Pesquisa, inovação e competência brasileira

Pesquisa, inovação e competência brasileira

Atualizado em 25/02/2010 às 19:02, por Wilson da Costa Bueno.

O pesquisador brasileiro é competente, há centros de excelência em C & T em nosso País, temos grupos de pesquisa ativos e que se inserem magnificamente no cenário internacional, mas estamos ainda muito distantes do ideal. Quais as razões que justificam este quadro?
Muitas, infelizmente. Em primeiro lugar, porque, no fundo, o incentivo à pesquisa e sobretudo à inovação no Brasil é assistemático e está à mercê de governos que, sem foco, sem política efetiva ( apesar do discurso e de ações meramente midiáticas), não conseguem criar um ambiente favorável a médio e longo prazos. E pesquisa precisa de tempo de maturação, precisa de planejamento, precisa de capacitação permanente e, é lógico, precisa de recursos.
Apesar de os governos (vale para o de Lula mas também para os que o antecederam) proclamarem a inovação como uma necessidade, uma prioridade, na prática isto está longe de acontecer. As dificuldades interpostas pelos governos ao investimento das empresas privadas em P & D são enormes e incluem custos de financiamento elevados, alta carga tributária, juros que tocam as nuvens, burocracia obscena e por aí vai. As empresas públicas de pesquisa recorrentemente estão às voltas com crises, salários baixos para pesquisadores e corpo técnico, e muitas vezes se tornam reféns de decisões políticas que travam o processo de investigação.
Está certo, não se pode assumir a voz das empresas privadas, nacionais ou internacionais (que estão sempre querendo mais sem uma adequada contrapartida), porque elas preferem importar tecnologia, soluções desenvolvidas lá fora, do que pesquisar por aqui, diferentemente do que fazem em seus países de origem. Se não tomarmos cuidado, são ainda capazes de avançar sobre o financiamento público, como fazem sempre as montadoras (GM e outras) que buscam salvar a sua incompetência de gestão com dinheiro de governos (O BNDES adora financiar corporações multinacionais). Enquanto isso, os lucros migram para as matrizes em volume recorde, como tem acontecido agora, após a crise.

É forçoso reconhecer a interferência abusiva dos lobbies, que nas esferas governamentais e no Congresso, tentam (e muitas vezes conseguem), orientam o esforço de pesquisa no sentido de favorecer os seus interesses, desestimulando investigações que possam promover alternativas aos seus produtos ou buscando benesses para aumentar o seu monopólio. Este é o caso da indústria de biotecnologia (que se encastelou na CTNBio e anda ditando regras há um bom tempo), da indústria agroquímica, da indústria farmacêutica e de outras menos votadas que, aqui e lá fora, têm estabelecido parcerias espúrias com governos e parlamentos (você ainda não leu O mundo segundo a Monsanto, de Marie Monique Robin?).
Quer um exemplo? Você não se lembra das empresas inovadoras de biotecnologia que se formaram logo após o sucesso estrondoso do projeto da FAPESP que culminou com o mapeamento do código genético da praga do amarelinho que ataca os laranjais paulistas? Pois é, as empresas que eram da Votorantim, que tiveram financiamento oficial, constituídas por pesquisadores de universidades estaduais paulistas (de novo, verbas públicas), acabaram de mão beijada caindo no colo da Monsanto, logo depois da crise financeira recente. O pessoal do CNPq e o próprio Ministério da Ciência e da Tecnologia até chiaram mas o que interessa é que continuamos investindo dinheiro público para financiar interesses privados. E não se fala mais nisso para alegria da Monsanto, que aposta na nossa memória fraca e na nossa tímida indignação.
Em segundo lugar, ainda há um "estranhamento" entre as universidades e a iniciativa privada por absoluta falta de diálogo e, infelizmente, muitas vezes, quando a aproximação ocorre, os contratos firmados pecam pela falta de transparência, pela ingerência abusiva dos interesses privados na gestão dos grupos de pesquisa. É normal no relacionamento com algumas corporações (serão todas?) que se conclua pelas vantagens excessivas do capital em relação ao ambiente do ensino e da pesquisa (você ainda não leu A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, de Marcia Angel?). Em todo o mundo, e também por aqui, é sempre recomendável analisar detidamente estes contratos porque não é incomum (muito pelo contrário) percebermos que eles invariavelmente colocam os grupos de pesquisa, a própria universidade, a reboque das empresas multinacionais. A indústria farmacêutica faz isso, a indústria de biotecnologia faz isso, a indústria agroquímica (irmã siamesa da indústria de biotecnologia faz isso) e as exceções apenas confirmam a regra.
Em terceiro lugar, falta mesmo pessoal capacitado (temos engenheiros de menos, especialistas de menos, técnicos de menos e isso não é novidade) para dar sustentação a um programa mais ambicioso de pesquisa. Nossa educação técnica é um horror e iniciativas isoladas (ainda que mereçam ser saudadas como a que aumenta o número de vagas em ensino técnico e profissionalizante) são apenas um paliativo para um desafio tão grande.
É de se lamentar que a imprensa que cobre C & T não costume entrar no mérito dessas questões e que continue sendo cúmplice de fontes empresariais ou oficiais, veiculando informações comprometidas com interesses comerciais ou políticos.

É absolutamente necessário examinar, investigar os contratos estabelecidos entre universidades e empresas de pesquisa públicas e interesses privados, exigir transparência e denunciar quando essa aproximação propicia vantagens excessivas, abusivas, escandalosas para as corporações em detrimento do interesse da sociedade.

O jornalismo científico precisa participar mais ativamente do debate sobre a definição da política brasileira de ciência, tecnologia e inovação, ser mais investigativo, pluralizar mais as fontes de informação, enxergar além da notícia (você acha que os diretores de P& D da Monsanto, da Bayer, da Syngenta ou da Merck são isentos e que suas falas deveriam ser reproduzidas sem contestação?).
A ciência e a tecnologia não são terrenos livres de contaminação e precisam estar sob vigilância constante da sociedade. Temos felizmente um número importante de pesquisadores independentes mas, assim como acontece no mundo inteiro, circulam por aqui "pesquisadores" (e não são poucos) que não passam de porta-vozes de interesses privados. É preciso separar o joio do trigo sempre.
A sociedade civil deve esta mobilizada para enfrentar os lobbies, denunciar as cumplicidades espúrias, como se pode perceber com o escândalo das doações a campanhas políticas, envolvendo prestadores de serviços públicos que se lambuzam com o dinheiro de todos nós.
Não existe almoço grátis. É bom desconfiar sempre. Em nome do fortalecimento da ciência e da tecnologia nacionais, nossos olhos devem estar bem abertos. Empresas monopolistas lucram com os nossos cochilos e a nossa omissão. Vamos ficar mais atentos aos financiamentos às empresas privadas? Carros que poluem e congestionam nossas médias e grandes cidades precisam de redução de IP? Empresas que fazem recall toda a semana por abrirem mão da qualidade de fabricação deveriam continuar merecendo apoio oficial?
O apoio decisivo e permanente à pesquisa, à ciência e a tecnologia e inovação não é apenas uma questão de perspectiva, de visão de longo prazo.
O investimento em ciência, tecnologia e inovação não deve ser analisado apenas com um olhar técnico, mas político, econômico e sobretudo contemplando o interesse da sociedade.
Não teremos futuro, se deixarmos que corporações ditem as regras para a pesquisa no Brasil e que fortaleçam os lobbies e as parcerias para impedir que caminhemos por nossas próprias pernas.
A defesa da não rotulagem dos transgênicos pela nova gestão da CTNBIO evidencia os riscos a que estamos submetidos quando ciência, política e interesses privados e de grupos se entrecruzam.
Há uma realidade que precisa ser enfrentada de vez e o jornalismo científico brasileiro não pode (como tem feito) ignorá-la: há pesquisadores, grupos de pesquisa, que defendem apenas os seus interesses, o seu direito de pesquisar, e que colocam estes aspectos acima do interesse público. As decisões sobre ciência e tecnologia não podem jamais estar restritas à comunidade científica porque elas impactam toda a sociedade.
As mamães que dão papinha aos seus filhos queridos não deveriam também ser ouvidas na questão da rotulagem dos transgênicos? Ou é justo que não tenham o poder de escolha ou de decisão? Por que a gestão da CTNBIO e os produtores de transgênicos têm tanto medo da rotulagem, hein?
De novo, recomendamos a leitura de O mundo segundo a Monsanto. Algumas respostas certamente você encontrará por lá.
Em tempo 1 : a imprensa no dia 24 de fevereiro andou publicando informação do CIB sobre o avanço dos transgênicos no Brasil. Embora os dados venham de fonte comprometida com as empresas de biotecnologia, que têm todo interesse em proclamar o sucesso dos transgênicos, não há dúvida de que o avanço é real e deverá continuar, sobretudo com a adesão explícita da CTNBIO aos interesses dos produtores de sementes transgênicas. Um dado, no entanto, mereceria explicação, mas a imprensa que só repete fontes comprometidas sem questionamento, não o fez: se, como afirma a entidade responsável pelos dados sobre ganho obtido com as sementes transgênicas, o ganho econômico gerado entre 1996 e 2008 foi de quase 52 bilhões de dólares (com redução de custos e produtividade), por que o preço da soja não declinou? E também o das sementes? Ninguém vai querer nos convencer de que os lucros ficaram com os produtores, hein?
Em tempo 2 : Alguns países europeus importantes (França e Alemanha) deixaram de trabalhar com transgênicos e o CIB sempre acha que o problema é político nesse caso, para desqualificar os adversários. Cuidado, muito cuidado, com o argumento de redução de custos e os produtores de sementes têm já enfrentado problemas no Brasil por causa disso. O lobby é formidável, o comprometimento das informações a este respeito também. Pena que a imprensa insista, sem espírito crítico, em comer na mão de fontes comprometidas e reproduz informações que as interessam com o objetivo de mal informar a opinião pública. Olho vivo. O CIB não é fonte isenta quando se refere a transgênicos, muito pelo contrário. É o atestado claro da relação entre ciência, política e sobretudo interesses privados. Só não vê quem não quer. Os produtores multinacionais de biotecnologia devem estar rindo à toa por terem emplacado a notícia. Os jornalistas e os veículos brasileiros andam cada vez mais reféns das fontes. E faz tempo. De novo fica a sugestão para os repórteres que reproduziram as falas, sem maiores questionamentos sobre a independência das fontes: leiam O mundo segundo a Monsanto ou assistam ao documentário com o mesmo nome. Talvez fiquem mais espertos da outra vez.