cultura e entregues aos costumes da sociedade moderna, eles vendem miniaturas de animais entalhados em madeira, colares de sementes e cestos de vime. Bem distante da nobreza artesanal, próximo da crueldade da mendicância, esta é a maneira que encontraram para buscar a sobrevivência.
São Xavantes, Guajás, Guatós, Inguarikós, Kaingangs, Pataxós, Guarani e outros tantos mais. Exterminados aos milhares, pela fome, pelas doenças, pela violência. Relegados ao trapo velho e à imagem de fantoches de um conjunto de crenças. Seres humanos da era do e-mail, do celular; meros fantasmas que se comunicam pela tristeza lânguida do olhar. Como os olhos de Arminda, uma índia desgastada pelo avançar dos anos, que todos os dias, sentada na calçada ao lado de dois dos seus 10 filhos, ajuda a construir a paisagem fria dos que passam com pressa, que quase tropeçam, que dão esmolas ou simplesmente desviam.
O indiozinho é Bruno, ou, no tupi-guarani, Uriorrô. Ao lado de Letícia - Oyupapa -, os dois, ele de sete, ela de oito anos, são os últimos que acompanham a mãe na peregrinação diária, e os que mais sofreram com a in-fluência da cultura ocidental. Indiferentes ao vai-e-vem na calçada, eles se distraem com carrinhos de plástico. Nascidos para os ruídos da modernidade, para o barulho dos motores e para as luzes da televisão, eles, provavelmente, contemplarão as crenças, o arco, a flecha, o cheiro da terra úmida, do orvalho e o perfume das açucenas como meros elementos de um passado distante. Algo que seus antepassados faziam num tempo anterior à televisão.
Os três moram na região de Balneário Barra do Sul. Embora próximos, estão isolados de aldeias como a do cacique Felix, que fica às margens da rodovia SC 280, em Araquari. Os índios da aldeia de Felix percorrem mais de 30 quilômetros para comercializar o artesanato produzido. Composta por cinco casas, um posto de saúde, uma escola e uma televisão, a área cedida aos índios é de solo arenoso, pouco produtivo e bastante afastada - o único acesso beira ao intransitável. Algo que dificulta a visita dos agentes da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que atendem a comunidade, mas não impede o degradante estágio de urbanização dos índios.

As versões

O missionário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Clovis Antonio Brighinti acompanha com preocupação o avanço da "urbanização" das comunidades indígenas: "São os índios mais velhos que sentem mais a degradação cultural. Essa é uma questão preocupante. A televisão, principalmente, é um conflito nas aldeias. Antes, as noites eram dedicadas aos rituais da tribo. Agora, os jovens preferem as novelas".
Inquietante para alguns, a opção pelos costumes do homem branco, no caso da Fundação Nacional do Índio (Funai), é vista como uma evolução natural. Ao menos é o que argumenta Glênio da Costa Álvares, responsável pela sede da Funai em Curitiba. "Não é questão de urbanização", diz ele, acerca dos costumes indígenas. "Claro que eles têm alguns hábitos iguais aos nossos, toda cultura tem a sua evolução. Mas os Guarani mantêm a sua língua, a sua música, as suas rezas e falam o português", finaliza.
Bem menos natural, padre Dúlcio de Araújo, ardo-roso defensor dos povos indígenas durante a Campanha da Fraternidade de 2002, vê com tristeza o fim da cultura dos índios: "É uma influência sem controle. Eles usam celular e óculos escuros. Ficamos indignados porque estão perdendo suas raízes. Mas, isso acontece com todo mundo. É uma influência da sociedade consumista neoliberal. Se entramos nessa onda - do consumismo -, por que eles não entrariam?"
Ao todo, segundo a Funai, 53 famílias de índios Guarani estão espalhadas pelas regiões próximas a Joinville. Todas passam pelo mesmo problema: o atraso na demarcação das terras destinadas à reserva. Desde 1998, o processo se arrasta pela burocracia da Funai. O estudo antropológico - que constata se a área foi originalmente ocupada pelos índios - já está finalizado. Falta a verificação fundiária que identifica e mapeia os ocupantes não indígenas residentes na região da futura reserva.
Ainda segundo o missionário do Cimi, a solução para o problema cultural está na terra: "O desafio principal imposto para esses índios e para a sociedade é garantir condições para que continuem vivendo na sua cultura e no seu modo de ser. Para isso, o território tem um papel fundamental". Conforme Brighinti, a lentidão das políticas da Funai com relação aos povos Guarani e o despreparo contribuem para a deterioração: "A morosidade da Funai, que está sempre sujeita às interferências político-partidárias e, no caso do Guarani, até a falta de compreensão específica do que é este povo, ajudam a aumentar a dificuldade de compreensão da cultura indígena".
Para exemplificar suas críticas, o missionário cita o caso da educação nas aldeias Guarani. "A escola, que deveria funcionar como um centro de revitalização da cultura, até ensina a língua e a história indígenas, mas toda ela está constituída na nossa forma de idealizar o ensino". Brighinti refere-se às carteiras escolares, à fixação de horários e à própria estrutura física das escolas. Para ele, não é dessa forma - como alunos de uma escola qualquer - que os Guarani retomarão sua cultura: "A educação precisa de espaço. Ela deve acontecer no dia a dia, no acompanhamento com os pais, no aprendizado com os mais idosos, no contato com a mata. Não num colégio. E é essa compreensão que falta para a Funai".

Saúde indígena

A Fundação Nacional de Saúde (Funasa) é a responsável pela saúde indígena. Como quase tudo no país, a assistência aos povos indígenas é terceirizada. Na portaria n° 70, de 20 de janeiro de 2004, o Ministério da Saúde delega, clara-mente, à Funasa "a responsabilidade pelas ações de saúde indígena, reforçando o que preconiza a Constituição Federal, a Lei 8.080 (Lei Orgânica de Saúde) e a Lei Sérgio Arouca, que instituiu, em 1999, o Subsistema de Saúde Indígena".
A Fundação abdica do seu dever e delega à ONG Rondonistas de Santa Catarina, por meio de convênio, a missão de acompanhar a saúde de mais de 38 mil índios das etnias Krenak, Te-rena, Xokleng, Xeta, Guarani e Kaingang que vivem nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Na região norte do estado eles estão instalados em Araquari. Com uma equipe de 20 integrantes - entre médicos, enfermeiros, dentistas, auxiliares de enfermagem, agentes indígenas de saúde e saneamento -, eles tentam conter a desnutrição entre as crianças e a falta de orientação entre os adultos. Cerca de 360 índios, distribuídos em nove aldeias, são atendidos pelo grupo.
Como admite a médica da equipe Rondonista, Scharon Rosa, o problema da terceirização é a rotatividade de agentes no acompanhamento das tribos. Todos os trabalhos com os Guarani carecem de aprofundamento, algo que só acontece com o tempo de trabalho. O dilema dos Guarani de Araquari é o retrato do que ocorre no restante do país. Só em 2004, segundo informações do jornal Folha de S. Paulo, a Funasa gastou R$ 30 milhões a menos do que foi disposto para "Atenção à Saúde dos Povos Indígenas". De acordo com o jornal, de uma dotação de R$ 161 milhões, foram pagos cerca de R$ 132 milhões, 82,13% do previsto.
Além da precariedade na saúde - responsável pelo obsceno aumento na mortalidade infantil indígena -, os conflitos culturais e a ineficiência das políticas públicas (ou a ausência delas) nas esferas, municipal, estadual e federal, também contribuem para a degradação dos povos indígenas. Casos de verdadeiros extermínios de índios, na briga pela terra, amontoam-se pelos jornais.
Para se ter uma idéia, na Funai, em Brasília, antes de encontrar alguém que pudesse falar sobre o tema da matéria, a reportagem do Primeira Pauta teve que passar por nove transferências de ligação. A cada "isso não é comigo, vou transferir para fulano", o avanço da desorganização era afirmado - talvez por isso, somente em Curitiba um representante da Fundação Nacional do Índio tenha conseguido falar do assunto. Entretanto, a realidade do momento não comporta mais palavras. Os povos indígenas estão perdidos num vácuo social chamado degradação cultural. Eles pedem ajuda.