Por que as Salas de Imprensa da Web não funcionam?

Por que as Salas de Imprensa da Web não funcionam?

Atualizado em 20/05/2008 às 12:05, por Wilson da Costa Bueno.

Como diz o caboclo, vamos começar do início, definindo o que se entende por Sala de Imprensa. Você já ouviu falar nela, não é mesmo?

Pois é, a Sala de Imprensa se constitui num espaço específico, destinado ao atendimento dos profissionais de imprensa. Ela pode estar inserida nas próprias organizações (empresas, federações, entidades em geral) mas também em hotéis, locais de eventos etc. Ela deve obedecer a certas particularidades porque, se usadas em coletivas, deve dispor de espaço suficiente para receber com conforto os "coleguinhas", instalações adequadas para os que atuam, por exemplo na TV e, hoje em dia, estar provida de computadores e banda larga porque a produção da notícia é cada vez mais instantânea. As matérias já não são feitas apenas nas redações mas, muitas vezes, fora dela e a Sala de Imprensa pode bem ser esse lugar.

A Sala de Imprensa na Web também se constitui num espaço privativo e adequado para os jornalistas, mas incorpora outras singularidades e atributos. Deve estar facilmente identificável no site da organização (há Salas de Imprensa que se escondem tanto que nem o mapa do site revela seu paradeiro!), caracterizar-se por uma excelente navegabilidade, e, principalmente, (e aí está o segredo do sucesso) estar em sintonia com o sistema de produção, as expectativas, as demandas, a cultura e o "timing" do jornalista.

Parece fácil, mas não é; pelo contrário, no caso brasileiro, está longe de ser. As nossas Salas de Imprensa verde-amarelas parecem ter sido concebidas por pessoas que subestimam a inteligência dos jornalistas, que não sabem do que ele gosta e precisa e, portanto, são, por princípio, obsoletas, apesar de sua pretensa virtualidade (o que é visto sempre como sinônimo de modernismo).

Os equívocos começam quando se define uma Sala de Imprensa como um depósito desorganizado de releases, de fotos, arquivos de áudio e vídeo e nada mais. Eles continuam com a ausência de informações atualizadas e relevantes e terminam num processo precário de interação com os profissionais de imprensa. Isso mesmo: se um profissional se dispuser a utilizar a Sala de Imprensa na Web (e a rede é cada vez mais lugar de contato, de trabalho para os jornalistas), sofrerá bastante, se sentirá frustrado e, quase sempre, dará dois cliques a mais e procurará outro sítio mais aprazível e competente.

A Sala de Imprensa não pode ser construída como um espaço meramente burocrático (um "Fale Conosco" como qualquer outro), apenas para "fazer figura" porque, quando isso acontece, deixa a organização com a "cara feia na foto". A empresa ou entidade que mantém uma Sala de Imprensa deve partir do pressuposto de que o jornalista que a procura necessita de informações, muitas informações, e que, quando recorre a ela, está definitivamente correndo atrás do tempo. Logo, a resposta deve ser rápida porque o profissional de imprensa, em especial quando inserido no ambiente on line, está acelerado ao extremo e, nestas situações, pressionado brutalmente pelo estresse da busca da informação.

Mais ainda: o jornalista se incomoda ao perceber que a Sala de Imprensa não passa de um "show-room", repleto de imagens e textos propagandísticos, um discurso que está anos-luz distante da sua perspectiva, sempre respaldada em informações e dados com elevado grau de noticiabilidade. Algumas Salas de Imprensa (cheque só para você ver) parecem folders institucionais, daqueles que se distribuem quando as organizações completam datas comemorativas, repletos de textos grandiloqüentes ("nós somos líderes em nossa área de atuação", "nossa história é a garantia de nosso futuro grandioso"), quando não suspeitíssimos ("somos socialmente responsáveis", "nossa gestão ambiental é de excelência") e assim vai, numa ladainha tediosa que chega a causar enjôo.

As Salas de Imprensa precisam conversar com os jornalistas, favorecer efetivamente a produção de matérias, ser um espaço de diálogo produtivo e não apenas uma burocrática e fria sala de estar. O profissional que recorre a uma Sala de Imprensa na web não está, necessariamente, cogitando de um bate-papo, não está buscando jogar conversa fora, mas disposto a encontrar subsídios para o seu trabalho. Não se toma cafezinho na web (embora até fosse interessante esta proposta, mas a maioria das Salas de Imprensa é absolutamente requentada para isso!), ninguém está querendo "conversar com o Gordo" ou fofocar com a tiazona Hebe Camargo. Sala de Imprensa na web é lugar de trabalho e trabalho de jornalista (você sabe disso) é para as primeiras horas de ontem.

As organizações precisam dar maior atenção à sua Sala de Imprensa (muitas delas ainda nem cogitaram criar esse espaço e talvez seja melhor mesmo não tê-lo, se é para desperdiçá-lo com baboseiras), buscando entender como se comporta o jornalista, em especial o jornalista que navega na web.

As Salas de Imprensa brasileiras pecam por erro de concepção, são improvisadas, não cumprem o seu papel. Muitas não permitem ou não estimulam o contato direto com as assessorias. Muitas delas nem trazem identificados os nomes e os telefones dos assessores de imprensa ou das agências que respondem pelo relacionamento com a mídia, como se estivessem burocraticamente afastando os jornalistas de seu convívio, dando um "chega pra lá" na imprensa. Algumas geram respostas automáticas (há algo mais dinossáurico no universo da web?), exigem o preenchimento de cadastros burros ou incluem apenas aqueles e-mails idiotas: redação@ ou assessoria@. Afinal de contas, do outro lado da Sala de Imprensa existe alguém com nome ou sobrenome ou não?

Na prática, essa situação causa estranheza (bota estranheza nisso!) porque temos avançado muito no processo de interação com os jornalistas e há agências/assessorias saindo pelo ladrão, algumas delas absolutamente competentes. Logo, está na hora de arrumar a casa, refinar o conceito (a pergunta básica é: qual o objetivo de uma Sala de Imprensa?) e arregaçar as mangas. As Salas de Imprensa precisam funcionar e bem. Na sociedade digital, elas podem constituir-se em um diferencial competitivo e agregar valor ao negócio (você já ouviu esta história, não é mesmo?).

Em tempo: a jornalista Ana Paula de Oliveira defendeu este mês ( maio de 2008) sua dissertação de mestrado na UMESP - Universidade Metodista de São Paulo sobre Salas de Imprensa, tendo analisado particularmente este espaços em seis universidades paulistas. Um belo trabalho, que pode ser consultado com proveito por jornalistas, assessores de imprensa e executivos de comunicação. O que ela concluiu? Que, mesmo nos centros produtores de informações e conhecimentos (as nossas universidades são assim, certo?), as salas de imprensa traem a sua função, constituindo-se em espaços burocráticos, pouco dinâmicos, meramente reativos (a pró-atividade é a norma ou não é?), distantes da realidade jornalística. Embora um ou outro aspecto possa ser ressaltado (pelo menos algumas universidades têm notícias para divulgar!), estamos longe, muito longe do ideal. Será que é tão difícil fazer a coisa certa? De novo, o provérbio: quem não tem competência, não devia se estabelecer. Estamos fartos de coisas que foram feitas para não funcionar.