População carcerária ganha voz com revista inédita produzida por detentos em MG
No Brasil, o número de detentos atinge a marca de 711.463, segundo o último levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Mas, para mostrar que os que compõem o sistema prisional no País são mais do que números e estatísticas, a jornalista Natália Martino, o fotógrafo Léo Drumond e designer Gabriel Reis se uniram para criar o Projeto Voz.
Crédito:Divulgação Revista digital foi produzida por 19 detentos da Associação de Proteção ao Condenado de Itaúnas (MG)
Por meio de oficinas de texto, imagens e vídeos, a iniciativa tem objetivo de ensinar a população carcerária sobre novas possibilidades e ferramentas para contar suas próprias histórias. O projeto piloto aconteceu de 24 de outubro a 4 de novembro na Associação de Proteção ao Condenado (Apac), da cidade de Itaúna, em Minas Gerais.
No período, os profissionais estiveram em tempo integral com os detentos, em um curso intensivo sobre conceitos e técnicas de jornalismo. Como resultado, os 19 alunos lançam na próxima quinta-feira (13/11) a primeira edição da revista A Estrela , produzida 100% pelos presos.
“A gente orientou, direcionou o olhar, mas toda a produção do material é deles. Ajustamos apenas alguns erros gramaticais, mas preservamos a linguagem. Tanto que os textos são coloquiais, com algumas gírias. A revista serve como uma forma de expressão para quem vive na cadeia, então, mantivemos suas características”, explica Natália.
Bastidores
A revista de 32 páginas reúne um mix de reportagens mais leves e densas, com ensaios fotográficos propostos pelos próprios detentos. Em uma delas são apresentadas diversas tatuagens dos presos, além das histórias por trás delas. O texto conta ainda os detalhes de como improvisar tinta dentro da cadeia, e também explora a simbologia das expressões corporais.
“A princípio, a gente tinha pensado em tentar levá-los para fora do presídio para fotografar, mas como isso dependeria de uma autorização judicial, que não é uma coisa rápida, trabalhamos apenas com o universo das celas e foi muito produtivo”, explica Drumond.
Crédito:Divulgação Os alunos tiveram aula de texto, vídeo e fotografia ao longo de uma semanaEm outra pauta sobre variedades, os alunos fotografaram itens do cotidiano, como pão, colher, agulha, vaso sanitário, entre outros, e contam como esses itens são chamados. “Marroco”, “guela”, “aranha” e “boi” são apenas alguns dos termos que passam a ser conhecidos na matéria.
Na categoria de matérias mais densas, destaque para uma entrevista exclusiva com o juiz capixaba Marcelo Loureiro, que esteve na unidade prisional de Itaúna e topou conversar com os alunos. O magistrado falou sobre rebeliões nos sistemas prisionais, corrupção e privilégios para políticos acusados de crimes. “Algumas pessoas veem o preso como inimigo do Estado e a ele é reservado um tratamento que desconsidera o óbvio: essas pessoas vão retornar ao convívio social. E o tratamento dado a uma pessoa gera sempre uma reação”, declarou.
Todo o conteúdo da revista digital, além de entrevistas em vídeos e um clipe exclusivo de um rap escrito pelos detentos podem ser encontrados no site projetovoz.com a partir do dia 13 de novembro. Na data, haverá ainda uma exposição na Apac de Itaúna com algumas fotos tiradas ao longo do workshop.
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