Por que dói tanto a crítica dos gringos?, por Anderson Gurgel

A exposição internacional do Brasil com a Copa reativa o debate sobre como deve ser a nossa reação às reclamações vindas de outros.

Atualizado em 12/05/2014 às 18:05, por Anderson Gurgel e  de São Paulo.

A exposição internacional do Brasil com a Copa do Mundo reativa o debate sobre como deve ser a nossa reação às reclamações vindas de outros povos e culturas e, também, sobre como elas podem nos ajudar a melhorar o nosso país.

Do ponto de vista da gestão e do marketing esportivo a Copa do Mundo de 2014, a ser realizada no Brasil, configura-se com um enorme problema, mas em outras frentes esse fato – esportivo, social e jornalístico – mostra-se como um objeto fascinante e que, acreditem, pode até deixar algum legado para o nosso país. Se não econômico, talvez cultural.

Há algum tempo venho falando desse assunto nesta coluna e dois episódios recentes contribuem para esta reflexão. O mais atual é a fala de Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, que, em entrevista no dia 09 de maio, na Suíça, disse que os turistas que pretendem estar no Brasil durante a Copa do Mundo devem tomar muito cuidado.

A frase lapidar do cartola da Fifa gira em torno da ideia de que “o Brasil não é a Alemanha”. A afirmação, feita num contexto de comparação entre o nosso país e o aquele que foi a sede da Copa de 2006, tenta fundamentar a ideia de que os turistas terão muito mais dificuldades aqui que lá.

A fala, como sempre acontece quando “gringos” fazem críticas ao nosso país, gerou enorme polêmica entre os brasileiros. O episódio não é isolado. De tempos em tempos fatos como esse acontecem e, com a organização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil, passaram a ser mais comuns ultimamente.

Outro caso recente foi o do jornalista dinamarquês Mikkel Jensen. Segundo o que se sabe do caso, o jovem profissional, de 27 anos, estava no Brasil para acompanhar a Copa do Mundo e fazer reportagens, mas voltou ao seu país depois de presenciar as mazelas sociais de Fortaleza. Entre os motivos de choque, para eles, estavam a violência e a miséria da capital do Ceará.

Seu artigo, divulgado após a sua volta à Dinamarca, em abril deste ano, ganhou o noticiário e muitos brasileiros replicaram sua mensagem pelas redes sociais. No geral, ao compartilhar o texto, esses comentavam sobre a vergonha que o Brasil estava passando e etecetera e tal.

O que faz com que as falas de Valcke e de Jensen “doam” tanto nos nossos ouvidos “brazucas”? A maior credencial dos dois para falar de nossas mazelas sociais é o fato de eles serem “gringos”. Temos, no Brasil, muitos especialistas há anos apontando problemas que precisamos solucionar e nada acontece - nem na melhoria dos casos e, muito menos, no furor popular com essas críticas.

Por isso, não se pode negar, que, nós, brasileiros, temos muita dificuldade para aceitar críticas feitas de outras pessoas que não sejam do nosso país. Sim, o Brasil não é Alemanha nem do ponto de vista territorial, nem cultural, nem social e, muito menos, econômico.

Mas isso não é novidade. Quando a Fifa e os políticos brasileiros decidiram por trazer a Copa do Mundo para cá já estávamos como estamos hoje. Tragicamente, o discurso de geração de legado material não se concretizou e, por isso, defendo que talvez o que vai ficar disso tudo é algum legado imaterial.

Ou seja, talvez contribua para que melhoremos enquanto nação, culturalmente falando. Se quisermos chamar atenção do mundo, teremos que aprender a lidar com os dois lados dessa visibilidade. Como uma nação jovem, o Brasil também precisa amadurecer.

No fim, o que me parece relevante é que ainda estamos impregnados do tal “complexo de vira-latas”, diagnosticado por Nelson Rodrigues e, por isso, somos tão suscetíveis às opiniões de estrangeiros.

O Brasil errou e continua errando em diversos pontos tanto na organização da Copa do Mundo como na preparação para as Olimpíadas de 2016. Isso é um fato, uma realidade. No entanto, isso não faz do Brasil a pior nação do mundo, mas sim mais uma nação, como todas as demais, com problemas internos a resolver. Ou alguém duvida que, na configuração atual dos megaeventos esportivos e do mundo globalizado, é fácil para alguém realizar uma atividade dessas?

Em sua coluna na “Folha de S.Paulo” de 11 de maio deste ano, o jornalista Juca Kfouri, defende que a Copa do Mundo está contribuindo para a evolução do nosso país. Segundo ele, a percepção de que esses megaeventos são bons para quem os realiza e ruim para os povos que os sedia é algo positivo e que isso pode levar o Brasil a adotar algum tipo de plebiscito para futuras empreitadas como as do Mundial de 2014 e do Rio 2016.

A meu ver, o que Kfouri pontua é um pouco do acreditamos e defendemos aqui: Enquanto ficarmos nos horrizando pelo fato de algum gringo ter “falado mal de nós”, nada mudará. Não somos a Alemanha e nem deveremos ser. Devemos almejar ser um Brasil melhor e em constante evolução. E que venha para cá, nos visitar ou morar, quem possa colaborar para melhorarmos. Ou, no mínimo, quem nos aceite como somos.

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