Pesquisador analisa caso Isabella Nardoni pelo olhar do “Jornal Nacional”
“O telespectador não conseguia, por mais que quisesse, absorver o impacto daquelas informações monstruosas, uma vez que outras novas informações não paravam de surgir ou de reverberar”, diz o pesquisador, jornalista e professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG), Conrado Mendes, a respeito do caso Isabella Nardoni, morta em 2008.
Atualizado em 22/10/2013 às 17:10, por
Maurício Kanno.
Crédito:Arquivo pessoal Conrado Mendes, pesquisador que estudou a cobertura do caso Isabella Nardoni
Em sua tese de doutorado, Mendes analisou a cobertura do assunto pela visão do “Jornal Nacional”, da Rede Globo. A pesquisa foi conduzida de 2009 a 2013 nas Universidade de São Paulo (USP) e Paris 8 Vincennes-Saint-Denis, na França. O trabalho foi publicado na da USP na última sexta-feira (18/10).
Segundo o professor, na semiótica o sujeito precisa de tempo para que “consiga converter o aspecto sensível da significação em inteligível”. No entanto, os telespectadores que acompanhavam o caso permaneciam estarrecidos pelo efeito de persistência incomum para esse noticiário.
Entre os elementos que causaram a repercussão do crime, o pesquisador cita o mistério inicial a respeito da morte da menina, pois o telespectador não sabia quem havia cometido o assassinato. Além disso, “os protagonistas da história eram brancos — para os padrões brasileiros — e pertenciam à classe média/média-alta, de modo a “singularizar” o crime, tal como o caso von Richthofen”, destaca.
Mendes ressalta que, embora os pais pelo senso comum sejam responsáveis pela criação e bem-estar dos filhos, o assassino da menina foi o próprio pai, junto com sua segunda mulher. Em semiótica, isso revelaria a forte “estrutura concessiva do crime”, ou seja, "algo que não se esperava aconteceu”.
O pesquisador problematiza também o termo utilizado pela mídia para se referir à mulher de Nardoni: “Não era a ‘companheira’, a ‘esposa’ ou ‘a segunda mulher’, mas a ‘madrasta’. Ao fazer isso, consciente ou inconscientemente, a imprensa emitia a sentença de culpa a Anna Carolina Jatobá, fundada no estereótipo de que as madrastas são sempre más.”
Crédito:Reprodução Casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá
Fait divers De modo geral, o pesquisador estudou relatos de eventos inesperados, os chamados fait divers , que seriam frequentemente relacionados a “mortes, agressões, notícias sobre temas bizarros”, típicos dos extintos “Notícias Populares” e “Aqui Agora”.
Crédito:Reprodução Isabella Nardoni, vítima que causou comoção nacional Com o fim desses veículos, esse papel hoje seria ocupado por telejornais como "Cidade Alerta" ou "Brasil Urgente". “Eles apresentam notícias que se pautam muito mais pelo sensível do que pelo inteligível. Mais pela emoção que pela razão”, explica Mendes.
Em sua pesquisa, ele buscou verificar se, atualmente, o fait divers poderia ter uma duração extensa. “Outros casos semelhantes, tal como o caso von Richthofen ou de Eloá Pimentel foram pauta de todos os noticiários brasileiros, ressoando, inclusive, internacionalmente, não apenas por uma edição, mas várias.”
Ele verificou ainda que o estudo de caso pode prescindir do sensacionalismo, pois o sensível já está no próprio conteúdo do relato. E, assim, o efeito se manteve na cobertura do “Jornal Nacional”, um veículo escolhido, entre outras razões, por não se pautar pelo sensacionalismo.
Em relação ao estudo da mídia audiovisual, a pesquisa mostrou uma certa dissociação “entre o saber e o crer”. “Isso porque se mostravam muito mais imagens do ponto de vista da acusação — simulações feitas por computador, fotos de peritos de vestígios, fotos de simulação com boneco forense — do que da defesa do casal acusado. Em outras palavras, pelo verbal, o noticiário era mais neutro, em termos de determinar os culpados, do que pelo visual.”
O pesquisador, agora professor do curso de Publicidade e Propaganda, da PUC/MG, e Design do Centro Universitário, UniBH, busca uma editora para publicação da tese.





