“Por que estamos em guerra?”, por Flavio Ferrari

Uma organização não-governamental denominada “The Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED)”, sediada em Wiscosin (EUA) e financiada por Complex Risk Analytics Fund (CRAF’d), Dutch Ministry of Foreign Affairs, e Tableau Foundation, registra e analisa dados sobre conflitos armados em todo o mundo.

Atualizado em 10/10/2023 às 12:10, por Flavio Ferrari.

“The Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED)”, sediada em Wiscosin (EUA) e financiada por Complex Risk Analytics Fund (CRAF’d), Dutch Ministry of Foreign Affairs, e Tableau Foundation, registra e analisa dados sobre conflitos armados em todo o mundo.


Em , uma interface gráfica permite selecionar a natureza do acontecimento e os atores, informando a quantidade de eventos e fatalidades. Selecionando apenas os conflitos envolvendo forças militares estatais nos últimos 12 meses, o mapa indica eventos em mais da metade do planeta, resultando em 60 mil mortes, com um crescimento significativo (15,9%) no número de fatalidades nas últimas 4 semanas em relação a igual período do ano anterior.


Se considerarmos todos os tipos de eventos monitorados, o número de fatalidades ultrapassa a casa dos 140 mil e praticamente nenhum país fica ileso.


No Brasil, onde acontecem perto de 50 mil mortes violentas (homicídios) por ano, talvez esses números não impressionem. Aliás, não apenas por aqui. O último relatório que vi publicado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), com estatísticas referentes a 2017, indica que o número de homicídios no mundo é 5 vezes maior do que o número de mortos em conflitos armados.


Crédito:Reprodução


Segundo os historiadores, o mundo sempre esteve envolvido em conflitos, e a paz é uma exceção.

A Pax Romana, um período de relativa tranquilidade no império que durou mais de 200 anos (27 a.C. a 180 d.C.) é apontada como uma dessas exceções. Foi construída a partir da estratégia desenhada pelo Imperador Otávio Augusto, a partir de 3 pilares: desenvolvimento econômico, imposição cultural e intimidação militar. A morte do Imperador Marco Aurélio é indicada como um marco do final desse período de estabilidade e o início do declínio do Império Romano com a transformação da Ordem Global. Essa transformação não foi pacífica.


O Ocidente moderno parece viver um cenário semelhante nos últimos 80 anos, a partir do final da segunda grande guerra e, sobre isso, vale a pena ler “A Decadência do Ocidente” (Spengler, 2013). Mas há um outro fator relevante, além da reestruturação da Ordem Global em curso, apontado no World Economic Forum de 2023: a erosão da coesão social.


Sociedades fragmentadas e polarizadas são vítimas fáceis de interesses políticos e econômicos. “Divide et impera”, já dizia Julio César.


Somando a esses dois fatores a descrédito das autoridades institucionais (sociais e políticas), temos o cenário perfeito para o fomento de conflitos graves e o fortalecimento de forças políticas autoritárias capazes de reestabelecer a “ordem”.


Claro que cada conflito tem suas razões intrínsecas, com justificativas de parte a parte. Mas é importante perceber que o espírito do nosso tempo alimenta conflitos e não estimula conciliações.


A paz pode resultar da conciliação de interesses ou da imposição pela força e, em ambos os casos, é trabalhosa e efêmera. Num período histórico onde o individualismo anda exacerbado, fica mais difícil conciliar os interesses e renovar os contratos sociais. Talvez essa seja uma boa resposta para a pergunta do título.


Crédito:Arquivo Pessoal

* é Professor na ESPM e Sócio da SocialData