Plágio, para mim, é sinal de falta de caráter
Plágio, para mim, é sinal de falta de caráter
Atualizado em 11/08/2010 às 18:08, por
Silvia Dutra.
Eu adoro receber emails. Venham de amigos, parentes, leitores ou completos desconhecidos, não importa: pra mim é uma felicidade encontrar várias mensagens esperando pela minha atenção. Especialmente quando elas chegam recheadas de histórias, de fatos da vida de quem me escreve. Não espero grandes feitos, nem notícias surpreendentes. Fico contente com a amiga que compartilha comigo o novo emprego da filha, ou a promoção do marido, ou me confia um segredo, uma mágoa, uma tristeza. Encanta-me a autenticidade, o coração aberto, mesmo quando as notícias não são tão boas.
Agora se tem uma coisa que me irrita é receber mensagens - geralmente com teor otimista, ou com alguma lição de moral - que eu sei que não foram escritas por aqueles que aparecem como os autores. Duas coisas me irritam nesse tipo de email. A primeiro é o plágio às avessas, a apropriação indevida do nome de alguém famoso para dar substância a textos de qualidade duvidosa. Ou simplesmente bobos, sentimentalóides. Ou ainda carregados de ódio, intolerância, oitavas intenções.
E a segunda razão que me deixa danada é saber que algumas pessoas preferem me enviar esse tipo de lixo falsificado do que gastar cinco minutos e alguma energia mental para escrever algumas linhas originais, com notícias pessoais, que me fariam muito mais feliz.
Hoje mesmo recebi um texto atribuído ao Carlos Drummond de Andrade que tenho certeza ele jamais escreveu. Era um conjunto de slides sobre uma mãe que toma inúmeras providências em benefício da casa e da família antes de ir se deitar enquanto o pai simplesmente anuncia que está com sono e vai direto pra cama. Aposto que você também já recebeu emails do mesmo tipo, com textos atribuídos à Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo, Mário Quintana, João Ubaldo Ribeiro, Gabriel Garcia Marques e tantos outros autores. Não respeitam ninguém. Recentemente, até mesmo a jornalista Marília Gabriela foi vítima de uma rasteira dessa natureza: circulou pela Internet um texto falsamente atribuído à ela com críticas à personalidades da política brasileira.
E posso estar enganada, mas me parece que esse tipo de plágio às avessas acontece com mais frequência aí no Brasil. Tenho alguns amigos americanos, mas nunca recebi deles mensagens com textos falsamente atribuídos à Hemingway, Steinbeck, Faulkner e outros grandes autores dos Estados Unidos. Talvez porque aqui todo mundo sabe que ser envolvido num processo judicial é coisa corriqueira e que pode sair muito caro.
Graças à minha mãe aprendi a ler com cinco anos de idade e nunca mais parei. Cresci frequentando livrarias e trabalhando -- ora voluntariamente ora como funcionária -- em várias bibliotecas no Brasil e nos Estados Unidos e tenho uma paixão incurável por livros. Acredito que tenho um certo conhecimento sobre livros e autores, especialmente os de boa qualidade. E por isso fico injuriada vendo autores que eu amo e respeito sendo vítimas desse tipo de desonestidade e leviandade, desse plágio ao contrário. E também do plágio convencional, do qual não escaparam até mesmo amigos meus, blogueiros de sucesso aí no Brasil, que tiveram posts inteiros copiados e reproduzidos sem qualquer crédito em outros blogs de menor relevância.
Plagiar é fenômeno antigo, mas com a Internet essa prática cresceu assustadoramente. E do mesmo jeito que a Internet facilita o plágio, também possibilita facilmente o descobrimento e a denúncia da enganação.
Nos Estados Unidos o assunto tem recebido atenção de pesquisadores assustados com a dimensão do problema nas escolas e universidades. "Agora nós temos uma geração inteira de estudantes que encaram a informação disponível na Internet como algo que está lá, que apareceu simplesmente, sem ter autor, e que pode ser usada por qualquer um" diz Teresa Fishman, uma das diretoras do Centro pela Integridade Acadêmica -- Center for Academic Integrity -- da Universidade de Clemson, na Carolina do Sul, em artigo publicado no jornal "The New York Times".
E para exemplificar as declarações de Teresa Fishmam, o mesmo artigo traz o caso de Helene Hegemann, uma adolescente de 17 anos que recentemente lançou um romance que em poucas semanas figurava entre os cinco mais vendidos na Alemanha. O livro, chamado Axolotl Roadkill, fala sobre as aventuras sexuais e as experimentações com drogas de uma garota orfã, de 16 anos, nos clubes noturnos de Berlim. Foi recebido pela crítica alemã com muito entusiasmo, não só pela expressividade do texto e suas sugestões autobiográficas,mas principalmente pela juventude da autora.
Tudo parecia maravilhoso até um blogueiro, Deef Pirmasens, descobrir e denunciar na Internet que Helene tinham retirado passagens inteiras de um outro livro sobre o mesmo tema. O livro plagiado se chama "Strobo" e seu autor utiliza o pseudônimo "Airen". A princípio a mídia alemã caiu matando sobre Helene. Isso até ela receber apoio declarado dos organizadores da Feira de Livros de Leipzig, que anunciaram que o livro dela era um dos finalistas na categoria de ficção para receber o prêmio de 20 mil dólares. E um dos responsáveis pelo evento confirmou que o comitê de jurados sabia sobre as acusações de plágio e mesmo assim incluiu o livro na competição literária.
Helene não levou o prêmio, mas tampouco se sentiu envergonhada pelas críticas. Pediu desculpas por não ter sido transparente na divulgação de suas fontes de inspiração, mas recusou o rótulo de plagiadora. Disse que faz parte de uma geração diferente, que cria algo novo misturando e combinando livremente peças de informação encontradas em novas e velhas mídias. "Não existe nada original, no final das contas", ela disse numa mensagem distribuída para a Imprensa pela editora que publicou o livro. E ficou tudo por isso mesmo.
Leio o artigo sobre essa alemã cínica e seus editores desavergonhados e não posso deixar de pensar na minha adorada Rachel de Queiroz, que na tenra idade de 18 anos publicou aquela maravilha que é "O Quinze". Quem não leu deve voar para a livraria mais próxima e acabar imediatamente com essa ignorância indesculpável. E penso no genial Tom Jobim, que criou com basicamente uma única nota aquele espetáculo que é o "Samba de Uma Nota Só", entre outros deleites. E Noel Rosa, que morreu aos 26 anos e nos deixou uma herança imensa de beleza e talento. E Chico, Cartola, Edu Lobo, Dias Gomes, Aguinaldo Silva, e tantos e tantos outros, famosos e anônimos, homens e mulheres que criam textos, músicas, peças de teatro, novelas, livros, blogs, artigos. E que utilizando todos o mesmo material -- qualquer idioma, as mesmas notas musicais -- conseguem sim criar coisas estupendas e originais.
Penso nisso tudo e não consigo deixar de concluir que esse mundo está mesmo revirado. Temos uma geração que cresceu com computadores. Jovens que entendem tudo sobre essas novas tecnologias, que navegam sem qualquer assombro ou problema pelas veredas virtuais. Entretanto, parece que muitos deles não conseguem entender que se apropriar das idéias e palavras dos outros é algo grave e vergonhoso. Demonstra preguiça mental, negligência, falta de fé no próprio potencial e inteligência. Além de desrespeito pela propriedade intelectual e falta de apreciação pela criatividade e originalidade daqueles que criam textos, sons e imagens. Falando o Português bem claro, demonstra uma grande falta de caráter, isso sim.
Agora se tem uma coisa que me irrita é receber mensagens - geralmente com teor otimista, ou com alguma lição de moral - que eu sei que não foram escritas por aqueles que aparecem como os autores. Duas coisas me irritam nesse tipo de email. A primeiro é o plágio às avessas, a apropriação indevida do nome de alguém famoso para dar substância a textos de qualidade duvidosa. Ou simplesmente bobos, sentimentalóides. Ou ainda carregados de ódio, intolerância, oitavas intenções.
E a segunda razão que me deixa danada é saber que algumas pessoas preferem me enviar esse tipo de lixo falsificado do que gastar cinco minutos e alguma energia mental para escrever algumas linhas originais, com notícias pessoais, que me fariam muito mais feliz.
Hoje mesmo recebi um texto atribuído ao Carlos Drummond de Andrade que tenho certeza ele jamais escreveu. Era um conjunto de slides sobre uma mãe que toma inúmeras providências em benefício da casa e da família antes de ir se deitar enquanto o pai simplesmente anuncia que está com sono e vai direto pra cama. Aposto que você também já recebeu emails do mesmo tipo, com textos atribuídos à Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo, Mário Quintana, João Ubaldo Ribeiro, Gabriel Garcia Marques e tantos outros autores. Não respeitam ninguém. Recentemente, até mesmo a jornalista Marília Gabriela foi vítima de uma rasteira dessa natureza: circulou pela Internet um texto falsamente atribuído à ela com críticas à personalidades da política brasileira.
E posso estar enganada, mas me parece que esse tipo de plágio às avessas acontece com mais frequência aí no Brasil. Tenho alguns amigos americanos, mas nunca recebi deles mensagens com textos falsamente atribuídos à Hemingway, Steinbeck, Faulkner e outros grandes autores dos Estados Unidos. Talvez porque aqui todo mundo sabe que ser envolvido num processo judicial é coisa corriqueira e que pode sair muito caro.
Graças à minha mãe aprendi a ler com cinco anos de idade e nunca mais parei. Cresci frequentando livrarias e trabalhando -- ora voluntariamente ora como funcionária -- em várias bibliotecas no Brasil e nos Estados Unidos e tenho uma paixão incurável por livros. Acredito que tenho um certo conhecimento sobre livros e autores, especialmente os de boa qualidade. E por isso fico injuriada vendo autores que eu amo e respeito sendo vítimas desse tipo de desonestidade e leviandade, desse plágio ao contrário. E também do plágio convencional, do qual não escaparam até mesmo amigos meus, blogueiros de sucesso aí no Brasil, que tiveram posts inteiros copiados e reproduzidos sem qualquer crédito em outros blogs de menor relevância.
Plagiar é fenômeno antigo, mas com a Internet essa prática cresceu assustadoramente. E do mesmo jeito que a Internet facilita o plágio, também possibilita facilmente o descobrimento e a denúncia da enganação.
Nos Estados Unidos o assunto tem recebido atenção de pesquisadores assustados com a dimensão do problema nas escolas e universidades. "Agora nós temos uma geração inteira de estudantes que encaram a informação disponível na Internet como algo que está lá, que apareceu simplesmente, sem ter autor, e que pode ser usada por qualquer um" diz Teresa Fishman, uma das diretoras do Centro pela Integridade Acadêmica -- Center for Academic Integrity -- da Universidade de Clemson, na Carolina do Sul, em artigo publicado no jornal "The New York Times".
E para exemplificar as declarações de Teresa Fishmam, o mesmo artigo traz o caso de Helene Hegemann, uma adolescente de 17 anos que recentemente lançou um romance que em poucas semanas figurava entre os cinco mais vendidos na Alemanha. O livro, chamado Axolotl Roadkill, fala sobre as aventuras sexuais e as experimentações com drogas de uma garota orfã, de 16 anos, nos clubes noturnos de Berlim. Foi recebido pela crítica alemã com muito entusiasmo, não só pela expressividade do texto e suas sugestões autobiográficas,mas principalmente pela juventude da autora.
Tudo parecia maravilhoso até um blogueiro, Deef Pirmasens, descobrir e denunciar na Internet que Helene tinham retirado passagens inteiras de um outro livro sobre o mesmo tema. O livro plagiado se chama "Strobo" e seu autor utiliza o pseudônimo "Airen". A princípio a mídia alemã caiu matando sobre Helene. Isso até ela receber apoio declarado dos organizadores da Feira de Livros de Leipzig, que anunciaram que o livro dela era um dos finalistas na categoria de ficção para receber o prêmio de 20 mil dólares. E um dos responsáveis pelo evento confirmou que o comitê de jurados sabia sobre as acusações de plágio e mesmo assim incluiu o livro na competição literária.
Helene não levou o prêmio, mas tampouco se sentiu envergonhada pelas críticas. Pediu desculpas por não ter sido transparente na divulgação de suas fontes de inspiração, mas recusou o rótulo de plagiadora. Disse que faz parte de uma geração diferente, que cria algo novo misturando e combinando livremente peças de informação encontradas em novas e velhas mídias. "Não existe nada original, no final das contas", ela disse numa mensagem distribuída para a Imprensa pela editora que publicou o livro. E ficou tudo por isso mesmo.
Leio o artigo sobre essa alemã cínica e seus editores desavergonhados e não posso deixar de pensar na minha adorada Rachel de Queiroz, que na tenra idade de 18 anos publicou aquela maravilha que é "O Quinze". Quem não leu deve voar para a livraria mais próxima e acabar imediatamente com essa ignorância indesculpável. E penso no genial Tom Jobim, que criou com basicamente uma única nota aquele espetáculo que é o "Samba de Uma Nota Só", entre outros deleites. E Noel Rosa, que morreu aos 26 anos e nos deixou uma herança imensa de beleza e talento. E Chico, Cartola, Edu Lobo, Dias Gomes, Aguinaldo Silva, e tantos e tantos outros, famosos e anônimos, homens e mulheres que criam textos, músicas, peças de teatro, novelas, livros, blogs, artigos. E que utilizando todos o mesmo material -- qualquer idioma, as mesmas notas musicais -- conseguem sim criar coisas estupendas e originais.
Penso nisso tudo e não consigo deixar de concluir que esse mundo está mesmo revirado. Temos uma geração que cresceu com computadores. Jovens que entendem tudo sobre essas novas tecnologias, que navegam sem qualquer assombro ou problema pelas veredas virtuais. Entretanto, parece que muitos deles não conseguem entender que se apropriar das idéias e palavras dos outros é algo grave e vergonhoso. Demonstra preguiça mental, negligência, falta de fé no próprio potencial e inteligência. Além de desrespeito pela propriedade intelectual e falta de apreciação pela criatividade e originalidade daqueles que criam textos, sons e imagens. Falando o Português bem claro, demonstra uma grande falta de caráter, isso sim.






