Portal IMPRENSA republica perfil de José Mindlin publicado pela revista IMPRENSA

Portal IMPRENSA republica perfil de José Mindlin publicado pela revista IMPRENSA

Atualizado em 01/03/2010 às 13:03, por Redação Portal IMPRENSA.

Morreu, no último domingo (28/02), aos 95 anos, o empresário e bibliófilo José Mindlin, após um mês de internação no Hospital Albert Einstein.
Membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número 29, Mindlin doou todo seu acervo de livros para a a Universidade de São Paulo (USP), na criação da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.
A revista IMPRENSA publicou um perfil, resultado de uma de suas últimas entrevistas concedidas pelo bibliófilo. Leia, abaixo, a íntegra da matéria.

Revista IMPRENSA
HISTÓRIA ENTRE HISTÓRIAS
PRESTES A TRANSFERIR SUA COLEÇÃO BRASILIANA À USP, JOSÉ MINDLIN REVÊ SUA TRAJETÓRIA DE JOVEM REPÓRTER DO ESTADÃO ATÉ SE TORNAR UM DOS MAIORES BIBLIÓFILOS BRASILEIROS
POR IGOR RIBEIRO EDITOR-EXECUTIVO

Para os amantes de livros e literatura, visitar a casa de José Mindlin é como entrar num templo. Cruzar o portão e atravessar o jardim já cria uma atmosfera de paz e encantamento, já dá vontade de ler. Antes mesmo de experimentar o silêncio da biblioteca ou de falar com o próprio Mindlin, um clima de devoção ao livro está no ar.
Esse ambiente é o resultado da história de José Ephim Mindlin, personalidade que experimentou carreiras como jornalista, advogado e empresário, mas ficou famoso como bibliófilo. Seu fascínio pelos livros surgiu em 1927, aos 13 anos, quando adquiriu "Discurso sobre a história universal", uma edição de 1740 da obra de Jacques- Bénigne Bossuet. A partir de então, tornou-se um dos maiores colecionadores do país, especialmente pelo acervo de obras brasileiras, a Brasiliana - mais de 40 mil volumes (20 mil títulos) que foram doados em 2005 para a Universidade de São Paulo (USP) e configuram uma das mais importantes coleção do gênero no mundo. "Eu e Guita formamos um acervo razoável de obras raras", comenta Mindlin, sempre com modéstia e lembrando carinhosamente da mulher, falecida em 2006. "Somos depositários e não proprietários desta biblioteca, que é um bem público", diz. A USP trabalha para concluir o prédio até o fim deste 2009. O investimento supera os R$ 30 milhões, incluindo um scaner robótico para digitalização do acervo.
Adolfo Vargas/Revista IMPRENSA
José Mindlin

Quem recebe a equipe da revista IMPRENSA é a bibliotecária Cristina Antunes, pernambucana formada em pedagogia e braço-direito de Mindlin há quase 30 anos. Apesar de profunda conhecedora do acervo, Cristina diz se surpreender diariamente na biblioteca, redescobrindo curiosidades, histórias e autores. "São tantos anos, mas ainda é uma responsabilidade apaixonante", relata a profissional que cuida da organização, digitalização e transição do acervo para a USP, com o qual seguirá trabalhando.
Cristina selecionou as obras relacionadas à imprensa e comunicação que a reportagem folheou antes de conversar com Mindlin - ele estava, naquele momento, na primeira das duas seções diárias de "audição literária". "Estou com um problema que eu classifico de injustiça da sorte, um problema de visão", explicou depois. "Eu era um leitor inveterado, dois a quatro livros por semana, e agora tenho que ouvir uma leitura em voz alta, pois não posso mais ler". Na ocasião, o bibliófilo revisitava pela quinta ou sexta vez "Em Busca do tempo perdido", de Marcel Proust. "Temos que aceitar a vida como ela é e não como gostaríamos que fosse."
JORNALISMO DE GUERRA
O pequeno prédio modernista construído para receber parte da biblioteca fica nos fundos da ampla casa onde Mindlin reside, numa arborizada rua da zona sul paulistana. Um subnível e um mezanino formam a nave principal, onde se enfileiram milhares de obras, centenas de raridades e dezenas de esterilizadores. Nas poucas paredes livres de prateleiras despontam quadros e gravuras, dentre os quais o projeto da própria biblioteca, emoldurado e presenteado a Mindlin por Guita "como prova de muito amor", segundo o texto em forma de diploma.
Enquanto aguarda por Mindlin, IMPRENSA folheia e fotografa preciosidades, como um original do decreto de instauração no Brasil da Imprensa Régia, de 1808, assinado pelo príncipe regente Dom João IV. Cristina auxilia, com cuidado milimétrico, o posicionamento dos livros para a foto e a busca por mais obras e informações.Conta com carinho o modo como começou a trabalhar com Mindlin, quando, numa entrevista,só respondia negativamente às perguntas técnicas do advogado, afinal nunca havia estudado ou trabalhado como bibliotecária. Só quando questionou se ela gostava de livros, a resposta foi bem assertiva: "Ah, sim! Isso eu adoro!" Cristina mesma possui uma biblioteca que toma seu apartamento por completo. "Daqui a pouco, vou ter que por prateleira no teto", brinca.
Mindlin espera pela entrevista na sala de sua casa, também tomada por livros e por Chopin em alto volume. "Música e leitura sempre foram presentes na minha casa. É uma herança de família", conta. Pai e mãe eram judeus de Odessa, Rússia, e apaixonados por artes. Foram cúmplices do filho em seu início de coleção, relata o bibliófilo em "No Mundo dos livros", obra lançada recentemente pela editora Agir, dedicada a atrair os jovens para a leitura. Mindlin relembra, por exemplo, que o pai lhe deu o capital para iniciar sua garimpagem pelos sebos paulistanos. Como nem sempre havia traduções em português, Mindlin comprava desde cedo muitas obras em francês, que também era ensinado nas escolas brasileiras. A fome de leitura fez o jovem procurar por outros idiomas, e assim também passou a comprar e ler edições originais em inglês e espanhol.
O conhecimento de diferentes línguas fez Mindlin destacar-se, ainda adolescente, no universo do jornalismo. Em 1932, com 18 anos, foi enviado do jornal O Estado de S. Paulo a Itapetininga, um dos focos da Revolução Constitucionalista. "Mandava textos para o Estadão ou telefonando, ou por telegramas, e também fiz trabalho de comunicação como revolucionário". Muitas vezes, transmitia mensagens em outros idiomas a soldados do Rio de Janeiro para enganar eventuais censores do governo que só falassem português. "Foi um período de vibração política que a gente não esquece. Seria um pouco pretensioso me classificar de correspondente de guerra, mas tive uma experiência prática do esforço que foi feito", afirma Mindlin.
Tinha apenas 15 anos quando começou no jornal. "Eu havia cumprido o regime especial do ginásio, mas ainda não tinha idade para entrar na faculdade", recorda Mindlin, que pediu algum trabalho ao pai. Certo dia, o senhor Ephim anunciou que tinha conseguido uma vaga como ajudante de fruteiro no mercado municipal. "Não era exatamente o que eu queria, mas como havia pedido qualquer coisa, não reclamei", lembra. Era uma pegadinha: o pai era amigo de Nestor Rangel Pestana, então diretor de redação do Estadão, a quem indicou o filho como redator.
Em 1932 também ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde conheceu Guita, e passou a dedicar-se com mais ênfase à advocacia e à biblioteca. A leitura era constante, em todos os lugares possíveis. Em "No Mundo dos livros", Mindlin confidencia um hábito, cultivado durante as aulas de direito menos empolgantes: "muitas vezes me sentava no fundo da sala, enquanto os professores liam monotonamente suas preleções, para aproveitar o tempo lendo grandes obras da literatura universal."
CRIADORES E CRIATURAS
A vida de Mindlin parece entrecortada por casualidades, situações que se sucedem de modo natural e às vezes trazem grandes eventos fortuitamente. Assim foi, por exemplo, o nascimento da Metal Leve. O advogado fora chamado por clientes para redigir, em 1950, um contrato de sociedade com a Mahle, uma fabricante alemã de pistões, mas desistiram do negócio. Mindlin viu ali uma grande oportunidade que tomou para si, com o apoio de quatro amigos empreendedores.
Ali começava a Metal Leve, companhia que chegou a empregar mais de 6 mil pessoas em condições exemplares e arrancou elogios do presidente Lula quando ainda era líder sindical. A empresa participou ativamente do crescimento do país durante o "milagre econômico" do regime militar, sem nunca ter cedido às pressões do governo com "doações" financeiras, tão comuns entre a indústria Automobilística de então. A partir do Plano Real, em 1994, a moeda se valorizou acima do câmbio e atrapalhou as exportações da empresa. Para não amargar mais prejuízo, Mindlin vendeu sua parte em 1996, o que considerou um fim "triste, mas racionalmente necessário".
Todas essas passagens, incluindo sua eleição à cadeira 29 da Academia Brasileira de Letras em 2006, são pontuadas por episódios curiosos sobre as obras raras de sua coleção. Como sua caçada pela primeira edição de "O Guarani" (1857), de José de Alencar. Ficou famosa a história de que, depois de muitas reviravoltas, Mindlin finalmente conseguiu arrematar a obra num leilão em Paris, em 1977. Na volta, cochilou durante o vôo e o livro caiu no chão do avião, do que não se apercebeu quando acordou. A Air France só encontrou o livro três dias depois, são e salvo, em Buenos Aires. Em 1997 foi avisado por um colega uruguaio acerca de documentos sobre a Província Cisplatina que estaria interessado em vender. Viajou a Montevidéu sem prever um grande lote de arquivos, mas teve que pegar emprestado duas malas do embaixador brasileiro para trazer os 96 quilos de papéis para o Brasil.
Boa parte dessas histórias já começam a falhar na memória de Mindlin. "Há um departamento de nomes próprios do meu cérebro que está avariado", brinca ele. Entre os casos inesquecíveis está a desenfreada busca pelo "Sonho de Poliphilo", obra escrita pelo monge Francesco Colonna cuja primeira edição, de 1499, foi impressa em Veneza. "Eu o persegui durante quase 30 anos, mas era sempre um livro de preço superior às minhas posses. Sempre que eu resolvia comprar a obra, o preço subia outra vez. Certa vez concluí que mais valia a pena ter o livro do que conservar o dinheiro", conta Mindlin, ressaltando a importância gráfica da obra que, segundo o bibliófilo, hoje seria aceita como uma boa edição moderna. "O dinheiro volta, mas um livro como este muitas vezes não se consegue encontrar de novo", destaca.
Muitas dessas histórias são resgatadas pelo envolvimento direto que Mindlin teve com alguns escritores - a Brasiliana possui diversos originais de autores brasileiros. Mindlin mostra, por exemplo, as páginas datilografadas de "Perto do coração selvagem", de Clarice Lispector: folhas escritas à perfeição, quase sem emendas e, portanto, muito próximas do que foi de fato o livro impresso. "Conheci Clarice Lispector em 1950, em Washington, onde ela, eu acho, trabalhava na embaixada. Era mais moça que eu",recorda. Ao contrário de Clarice, Guimarães
Rosa rabiscava bastante seus originais, até minutos antes de ir à impressão. É o caso de "Grande Sertão: Veredas", que também está na biblioteca. "Nos conhecemos em Paris, 1946, ele era muito elegante, sempre usava uma gravata borboleta. Ficamos muito amigos, mesmo eu sem saber que ele era escritor", lembra José Mindlin, bem-humorado e desatento quanto à próxima seção de leitura de Proust, prestes a começar.
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