Pesquisadora aponta confusão no noticiário sobre alimentos e dá dicas aos jornalistas

Já reparou que algumas revistas ora dizem que chocolate faz mal e em outra edição alegam que o produto faz bem? A jornalista Tatiana Aoki reparou nesse vaivém de indicações de alimentos enquanto trabalhava nos principais veículos de comunicação e resolveu estudar o assunto.

Atualizado em 24/10/2013 às 15:10, por Maurício Kanno.


Crédito: Tatiana Aoki, que pesquisou entre 2011 e 2013 o noticiário de alimentos

“Isso não é só no Brasil. Pude comprovar com acesso a revistas do mundo todo sobre o assunto, como na Itália e na Argentina”, diz. Ao verificar esse tipo de problema na mídia sobre alimentos, a jornalista resolveu fazer um mestrado sobre o tema, cuja defesa aconteceu no dia 16 de outubro de 2013, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Como resultado, ela formulou um guia de 20 páginas, com 31 orientações práticas aos jornalistas.


O “manual de redação alimentício” proposto por Tatiana é dividido em quatro subtemas: forma da abordagem sobre notícias com alimentos, com 16 diretrizes; significado de termos e classificações sobre alimentos, com quatro orientações; conexão dos alimentos com o meio ambiente, com outras quatro diretrizes; e questões culturais e políticas relacionadas à comida, com mais sete itens.

“Segundo estudo x...” Uma das diretrizes mais curiosas da pesquisadora é desconfiar de matérias que comecem com “Um estudo indicou que...”. Segundo ela, a ciência é importante, mas sua aplicação na alimentação é relativamente nova e há questões culturais que também interferem. “Vai falar que carne de lontra faz bem, mas nem tem isso no Brasil”, ressalta.

A pesquisadora diz compreender que a mídia vive das novidades, por essa razão acredita que não é só “culpa” do jornalista essa mudança de informação sobre os alimentos. Entretanto, ela defende que os repórteres deveriam ser mais críticos para evitar a reprodução discursos contraditórios.

Há outros exemplos além do caso clássico do chocolate, ora mocinho, ora vilão. “Há uns três anos, ovo era proibido; hoje indicam comer um por dia; a margarina era indicada como mais saudável que a manteiga; hoje fala-se o contrário", comenta.

Dietas da moda Algo nem um pouco indicado para a pesquisadora, hoje diretora de mídias sociais em sua própria empresa, é seguir “dietas da moda”, como a “da proteína”. Tatiana explica que cada organismo é diferente e uma dieta deve ser indicada pelo nutricionista.

“É preciso reduzir drasticamente o consumo de carne das pessoas”, alerta a pesquisadora. “Comer um bife todo dia em vez de uma vez por semana, por exemplo, pode ser até algo culturalmente aceito, mas também não é saudável nem sustentável.”

Culpa e regulamentação Uma das principais diretrizes formuladas pela pesquisadora é a de não atribuir culpa individual. “Sua situação alimentar não é só culpa sua. Parece que você que é o preguiçoso, que tem que mudar.” Aoki diz que é preciso levar em conta que há outras influências, como o lugar em que a pessoa vive, não ter opções para alimentos saudáveis, levar-se duas horas para ir ou voltar do trabalho e não poder comer em casa, não ter tempo para comprar no mercado e preparar comida em casa, por exemplo.

A solução indicada por ela é a cobrança de políticas públicas do governo para alimentação e saúde, como verificou no Japão. Tatiana explica que a alimentação deve ser tratada de modo coletivo, incluindo as condições no trabalho, escola e até a regulamentação da publicidade – assunto que, segundo ela, é muito espinhoso e não sai do lugar.

Brasil campeão em agrotóxicos “O Brasil é o maior produtor e consumidor de agrotóxicos do planeta”, declara a jornalista. Para ela, isso é por causa das “leis frouxas” do país, que liberam quantidades e tipos de agrotóxicos, açúcares e conservantes que não seriam permitidos em países europeus ou no Japão. “Até uma maçã, que você pensa que é natural e saudável, está lotada de agrotóxicos cancerígenos; mas nunca vejo esse tipo de informação na mídia.”

A situação é complicada de resolver. Ela cita que ouviu agricultores dizendo que o solo no Brasil já está tão contaminado que “se não botar agrotóxico a planta não nasce, não cresce”. Entretanto, a jornalista também cobra do governo o incentivo e o ensino de alternativas saudáveis.
Termos deturpados “Fala-se o tempo todo de diet, light, orgânico, mas esses termos são deturpados no jornalismo e no marketing”, denuncia. “O diet no fim engorda mais ainda, apesar de não ter açúcar. E ‘orgânico’ então? Está super na moda e tudo pode ser nomeado como ‘orgânico’.”

A pesquisadora afirma que o termo “orgânico” foi popularizado por uma revista da editora Rodale, nos Estados Unidos. O sentido original do termo seria a compreensão de todo o processo pelo qual passou o alimento, usando-se o mínimo de agrotóxicos e similares, além de outros tipos de manipulações. “Mas isso é muito difícil quando os componentes vêm de vários lugares diferentes”, considera.

Perigo dos industrializados Apesar da circulação de informações duvidosas, há alguns fatores em que os jornalistas podem confiar, segundo ela, comprovados por órgãos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Por exemplo, constatou-se que várias epidemias de obesidade coincidiram com o aumento do consumo de alimentos industrializados.
Outro fator é a validade dos alimentos. A pesquisadora recomenda que, mais do que só verificar se está dentro do prazo de validade, é preciso notar se ele vai até muito tempo. Em geral, quanto mais perecível, mais saudável. “Vale questionar se algo que não estrague por tanto tempo ainda seria saudável.” E o profissional de comunicação também pode usar essa reflexão como diretriz.
Sustentável Os orgânicos de fato, além de mais saudáveis, também são mais sustentáveis. Em cima disso, a pesquisadora ressalta a importância de políticas públicas e aponta o Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) como o principal órgão que liderou mudanças no Brasil nesse sentido. “A sociedade civil tem que pressionar, mas a mídia também tem que fazer parte desse processo, impulsionando a população a agir.”
Tatiana compreende que a mídia também faz parte dessa cadeia e pode haver receio de publicar matérias ou capas que “não vão vender”, ou cair no gosto do público. Mas, para ela, o jornalista deve usar seu instrumento de trabalho, a informação, sem necessariamente ser extremista, mostrando outras visões. Veja todas as diretrizes indicadas pela pesquisadora em .


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